Papa na Polônia: uma presença que deixa marcas
“Onde está Deus, quando inocentes morrem por causa da
violência, do terrorismo, das guerras?”
Andrea
Tornielli
Vatican
Insider
29-07-2016
«O Senhor quer fazer de vocês uma resposta concreta às
necessidades
e aos sofrimentos da humanidade»,
afirmou Papa Francisco durante a Via Sacra da Jornada
Mundial da Juventude em Cracóvia, na Polônia
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PAPA FRANCISCO dirige a palavra aos jovens presentes à Via Sacra da Jornada Mundial da Juventude Parque Błonia - Cracóvia - Polônia (18h00 - hora local) Sexta-feira, 29 de julho de 2016 |
“Onde
está Deus?
Onde
está Deus, se no mundo existe o mal, se há pessoas famintas, sedentas, sem
abrigo, deslocadas, refugiadas?
Onde
está Deus, quando morrem pessoas inocentes por causa da violência, do
terrorismo, das guerras?
Onde
está Deus, quando doenças cruéis rompem laços de vida e de afeto?
Ou
quando as crianças são exploradas, humilhadas, e sofrem – também elas – por
causa de graves patologias?”
A
meditação do Papa Francisco ao final da Via
Sacra na explanada do Parque Blonia
(Cracóvia – Polônia) começa com uma série de perguntas “para as quais não há
resposta humana”.
Bergoglio
reuniu-se com os jovens que há cerca de três horas esperavam por ele, escutando
testemunhos, assistindo a filmes, entre cantos e orações. A Via Sacra – Via da Misericórdia – prevê a exibição de vídeos ao vivo
de outras partes do mundo. Em cada estação, a cruz é levada por um grupo
diferente de jovens que pertencem a diferentes associações do mundo.
Em
sua intervenção, o Papa Francisco, após um dia de contato com a memória dolorosa
do passado e com os sofrimentos dos mais pequeninos, explicou que diante da
falta de resposta para a dor inocente “só podemos olhar para Jesus e perguntar a
Ele. E a
resposta de Jesus é esta: ‘Deus está neles’, Jesus está neles, sofre
neles, profundamente identificado com cada um”.
O próprio Jesus “escolheu
identificar-se com estes irmãos e irmãs que sofrem por causa da dor e da
angústia, aceitando percorrer a via dolorosa que leva ao calvário”.
“Abraçando o madeiro da cruz, Jesus abraça a
nudez e a fome, a sede e a solidão, a dor e a morte dos homens e mulheres de
todos os tempos. Nesta noite, Jesus – e nós com ele – abraça com amor especial os nossos irmãos sírios, que fugiram da
guerra. Saudamo-los e acolhemo-los com fraterno afeto e simpatia”.
Em
seguida, o Papa recordou as 14 obras de misericórdia:
* dar de comer a quem tem
fome,
* dar de beber a quem tem
sede,
* vestir os nus,
* dar pousada aos peregrinos,
* visitar os enfermos;
* visitar os presos;
* enterrar os mortos;
* dar bons conselhos,
* ensinar os ignorantes,
* corrigir os que erram,
* consolar os tristes,
* perdoar as injúrias,
* suportar com paciência as
fraquezas do nosso próximo,
* rezar a Deus por vivos e
defuntos.
“Somos chamados a servir
Jesus crucificado em cada pessoa marginalizada, a tocar a sua carne bendita em
quem é excluído, tem fome, tem sede, está nu, preso, doente, desempregado, é
perseguido, refugiado, migrante. Naquela carne bendita, encontramos o nosso Deus;
naquela carne bendita, tocamos o Senhor. O próprio Jesus no-lo disse, ao
explicar o ‘protocolo’ com base no qual seremos julgados: sempre que fizermos isto a um dos nossos irmãos mais pequeninos,
fazemo-lo a Ele”. “A credibilidade
dos cristãos é posta em jogo no acolhimento da pessoa marginalizada que está
ferida no corpo, e no acolhimento do pecador que está ferido na alma. Não
nas ideias: aí”.
