MENSAGEM DA QUARESMA - Papa Francisco
«Portanto a Quaresma deste Ano Jubilar é um tempo
favorável para todos poderem, finalmente, sair da própria alienação
existencial, graças à escuta da Palavra e às obras de misericórdia. Não
percamos este tempo de Quaresma favorável à conversão!»
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PAPA FRANCISCO |
Como
é de hábito todos os anos, no último dia 26 de janeiro, Papa Francisco divulgou
a sua mensagem para este que é o tempo mais forte na liturgia e espiritualidade
cristãs, ou seja, a Quaresma.
Papa
Francisco faz um convite aos fiéis para que a Quaresma deste Ano Jubilar da
Misericórdia seja vivida mais intensamente como tempo forte para celebrar e experimentar a misericórdia de Deus.
Com o apelo à escuta da Palavra de Deus, o Santo Padre quis sublinhar a primazia da escuta orante da Palavra,
especialmente a palavra profética. «Com
efeito, a misericórdia de Deus é um anúncio ao mundo; mas cada cristão é
chamado a fazer pessoalmente a experiência de tal anúncio».
O
papa lembrou, mais uma vez, a imensa misericórdia de Deus para com todos os
seres humanos: «Deus mostra-se sempre rico de misericórdia, pronto em qualquer
circunstância a derramar sobre o seu povo uma ternura e uma compaixão
viscerais, sobretudo nos momentos mais dramáticos. A misericórdia de Deus transforma o coração do homem e faz-lhe
experimentar um amor fiel, tornando-o assim, por sua vez, capaz de misericórdia.
É um milagre sempre novo que a misericórdia
divina possa irradiar-se na vida de cada um de nós, estimulando-nos ao amor ao próximo e animando aquilo que a tradição da
Igreja chama as obras de misericórdia corporal e espiritual.»
Contudo,
Francisco nos faz um importante alerta: «Diante deste amor forte como a morte,
fica patente como o pobre mais miserável
seja aquele que não aceita reconhecer-se como tal. Pensa que é rico, mas na
realidade é o mais pobre dos pobres. E isto porque é escravo do pecado, que o
leva a utilizar riqueza e poder, não para servir a Deus e aos outros, mas para
sufocar em si mesmo a consciência profunda de ser, ele também, nada mais que um
pobre mendigo. E quanto maior for o poder e a riqueza à sua disposição,
tanto maior pode tornar-se esta cegueira mentirosa.»
Comece
bem a Quaresma, lendo e meditando a íntegra da mensagem de Papa Francisco para
este tempo favorável que se encontra abaixo:
MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO PARA A QUARESMA DE 2016
“Prefiro a misericórdia ao sacrifício” (Mt 9, 13)
As obras de misericórdia no caminho jubilar
1. Maria, ícone duma Igreja que evangeliza porque evangelizada
Na Bula de proclamação do Jubileu, fiz o
convite para que «a Quaresma deste Ano Jubilar seja vivida mais intensamente
como tempo forte para celebrar e experimentar a misericórdia de Deus» (Misericordiae Vultus, 17). Com o apelo à
escuta da Palavra de Deus e à
iniciativa «24
horas para o Senhor»,
quis sublinhar a primazia da escuta
orante da Palavra, especialmente a palavra profética. Com efeito, a misericórdia de
Deus é um anúncio ao mundo; mas cada cristão é chamado a fazer pessoalmente
experiência de tal anúncio. Por isso, no tempo da Quaresma, enviarei os Missionários da Misericórdia a fim de
serem, para todos, um sinal concreto da proximidade e do perdão de Deus.
Maria, por ter acolhido a Boa Notícia que
Lhe fora dada pelo arcanjo Gabriel, canta profeticamente, no Magnificat, a misericórdia com que Deus
A predestinou. Deste modo a Virgem de Nazaré, prometida esposa de José,
torna-se o ícone perfeito da Igreja que evangeliza porque foi e continua a ser
evangelizada por obra do Espírito Santo, que fecundou o seu ventre virginal.
Com efeito, na tradição profética, a
misericórdia aparece estreitamente ligada – mesmo etimologicamente – com as vísceras maternas (rahamim) e com uma bondade generosa,
fiel e compassiva (hesed) que se vive
no âmbito das relações conjugais e parentais.
