O governo não faz a mínima ideia do que seja terrorismo
Leonardo
Sakamoto*
Jornalista
O governo do interino Michel Temer “usou um canhão para
abater passarinho” com a Operação Hashtag, na qual 10 brasileiros foram presos
FUZILEIROS NAVAIS EM TREINAMENTO PARA AS OLIMPÍADAS EM PRAIA DO RIO DE JANEIRO |
A
menos que algum fato novo apareça, o governo brasileiro provocou um
estardalhaço midiático, nesta quinta (21 de julho), pelo fato da Polícia Federal ter prendido dez zé manés
suspeitos de simpatizarem com grupos terroristas.
Há
quem diga que isso nos tranquiliza por mostrar que o governo é capaz de
garantir a segurança e a integridade de atletas, jornalistas, visitantes e
brasileiros durante os Jogos Olímpicos – a serem realizados no Rio, em agosto.
Na
verdade, o que todo esse episódio
mostra, e isso ficou evidente na entrevista coletiva do ministro da Justiça
Alexandre de Moraes sobre o assunto, é que o país não faz a mínima ideia do que
seja terrorismo. E de como combatê-lo. Mas agora vai usar o caso como carta
branca para outras ações do tipo Minority
Report baseadas na famigerada Lei
Antiterrorismo.
Além
disso, se o governo Michel Temer queria que a visibilidade de sua operação
mostrasse ao mundo que estamos preparados para os Jogos (dúvida que ganhou
força após o ataque que matou mais de 80 pessoas em Nice, na semana passada), o
resultado pode ser o inverso.
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ALEXANDRE DE MORAES - Ministro da Justiça Reação patética, exagerada e espalhafatosa ! ! ! |
O estardalhaço feito sobre
evidências frágeis e a notoriedade dada a um grupo sem ligação comprovada com
lideranças do terror tem um potencial nocivo. A divulgação
gratuita obtida através de um caso como esse pode incentivar atentados reais
por qualquer idiota que queira visibilidade – idiotas que podem não ter
relação alguma com os fundamentalistas de sempre, mas agirem por conta própria
guiados pelas ideias alheias ou por sua própria sede por sair da
invisibilidade.
Se algo causa impacto, é
claro que será copiado. E rapidamente, por conta da informação circulando em tempo real, seja
via rádio e televisão, seja pela internet. Não estou jogando a culpa no
mensageiro ou dizendo que o mimetismo é a causa das desgraças do mundo, mas temos certa parcela de responsabilidade
quando transmitimos fatos acriticamente, como se notícias fossem neutras,
não houvesse contexto social e todos os receptores da informação
compartilhassem dos mesmos valores.
Por
fim, vale sempre lembrar que podemos sofrer um ataque terrorista no Rio. É uma
possibilidade. Mas, certeza mesmo, é que
morremos diariamente pelas mãos do tráfico, da polícia ou da milícia. Nestes
momentos, uma tristeza toma conta porque banalizamos
a violência cotidiana a ponto de não render mais manchetes.
O
governo usou um canhão para abater passarinho. Espero que não ajude a inflar os
mesmos monstros que ele quer destruir.
* LEONARDO SAKAMOTO é jornalista e doutor em Ciência Política
pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o
desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP e
pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York,
é diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para
Formas Contemporâneas de Escravidão..
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