A taxa de juros bailando entre a ignorância e a ganância
José Carlos de
Assis
Jornal
GGN
23-02-2016
O nosso sistema de juros no Brasil é uma
«estupidez incomensurável»!
ALEXANDRE TOMBINI Presidente do Banco Central - mantendo os juros mais altos do mundo, garantia dos maiores lucros bancários do planeta! |
Os
comentaristas e gestores da atual política econômica se dividem em duas grandes
categorias: a dos ignorantes ingênuos, que se limitam a repetir a cantilena
neoliberal sem entender nada do que falam, e a dos que se aproveitam da
ignorância dos primeiros para ganhar bilhões de reais com taxas de juros
estratosféricos e outros truques do sistema, via derivativos. Sinceramente, não
sei em qual categoria enquadrar Alexandre
Tombini, o presidente do Banco Central (BC), que acaba de anunciar que a taxa básica de juros (Selic) não será reduzida.
Não posso conceber que esteja vendido a banqueiros e financistas. E é difícil
que alguém que chega a presidente do BC seja apenas ignorante.
Tentemos
decifrar esse enigma. A justificativa
para que o Brasil tenha a taxa de juros real mais elevada no mundo são de dois
tipos. Primeiro, alega-se que é para conter a alta demanda. Isso,
obviamente, é um engodo. Basta ver a evolução do PIB, a taxa de desemprego e o
nível de renda para concluir que não temos pressão de demanda generalizada
sobre os preços. Na verdade, o principal
fator inflacionário, conhecido de nós há décadas, é a velha indexação – ou
seja, o processo pelo qual a inflação
passada serve de indexador de preços futuros. Como o Governo não tem
política para evitar a indexação, nenhuma
taxa de juros conterá a inflação futura.
Entretanto,
é no campo estritamente monetário e financeiro que se encontra o centro das
pajelanças do Banco Central. Temos cerca
de 2 trilhões de reais em dívida pública, grande parte dela indexada à taxa
básica Selic. O Banco parece apavorado com a ideia dessa montanha de
títulos derreter de uma hora para outra caso ele reduza a taxa básica. Isso, na
concepção simplória dos nossos banqueiros centrais, geraria não uma grande
inflação, mas uma hiperinflação do tipo alemão dos anos 20 do século passado.
Em outras palavras, o BC cede a uma
chantagem implícita do mercado, que pede mais taxa de juros.
É
nesse ponto que a ignorância prevalece sobre a honestidade. Se o BC caminhar para uma redução gradual e
firme da taxa básica de juros, pouca gente vai sair dos títulos públicos.
Simplesmente porque os títulos públicos são a aplicação mais líquida e mais
segura do mercado. Líquida, porque pode ser trocada a qualquer hora por
dinheiro na mesa de open do Banco Central. E mais segura, porque a dívida
pública, caso necessário, é convertida num dinheiro vivo emitido a qualquer
tempo pelo próprio BC, que diferentemente de qualquer instituição financeira
privada não quebra, por definição. Aliás, quando ocorre que uma instituição
privada está emitindo título com rentabilidade maior que a do título público é
sinal certo que está desesperada por dinheiro e vai quebrar.
É
isso que leva os bancos centrais norte-americano e europeu a adotar taxas
básicas de juros próximas de zero para animar a economia, e o Banco Central
Japonês recorre ao expediente extraordinário de oferecer taxas de juros
negativas para estimular a inflação e a demanda. Nesse contexto, o que fazemos é uma estupidez
incomensurável. Travamos a economia
em lugar de estimulá-la com taxas de juros baixas e política fiscal expansiva.
Claro, alguém está ganhando com isso. O principal orador privado na última
reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico
e Social, Luís Carlos Trabuco,
presidente do Bradesco, fez um apelo dramático para que todos se esforcem para
superar a crise. É que, segundo ele, todos perdem com ela. No dia seguinte, o
Bradesco anunciou um lucro trimestral de R$ 24 bilhões, refletindo 30
trimestres seguidos de lucros crescentes!
Comentários
Postar um comentário