Reeleger corruptos é uma problema ético e religioso!

José María Castillo*
blog "Teología Sin Censura"
28-06-2016

A vitória do Partido Popular na Espanha, mesmo tendo sido o
grande gerente da corrupção no país, serve de reflexão
e autocrítica para os brasileiros também 
Primeiro ministro espanhol e candidato do Partido Popular, MARIANO RAJOY
acena para apoiadores do partido após resultado de eleições na Espanha

É evidente que a importante vitória do Partido Popular, nas recentes eleições gerais, chamou atenção e surpreendeu – por inesperada – os espanhóis e a todos que conhecem o que vem ocorrendo na Espanha, nos últimos anos. Um país que não só suporta a corrupção, como também volta a eleger majoritariamente aqueles que geriram uma fonte fecunda de corruptos, é por isso mesmo um país no qual a percepção de impunidade se torna mais patente. Uma sociedade que elege, por notável maioria, o partido que foi uma importante fonte de corrupção, é uma sociedade que antepõe outros valores à honradez ética. E também à honestidade religiosa. Porque, afinal de contas, o que se diz às pessoas corruptas, em uma sociedade assim, é que continuem roubando. Porque aqui, “senhores”, é possível roubar de forma impune. Não acontece nada.

Sendo assim, a primeira coisa que me ocorre é que, para uma notável maioria dos espanhóis, é mais importante na vida a segurança que a honradez. Para ter segurança, não me importa que continuem cometendo os disparates e as injustiças que foram cometidas nos últimos anos. O que significa, é lógico, um problema político importante. Porém, este é também um problema religioso mais grave do que alguns, seguramente sem se dar conta, imaginam. Importa e nos preocupa mais o próprio bem-estar que o sofrimento dos outros. O que evidentemente nos situa diametralmente opostos ao Evangelho. E isto, para um cristão, é um assunto grave, muito grave. Se é que a vida e os ensinamentos de Jesus representam algo em nossas vidas.

Não digo estas coisas por motivos políticos partidários. Não pretendo nem atacar a direita, nem defender a esquerda. Nem sequer pretendo insinuar que o melhor é o centro. Defendo aqueles que se veem pior tratados nesta sociedade, aqueles que são as vítimas dos corruptos.
JOSÉ MARÍA CASTILLO
Teólogo espanhol e autor deste artigo

No mais, devo destacar que a corrupção não se resolve pesando as consciências com motivações religiosas. Tais motivações, ajudam aqueles que possuem crenças religiosas. No entanto, para o conjunto da sociedade são insuficientes. O que fazer, então? É urgente revisar a fundo determinados pressupostos do Direito vigente. Concretamente:

1) Suprimir a prescrição dos crimes de corrupção, cometidos por cargos da administração pública;

2) O crime de roubar dinheiro da administração pública só será perdoado com a devolução do dinheiro roubado;

3) Reduzir ao mínimo possível o privilégio dos governantes para nomear, a dedo, cargos da administração pública.

Termino, mais uma vez, insistindo em que, se falo destas coisas, é pela força de uma convicção que é determinante em minha vida: o silêncio e a passividade diante do sofrimento dos mais desamparados torna-nos responsáveis por esse sofrimento.

Traduzido do espanhol pelo Cepat. Para acessar a versão original deste artigo, clique aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Quinta-feira, 30 de junho de 2016 – Internet: clique aqui.

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