O que matou o processo de paz no Oriente Médio?
Soluções para o Oriente Médio
Thomas L.
Friedman
The New
York Times
![]() |
Binyamin Netanyahu - Primeiro-Ministro de Israel |
Em
dezembro, no Fórum Brookings Saban sobre o Oriente Médio, o repórter Jeff
Goldberg, da revista The Atlantic,
fez ao ex-chanceler israelense Avigdor
Lieberman, direitista, um pergunta provocadora: "Está ocorrendo uma
mudança radical, não apenas na comunidade não judaica dos Estados Unidos, como
nos EUA da comunidade judaica no que diz respeito a Israel e ao seu bom nome.
Minha indagação é: (A) Devemos nos importar? (B) O que vocês farão a esse
respeito? (C) Até que ponto isso é importante para vocês?
"Com toda a franqueza,
não me importo minimamente", respondeu Lieberman,
acrescentando que Israel vive em um ambiente perigoso. Vamos dar a ele o
crédito pela honestidade: Realmente, não
ligo para o que os judeus americanos ou não judeus acham a respeito de Israel.
Lembrei
dessa conversa enquanto ouvia os debates e os pré-candidatos democratas e
republicanos pronunciavam as banalidades de sempre sobre a necessidade de
defendermos aliados israelenses e árabes sunitas. Quem quer que seja eleito presidente, terá de tratar com um Oriente
Médio diferente.
Será
um Oriente Médio preparado para lutar
pela solução do:
1. Estado único,
2. uma solução de nenhum
Estado,
3. uma solução de não Estado e
4. uma solução de Estado
criminoso.
Ou
seja, uma solução de Estado único em Israel, uma solução de nenhum Estado em Síria,
Iêmen e Líbia, uma solução de não
Estado oferecida pelo Estado
Islâmico e uma solução de Estado
criminoso oferecida pelo Irã.
Comecemos
por Israel. O processo de paz está morto. O próximo presidente americano terá de
tratar com Israel, com sua determinação de ocupar permanentemente todo o
território entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo, incluindo a área onde moram
2,5 milhões de palestinos na Cisjordânia.
![]() |
Mahmoud Abbas Presidente da Autoridade Nacional Palestiniana desde Janeiro de 2005 |
Como
chegamos lá? Tantas pessoas apunhalaram
o processo de paz que é difícil saber quem dará a estocada letal. Acaso
foram os colonos judeus fanáticos determinados a expandir seus assentamentos na
Cisjordânia e dispostos a sabotar qualquer político ou oficial do exército que se opuser a eles? Foram os bilionários judeus de direita, como
Sheldon Adelson, que usaram sua influência para neutralizar qualquer crítica do
Congresso dos Estados Unidos a Bibi Netanyahu? Ou
foi Netanyahu, cuja sede de poder só é superada pela falta de imaginação para
encontrar uma separação segura dos palestinos? Bibi ganhou: agora é uma figura histórica - o pai fundador da solução
de um Estado único.
E o
Hamas é a mãe. Hamas que dedicou todos os seus recursos para cavar túneis a fim
de atacar israelenses de Gaza, em vez de transformar Gaza em Singapura, fazendo
uma piada dos defensores da paz entre os israelenses. O Hamas disparou um
foguete tão perto do aeroporto de Tel-Aviv que os EUA suspenderam por um dia
todos os voos americanos, enfatizando aos israelenses, pombas ou falcões, o que
poderia acontecer se eles abrissem mão da Cisjordânia.
Mas
o Hamas não estava sozinho. O presidente palestino, Mahmoud Abbas, demitiu o único premiê palestino eficiente, Salam Fayyad, que se dedicara a
combater
a
corrupção e a provar que os palestinos mereciam um Estado.
O que todos eles fizeram
foi matar a solução dos dois Estados. Que comece, então, a era do Estado único.
Ela implicará em uma longa guerra civil
entre palestinos e israelenses e um crescente isolamento de Israel na Europa.
Ao
mesmo tempo, a Síria, desprovida de
qualquer tipo de Estado - uma Síria de Bashar Assad e o controle apenas parcial
dos seus patrocinadores russos e iranianos - será uma facada no peito
produzindo uma hemorragia de refugiados pela Europa. Tenho certeza de que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, está
bombardeando deliberadamente os sírios contrários ao regime com o intuito de
fazer com que fujam para a Europa na esperança de dividir a União Europeia, sugar seus recursos e torná-la uma rival
enfraquecida da Rússia e uma aliada enfraquecida dos EUA.
E o
não Estado do califado sunita (Estado Islâmico – EI) e o Irã xiita, Estado
criminoso, se devorarão reciprocamente. Eu adoro quando os candidatos
democratas e republicanos dizem: "Quando eu for presidente, eu vou pegar
os árabes sunitas para assumir a liderança na luta contra o Estado
Islâmico." Puxa, eu aposto que Obama nunca pensou nisso!
Os
árabes sunitas jamais destruirão um não Estado do EI enquanto o Irã se
comportar como um Estado criminoso xiita, e não como um Estado normal. Verdade
seja dita, o Irã tem uma grande civilização. Ele poderia dominar a região com o
dinamismo de sua classe empresarial, universidades, ciência e artes. Mas os
aiatolás do Irã não confiam em seu poder brando. Preferem apelar para atitudes
criminosas, buscar a dignidade nos lugares errados, usando representantes
xiitas para dominar quatro capitais árabes: Beirute (Líbano), Damasco (Síria),
Saná (Iêmen) e Bagdá (Iraque).
Portanto,
meu conselho aos candidatos é: continuem falando do Oriente Médio com sua
imaginação. Eu sempre posso usar como uma boa história para dormir. Mas estejam
preparados para a realidade. Não há mais o Israel de seus avós, a Arábia
Saudita das suas companhias petrolíferas, a Turquia da sua OTAN, o Irã de seu
taxista, ou a Palestina do seu professor de faculdade radical chique. É uma
besta totalmente diferente agora, caminhando desleixadamente em direção a
Belém.
Traduzido do inglês por Anna Capovilla com acréscimos a partir do texto original traduzidos por Telmo José Amaral de Figueiredo.
Comentários
Postar um comentário