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PAPA FRANCISCO discursa diante de milhares de jovens reunidos no parque Błonia, em Cracóvia, para a Via Sacra |
“O caminho da Cruz não é sadomasoquista, o caminho da Cruz é o único que vence o
pecado, o mal e a morte”, é o “caminho
da esperança, e eu gostaria que vocês fossem semeadores de esperança”,
convidou o Papa.
Hoje,
afirmou Francisco, “a humanidade necessita de homens e mulheres,
particularmente jovens como vocês, que não queiram viver a sua existência ‘pela
metade’, jovens dispostos a entregar suas vidas para servir generosamente os
irmãos mais pobres e fracos”. Percorrendo a via da cruz, do compromisso pessoal
e “do sacrifício de vocês mesmos”.
“Queridos
jovens – concluiu Bergoglio –, naquela Sexta-Feira Santa, muitos discípulos
voltaram tristes para suas casas, outros preferiram ir para a casa da aldeia a
fim de esquecer a cruz. Pergunto-vos:
nesta noite, como vocês querem voltar às suas casas, aos seus locais de
alojamento? Nesta noite, como querem voltar a encontrar-se com vocês
mesmos? O mundo olha para nós, cabe a cada um de vocês responder ao desafio
desta pergunta”.
Traduzido do italiano por André Langer. Acesse a versão original
deste artigo, clicando aqui.
Papa se torna convidado incômodo na Polônia
Christoph
Strack
Deutsche Welle
29-07-2016
A fama de católicos devotos dos poloneses se aplica em
especial a seu governo nacional-conservador. Mas, ao contrariar expectativas em
sua visita, Francisco estraga a festa.
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Papa acompanhado do Presidente polonês Andrzej Duda e esposa Agata Kornhauser-Duda, por ocasião de sua chegada ao país na quarta-feira, dia 27 de julho de 2016 |
A
coisa poderia ter sido tão boa: o papa, o sucessor do apóstolo Pedro, de visita
a Cracóvia por cinco dias. Centenas de milhares de jovens entusiasmados, os
olhos de todo o mundo pregados na cidade no sul da Polônia. E ele está
acomodado nos melhores aposentos da cidade, em Wawel, o antigo castelo real, a
apenas alguns passos da sepultura do novo "santo" da nação, o ex-presidente
Lech Kaczynski, morto em 2010 num acidente aéreo.
Mas aí Francisco vem e
simplesmente sai falando. Ele deixa bem claro que não está de acordo com os
rumos da política polonesa, diz o que gostaria que fosse diferente. Aí é que a festa começa de
verdade. O discurso do líder da Igreja Católica aqui não pôde ser tão arrasador
como sua crítica à União Europeia em 2014, no Parlamento Europeu, em
Estrasburgo; como ao receber o Prêmio Carlos Magno há pouco menos de três
meses, no Vaticano. Mas ela foi suficientemente direta.
Não
se trata apenas do curso restritivo do governo nacional-conservador no tocante
ao acolhimento de refugiados. Já na
homenagem ao país anfitrião soou uma nota de crítica. Francisco evocou (em palavras, aliás, que em parte poderiam ser de
seu grande antecessor polonês, João Paulo II) o "sonho de um novo humanismo europeu", da cultura comum de
toda a Europa, norteada pelo cristianismo.
O
sumo pontífice falou de uma "consciência
de identidade sem qualquer prepotência"; exortou à "abertura para a renovação";
alertou para a "unidade, também em
meio a diferenças de opinião". Ele louvou a reconciliação
teuto-polonesa, iniciada pelas Igrejas; lembrou, ao seguramente devoto
auditório, que Deus "transforma
dificuldades em chances e cria novas situações onde parecia ser
impossível".
E
então se referiu expressamente à migração: é
necessária "a disposição de acolher aqueles que fogem da guerra e da fome;
a solidariedade perante os que foram privados de seus direitos
fundamentais". Resumindo: cabe "fazer o que seja possível para
minorar o sofrimento".
