O pesadelo de ser criança no Brasil de hoje
Na cidade de São Paulo, Polícia Militar apreende
um menor a cada três horas
Emílio
Sant’Anna
No Estado de São Paulo, os flagrantes de menores
cresceram 41% entre
2010 e 2015; já os de adultos tiveram alta de 61%
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MENOR DETIDO PELA POLÍCIA - CENA CADA VEZ MAIS COMUM NO PAÍS! |
"A primeira passagem dele foi por furto.
Estava com mais dois e pegou três motos do pátio da delegacia. Levou para
curtir no fim de semana", afirma I.P., 37, mãe de um adolescente de 17 anos, que acumula oito
passagens pela polícia e duas internações na Fundação Casa.
Na
delegacia do Parque São Rafael, eles não param de chegar. Policiais estimam que sejam responsáveis por até 60% das ocorrências do
distrito. Brancos, negros, altos ou baixos, com famílias desestruturadas ou
não, adolescentes "cada vez mais
novos" são apreendidos diariamente.
Ali,
no bairro pobre, repleto de ocupações irregulares, no extremo leste de São
Paulo, eles compõem um retrato exato da situação dos menores envolvidos em atos
infracionais na cidade. Nos cinco
primeiros meses deste ano, a Polícia Militar realizou, em média, uma apreensão
em flagrante a cada três horas.
Ao
todo foram 1.333 casos, ou pouco mais de 10% do total registrado na cidade – no Estado, os flagrantes de menores de
idade são 15% do total. Roubos, tráfico
e furto são os principais atos infracionais
cometidos por eles (95%). Casos mais graves como homicídios, latrocínios e
estupros somam 0,5%.
No
Estado todo os flagrantes de menores cresceram 41% em relação a 2010 – já os de
adultos tiveram alta de 61%.
A zona leste lidera o
ranking de menores apreendidos na cidade. Nessa região, o menino Waldik Gabriel Silva
Chagas, 11, foi morto na noite de sábado (25 de junho), por guardas-civis que
realizavam ronda em Cidade Tiradentes, a cerca de 30 km do centro.
Segundo
depoimento, motoqueiros avisaram os agentes que um Chevette prata acabara de
ser furtado. Os Guardas Civis Metropolitanos [GCMs] localizaram o carro e
começaram a perseguição, que terminou com o menino morto por um tiro na nuca.
De
acordo com a versão do guarda que fez o disparo, os ocupantes do veículo teriam
atirado primeiro e ele então teria revidado. Os outros dois guardas que estavam
no carro, no entanto, contradisseram o depoimento do colega.
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WALDIK GABRIEL SILVA CHAGAS tinha apenas 11 anos e foi morto pelo disparo de um Guarda Civil Metropolitano de São Paulo Sábado, 25 de junho de 2016 |
Outro
caso similar ocorreu no início do mês, Italo,
10 anos, morreu atingido por um tiro na cabeça quando fugia da Polícia Militar
[PM] em um carro furtado, na Vila Andrade, zona sul.
Contestadas,
as ações de guardas-civis e policiais militares são investigadas.
Ostentação
Roubar
para "curtir no fim de semana" não parece incomum. "Isso veio com o funk, com a
ostentação. Eles não começam a roubar para vender, mas para colarem bem na
quebrada", diz o técnico em eletrônica C.B., 34, tio de um adolescente
apreendido na Fundação Casa e que se tornou conhecido na delegacia de São
Mateus.
Em dois anos, o jovem de 16
anos foi pego 11 vezes.
Para
o coordenador do Centro de Estudos e
Pesquisa em Segurança Pública da PUC Minas, Luis Flávio Sapori, o ingresso
de menores no mundo do crime para ostentar revela um padrão de comportamento de
pelo menos duas décadas no país e que encontra terreno fértil em locais de alta vulnerabilidade nas
cidades.
Outro
problema, diz o delegado Vanderlei Cavalcanti, titular do distrito de São
Mateus, é que esses jovens começam a
cometer atos infracionais cada vez mais cedo, acompanhados por adultos.
Em
abril, Leonardo Caíque Cassiano Almeida, 15 anos, morreu após ser baleado em
uma tentativa de roubo, no mesmo bairro. O adolescente voltava da escola com um
grupo de amigos quando foram abordados por criminosos em duas motos na rua
Forte de Cananéia, por volta das 23h.
Na
tentativa de defender uma colega, o menino entrou na frente dela e foi atingido
no peito. Os ladrões fugiram sem levar nada.
Aquele,
no entanto, não era o primeiro assalto da noite. Em cima da mesa do delegado
estão um pedido de prisão e três de apreensões.
O
suspeito de ter feito o disparo é Alexandre Silva, 19. Com ele, estavam três
adolescentes. Todos estão foragidos.
Campeãs
em flagrantes carentes
Na medida em que se avança
em direção ao extremo da zona leste de São Paulo, as carências ficam cada vez
mais claras.
A avaliação é dos próprios moradores e de quem trabalha na região.
"Falta muita coisa
mesmo. Principalmente esporte, cultura e lazer", afirma o conselheiro tutelar em São Mateus Cacio Pereira Nunes.
Ali,
o Índice de Desenvolvimento Humano
Municipal, por exemplo, fica a baixo
da média da cidade. O mesmo ocorre com o vizinho Parque São Rafael e outras
áreas da região.
Outra
forma de observar essas carências está nos dados da Polícia Militar sobre
apreensões de menores neste ano. Nas áreas de dois batalhões da PM estão os
distritos com os maiores números de casos: Ermelino
Matarazzo, Vila Jacuí, Jardim Popular (2º), Parque São Rafael, São Mateus e Teotônio Vilela (38º).