2. A aliança de Deus com os homens: uma história de misericórdia
O mistério da misericórdia divina
desvenda-se no decurso da história da aliança entre Deus e o seu povo Israel.
Na realidade, Deus mostra-Se sempre rico
de misericórdia, pronto em qualquer circunstância a derramar sobre o seu povo
uma ternura e uma compaixão viscerais, sobretudo nos momentos mais dramáticos
quando a infidelidade quebra o vínculo do Pacto e se requer que a aliança seja
ratificada de maneira mais estável na justiça e na verdade. Encontramo-nos aqui
perante um verdadeiro e próprio drama de
amor, no qual Deus desempenha o papel de pai e marido traído, enquanto
Israel desempenha o de filho/filha e esposa infiéis. São precisamente as imagens familiares – como no caso de Oseias
(cf. Os 1-2) – que melhor exprimem até
que ponto Deus quer ligar-Se ao seu povo.
Este
drama de amor alcança o seu ápice no Filho feito homem.
N’Ele, Deus derrama a sua misericórdia sem limites até ao ponto de fazer d’Ele
a Misericórdia encarnada (cf. Misericordiӕ
Vultus, 8). Na realidade, Jesus de Nazaré enquanto homem é, para todos os efeitos, filho de
Israel. E é-o
ao ponto de encarnar aquela escuta perfeita de Deus que se exige a cada judeu
pelo Shemà, fulcro ainda hoje da
aliança de Deus com Israel: «Escuta, Israel! O Senhor é nosso Deus; o Senhor é
único! Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e
com todas as tuas forças» (Dt 6,4-5). O
Filho de Deus é o Esposo que tudo faz para ganhar o amor da sua Esposa, à
qual O liga o seu amor incondicional que se torna visível nas núpcias eternas
com ela.
Este é o coração pulsante do querigma apostólico, no qual ocupa um lugar central e fundamental a
misericórdia divina. Nele sobressai «a beleza do amor salvífico de Deus
manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado» (Evangelii Gaudium, 36), aquele primeiro anúncio que «sempre se tem de voltar a ouvir de diferentes
maneiras e aquele que sempre se tem de voltar a anunciar, duma forma ou doutra,
durante a catequese» (Ibid., 164).
Então a Misericórdia «exprime o
comportamento de Deus para com o pecador, oferecendo-lhe uma nova possibilidade
de se arrepender, converter e acreditar» (Misericordiӕ Vultus,
21), restabelecendo precisamente assim a relação com Ele. E, em Jesus crucificado, Deus chega ao ponto de querer alcançar o pecador no seu afastamento mais
extremo, precisamente lá onde ele se perdeu e afastou d’Ele. E faz isto na esperança de
assim poder finalmente comover o coração endurecido da sua Esposa.
3. As obras de misericórdia
A
misericórdia de Deus transforma o coração do homem e faz-lhe experimentar um
amor fiel, tornando-o assim, por sua vez, capaz de misericórdia.
É um milagre sempre novo que a misericórdia divina possa irradiar-se na vida de
cada um de nós, estimulando-nos ao amor do próximo e animando aquilo que a
tradição da Igreja chama as obras de misericórdia corporal e espiritual. Estas
recordam-nos que a nossa fé se traduz em
atos concretos e quotidianos, destinados a ajudar o nosso próximo no corpo e no
espírito e sobre os quais havemos de ser julgados: alimentá-lo, visitá-lo, confortá-lo, educá-lo. Por isso, expressei
o desejo de que «o povo cristão reflita, durante o Jubileu, sobre as obras de
misericórdia corporal e espiritual. Será uma maneira de acordar a nossa consciência, muitas vezes adormecida perante o drama da
pobreza, e de entrar cada vez mais no coração do Evangelho, onde os pobres são os privilegiados da
misericórdia divina» (Ibid., 15).
Realmente, no pobre, a carne de Cristo «torna-se de novo visível como corpo
martirizado, chagado, flagelado, desnutrido, em fuga… a fim de ser reconhecido,
tocado e assistido cuidadosamente por nós» (Ibid.,
15). É o mistério inaudito e escandaloso do prolongamento na história do
sofrimento do Cordeiro Inocente, sarça ardente de amor gratuito na presença da
qual podemos apenas, como Moisés, tirar as sandálias (cf. Ex 3,5); e mais
ainda, quando o pobre é o irmão ou a
irmã em Cristo que sofre por causa da sua fé.
