Adeus, padre Fernando Cardenal!
Israel
González Espinoza
Religión
Digital
22-02-2016
O jesuíta que libertou a Nicarágua com a educação
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PADRE FERNANDO CARDENAL |
Nenhuma
alma mais cabia no auditório César Jerez
da Universidade Centro-Americana (UCA) de Manágua. Ex-alunos,
personalidades do âmbito político, padres jesuítas, acadêmicos e familiares
deram em Manágua o último adeus ao
sacerdote jesuíta Fernando Cardenal, que dedicou sua vida ao compromisso de
uma Igreja pobre e para os pobres a partir da educação e da justiça social.
Um
sinal proverbial que a Igreja mudou é que a missa de corpo presente foi oficializada pelo próprio arcebispo de
Manágua, cardeal Leopoldo Brenes e os cantos que animavam a liturgia foram os
da Missa Campesina Nicaraguense,
entoada por Luis Enrique Mejía Godoy
e outros músicos nicaraguenses na presença de seu irmão, o poeta Ernesto Cardenal, ex-ministro da
cultura da Revolução Nicaraguense de 1979.
Distante
já parece o tempo em que o Vaticano proibiu quatro sacerdotes que ocupavam
cargos no governo sandinista a continuar exercendo a dupla função de serem
"ministros de Deus e do povo".
E
no caso de Fernando Cardenal, a Companhia de Jesus foi forçada em 1984 a
expulsá-lo por "ordens de cima". Aqueles foram os dias em que a
Igreja voltava aos tempos pré-Concílio, a grande disciplina fomentada a partir
de Roma.
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MISSA DE CORPO PRESENTE DO PADRE FERNANDO CARDENAL |
“Quem se negou severamente a conceder uma
exceção aos sacerdotes da Nicarágua para continuar trabalhando no Governo
Revolucionário foi o Papa João Paulo II. Dói-me esta afirmação, mas por
minha cristandade não posso calá-la”, escreveu o padre Fernando Cardenal, em um
famoso escrito que se tornou universal. Chamou-se “carta a meus amigos” e o jesuíta a escreveu depois de tomar
conhecimento sua expulsão da Companhia de Jesus.
Em 1990, a Companhia de
Jesus voltou a admitir Fernando Cardenal à sua ordem. Foi o primeiro caso em 500
anos em que um filho de Loyola foi expulso e logo readmitido.
"Em
90 passei por Roma, buscando financiamento para uma ONG que eu havia fundado
com os meus amigos depois de deixar o Ministério da Educação e tive uma
entrevista com o Padre Geral Peter Hans
Kolvenbach e ele disse-me: “Revisamos
novamente seus registros e encontrei uma autêntica objeção de consciência.
Somado a isso, o testemunho de sua vida faz-me desejar que você entrasse de
novo na Companhia de Jesus”, narrou em uma entrevista Fernando Cardenal.
Durante
a missa, o delegado do governo da Nicarágua no funeral de Fernando Cardenal, o
ex-ministro da Educação, Miguel de
Castilla, ressaltou o papel do jesuíta na educação. “Fernando Cardenal
deixa um legado não só para a educação da Nicarágua, mas para a educação na
América Latina (...) Para mim, o legado é de coerência, um homem como Carlos
Fonseca, como o Che Guevara, a coerência entre o dizer e o fazer", disse o
funcionário.
Por
sua parte, o ex vice-presidente nicaraguense e escritor Sergio Ramírez ressaltou a Cardenal
como um homem de integridade, sem dobras. "Ele estava sempre do lado dos pobres".
E na
mesma linha, referiu-se o superior dos jesuítas na Nicarágua, padre Iñaki Zubizarreta, dizendo que o maior legado de Fernando Cardenal é uma
consciência limpa. "Esse é um sinal de quando ele colocou a sua
objeção de consciência, para deixar o ministério, a Companhia aceitou essa
objeção, mas pelas leis da Igreja teve que sair, e ele dizia: Eu não quero
sair. Por ele a Companhia voltou a readmiti-lo depois".
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RESTOS MORTAIS DE PADRE FERNANDO CARDENAL |
Os
restos mortais de Fernando Cardenal foram transferidos para o Cemitério Geral
da capital nicaraguense onde enterrado em meio a aplausos e cantos de hinos da Cruzada Nacional de Alfabetização – que
ele dirigiu em 1980 - e as escolas Fe y
Alegría, das quais ele era diretor geral até sua morte.
E
no meio de balões vermelhos que se elevavam para o céu quente do trópico da
Nicarágua, despediu-se o padre jesuíta
que lutou toda a sua vida para melhorar a educação na Nicarágua. Deixou
como legado sua Cruzada da Alfabetização
(que reduziu o analfabetismo de 56% para 12% em 1980) e as escolas Fe y Alegría cujas 22 escolas atendem a população
estudantil mais pobre.
Hoje,
assim como em 1980 - depois de concluir a Cruzada da Alfabetização -, Fernando Cardenal
poderá estar na casa do Pai dizendo em voz alta: "Nós cumprimos!". E, além disso, deixando uma tarefa para
os jovens da Nicarágua. "Espero que
os jovens regressem às ruas, esses jovens de agora! Para fazer história".
Traduzido do espanhol por Evlyn Louise Zilch. Para acessar este
artigo em sua versão original, clique aqui.
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