Nessas duas áreas, com quase
700 mil habitantes, em que 209 adolescentes foram apreendidos em flagrante
neste ano, a falta de estrutura é uma constante. "Temos cerca de 150
policiais civis para Parque São Rafael, São Mateus e Teotônio. É muito menos do
que cidades do interior", diz um agente que pede para não se identificar.
Nas
delegacias da região, o mesmo discurso se repete. "Falta tudo por aqui", diz outro agente. [...]
Fonte: Folha de S. Paulo –
Cotidiano –
Domingo, 3 de julho de 2016 – Pág. B7 – Internet: clique aqui.
Quatro em cada dez desaparecidos em São Paulo
são crianças e adolescentes
Rogério Pagnan
e Artur Rodrigues
Casos se concentram em regiões violentas;
sumiços de crianças geralmente têm relação com
sequestros
A
cada dez pessoas desaparecidas no Estado de São Paulo nos últimos três anos,
quatro são crianças ou adolescentes. Ao
todo, são 4.012 menores de 18 anos que não voltaram para casa neste período
– em sua maioria, moradores de regiões pobres da Grande São Paulo.
Os
números fazem parte de uma pesquisa inédita do Plid (Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos), dos
ministérios públicos de São Paulo e Rio de Janeiro, que reúne o principal banco
de dados do país sobre desparecidos. No
total desde 2013, há 9.552 casos que continuam como não localizados – somando
os já solucionados no período, foram 17.939.
Os registros se concentram
em regiões onde a violência urbana é grave e há relatos de ação do crime
organizado e de policiais violentos.
Como
o jornal Folha de S. Paulo mostrou,
foi o Plid que detectou, em 2014, que uma
série de desaparecidos em São Paulo tinha sido enterrada como indigentes,
mesmo identificados – muitos com RG no bolso.
Os
distritos policiais com mais ocorrências na região metropolitana são o da
cidade Francisco Morato e, em São
Paulo, os 73º Distrito Policial (Jaçanã) e 72º Distrito Policial (Vila
Penteado), ambos na zona norte.
Em seguida, vêm delegacias dos extremos leste e sul.
"Não raro, pela
narrativa, a gente percebe que [os desaparecidos] já estão mortos. Só não
achamos o corpo ainda", afirma a promotora Eliana Vendramini Carneiro, coordenadora do Plid
São Paulo. "Isso é uma coisa muito
comum, principalmente quando você ouve falar sobre violência policial e tráfico
de drogas."
Além
da violência urbana, a promotora também aponta outros fatores que fazem crescer
essas estatísticas de sumidos. Um deles é o tráfico de seres humanos, seja
para exploração sexual ou para o trabalho escravo. Também há casos de tráfico de órgãos.
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MUITAS CRIANÇAS E ADOLESCENTES saem de suas casas, fugindo da violência doméstica ou por terem se viciado com drogas |
Jovens
e Crianças
Há
aspectos diferentes para desaparecimentos de adolescentes e crianças. Os
primeiros representam 33% do total de desaparecidos, mas o percentual é
reforçado por casos de jovens que saem
de casa devido a conflitos domésticos e uso de drogas.
Segundo
o advogado Ricardo Cabezón,
presidente da Comissão de Direitos
Infantojuvenis da OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil em São Paulo), o índice de reencontro de adultos é de 70%.
"Já o de crianças é bem diminuto."
Segundo
ele, nos casos de crianças, é muito
maior a incidência de sequestros para adoção ilegal
e exploração sexual. São grupos
que agem rapidamente, em locais de grande circulação de pessoas.
"Em
portos, aeroportos, rodoviária, o
documento usado para provar que o filho é seu, a certidão de nascimento, é
fácil de falsificar", afirma.
Por
isso, as famílias devem procurar a polícia o quanto antes. Hoje, embora seja
possível encontrar resistência em algumas delegacias, já existe uma lei que garante o direito de que as buscas se iniciem
antes que se passem 24 horas do desaparecimento.
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Um setor do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) é que se encarrega de investigar os desaparecimentos de pessoas no Estado de São Paulo |
Trabalho
Policial
A
partir de 2014, normas internas foram publicadas pela Polícia Civil para
aumentar a atenção aos desaparecidos – a regra não inclui, porém, casos de
adolescentes.
Apesar da mudança, muitos
parentes de desaparecidos ainda reclamam da falta de ajuda do poder público, e, por isso, formam uma
grande rede de busca de desaparecidos.
A polícia paulista tem
apenas uma pequena equipe no DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa) dedicada exclusivamente ao assunto.
Em
2014, conforme a Folha de S. Paulo
revelou, entre 2012 e 2013, essa
delegacia abriu 51 inquéritos para apurar desaparecimentos – 0,3% do total de
casos registrados na capital naquele período (18.176). [Ou seja, praticamente nada! Um gota no oceano!]
Em
2015, a Segurança Pública diz que a mesma delegacia abriu 228 inquéritos para
investigar desaparecidos e que foram instaurados 8.530 Pids (Procedimentos de
Investigação de Desaparecidos) – apurações sem acompanhamento da Promotoria e
do Judiciário.
O
governo Geraldo Alckmin (PSDB) diz que, em 2015, foram registrados no Estado
27.759 boletins de ocorrência de pessoas desaparecidas, dos quais 27.321 foram
solucionados.
A polícia não informou,
porém, quantas pessoas estão desaparecidas no Estado por suas próprias contas. Nem, também, qual é a
estrutura dedicada para a busca de desaparecidos.
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