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PAPA FRANCISCO discursa às autoridades polonesas e ao corpo diplomático reunidos no Castelo de Wawel, em Cracóvia, Polônia Quarta-feira, 27 de julho de 2016 |
Governo
polonês posiciona-se contra acolhida aos refugiados
A
bela congregação festiva em Wawel: a primeira-ministra
Beata Szydlo, que apenas horas antes criticara veementemente a chanceler
federal alemã, Angela Merkel, por sua política para os refugiados. Cujo
ministro do Interior, Mariusz Błaszczak,
anunciara, antes das palavras do papa, que França e Alemanha ilustravam o
fracasso do multiculturalismo: que o
homem de Roma dissesse o que quisesse, a Polônia permaneceria em seu curso
político.
Szydlo
e Błaszczak se esforçaram para manter uma cara boa. E, aliás, também os bispos do país, muitos dos quais
vivenciaram o comunismo ainda como padres e que agora se mostram tão satisfeitos com tanto conservadorismo, também
nacionalista. [O Evangelho deveria vir primeiro e
à frente de todo nacionalismo!]
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BEATA SZYDLO Primeira-Ministra da Polônia em choque com a chanceler Angela Merkel que é a favor de acolher os refugiados na Europa |
Francisco
apelou às consciências deles todos – às dos bispos, ainda uma segunda vez, a
portas fechadas. O "papa de
longe" lembrou à Europa e à Polônia de valores fundamentais, da mensagem
cristã inscrita no continente. Certamente ele não espera que a liderança
polonesa repita o que Merkel fez, ignorando as regras europeias numa situação
percebida como emergencial.
Mas
o papa Francisco formulou expectativas – expectativas que valem para qualquer
nação da Europa, diante do novo debate após os hediondos atentados. Extremamente significativo foi o Vaticano
ter esclarecido previamente – numa iniciativa inusual, antes de uma viagem
desse gênero – que o papa e os bispos da
Polônia estavam de pleno acordo na questão dos refugiados. Só que os bispos
seguramente ainda não estavam sabendo disso, poder-se-ia imaginar...
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MARIUSZ BLASZCZAK Ministro do Interior da Polônia, radicalmente contrário à acolhida de refugiados por parte de seu país |
Manipulação
da notícia pelo governo polonês
Um
detalhe demonstra quão necessárias as palavras do pontífice foram para esta
Polônia de 2016. O novo governo do
Partido da Lei e Justiça (PiS) forçou
a emissora estatal à conformidade. O discurso do papa é o lead no site da
televisão estatal na internet. E lá se
dizia que Francisco teria frisado que a Polônia, esse país de emigrantes,
deveria "facilitar o retorno" de seus próprios emigrados. Só mais
tarde mudou-se a manchete para aquilo que jornalistas de todo o mundo
noticiaram, quase literalmente: "Papa
pede que Polônia acolha refugiados".
Dá
para imaginar como foi acirrada a disputa na emissora, ainda antes do discurso
papal. Pois também sobre outros detalhes do programa da visita o veículo
espalhou boatos: consta que a liderança
em Varsóvia teria desejado que Francisco visitasse o túmulo de Lech Kaczynski –
cujo local de sepultamento, ao lado dos reis da Polônia, é antes inusitado. São
apenas alguns degraus até as sepulturas de muitos grandes poloneses, ter-se-ia
argumentado.
Não,
respondeu Roma, aos degraus altos... é o que disseram os boatos. Vai-se
construir então uma escada rolante para ele, teria reagido alguém no mais alto
escalão do país. Não, continuou sendo a resposta, e o papa não foi até o túmulo de Kaczynski. Mas talvez alguém tenha
reparado a disposição com que o religioso subiu os degraus da estreita escada
no Wawel para se encontrar com o presidente Andrzej Duda.
Os
próximos dias do papa Francisco na Polônia ainda podem trazer muitas surpresas.
A versão original, em alemão, deste artigo, é
acessível aqui.
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