Diante deste amor forte como a morte (cf.
Ct 8,6), fica patente como o pobre mais
miserável seja aquele que não aceita reconhecer-se como tal. Pensa que é
rico, mas na realidade é o mais pobre dos pobres. E isto porque é escravo do pecado, que o leva a utilizar riqueza e poder, não para
servir a Deus e aos outros, mas para sufocar em si mesmo a consciência profunda
de ser, ele também, nada mais que um pobre mendigo. E quanto maior for o
poder e a riqueza à sua disposição, tanto maior pode tornar-se esta cegueira
mentirosa. Chega ao ponto de não querer ver sequer o pobre Lázaro que mendiga à
porta da sua casa (cf. Lc 16,20-21), sendo este figura de Cristo que, nos pobres,
mendiga a nossa conversão. Lázaro é a
possibilidade de conversão que Deus nos oferece e talvez não vejamos. E
esta cegueira está acompanhada por um soberbo
delírio de onipotência, no qual ressoa sinistramente aquele demoníaco
«sereis como Deus» (Gn 3,5) que é a raiz de qualquer pecado. Tal delírio pode assumir também formas
sociais e políticas, como mostraram os totalitarismos do século XX e
mostram hoje as ideologias do pensamento único e da tecnociência que pretendem
tornar Deus irrelevante e reduzir o homem a massa possível de instrumentalizar.
E podem atualmente mostrá-lo também as estruturas
de pecado ligadas a um modelo de falso desenvolvimento fundado na idolatria do
dinheiro, que torna indiferentes ao destino dos pobres as pessoas e as
sociedades mais ricas, que lhes fecham as portas recusando-se até mesmo a
vê-los.
Portanto a Quaresma deste Ano Jubilar é um tempo favorável para todos poderem,
finalmente, sair da própria alienação existencial, graças à escuta da Palavra e às obras de misericórdia. Se, por meio
das obras corporais, tocamos a carne de Cristo nos irmãos e irmãs necessitados
de ser nutridos, vestidos, alojados, visitados, as obras espirituais tocam mais
diretamente o nosso ser de pecadores: aconselhar, ensinar, perdoar, admoestar,
rezar. Por isso, as obras corporais e as
espirituais nunca devem ser separadas. Com efeito, é precisamente tocando, no miserável, a carne de Jesus crucificado que
o pecador pode receber, em dom, a consciência de ser ele próprio um pobre
mendigo. Por esta estrada, também os «soberbos», os «poderosos» e os
«ricos», de que fala o Magnificat,
têm a possibilidade de aperceber-se que são, imerecidamente, amados pelo
Crucificado, morto e ressuscitado também por eles. Somente neste amor temos a resposta àquela sede de felicidade e amor
infinitos que o homem se ilude de poder colmar mediante os ídolos do saber, do
poder e do possuir. Mas permanece sempre o perigo de que os soberbos, os
ricos e os poderosos – por causa de um fechamento cada vez mais hermético a
Cristo, que, no pobre, continua a bater à porta do seu coração – acabem por se
condenar precipitando-se eles mesmos naquele abismo eterno de solidão que é o
inferno. Por isso, eis que ressoam de novo para eles, como para todos nós, as
palavras veementes de Abraão: «Têm Moisés e o Profetas; que os ouçam!» (Lc 16,29).
Esta escuta ativa preparar-nos-á da
melhor maneira para festejar a vitória definitiva sobre o pecado e a morte
conquistada pelo Esposo já ressuscitado, que deseja purificar a sua prometida
Esposa, na expectativa da sua vinda.
Não
percamos este tempo de Quaresma favorável à conversão!
Pedimo-lo pela intercessão materna da Virgem Maria, a primeira que, diante da
grandeza da misericórdia divina que Lhe foi concedida gratuitamente, reconheceu
a sua pequenez (cf. Lc 1,48), confessando-Se a humilde serva do Senhor (cf. Lc
1,38).
Vaticano, 4 de Outubro de 2015
Festa de S. Francisco de Assis
FRANCISCO
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