ENCONTRO HISTÓRICO: o Papa e o Patriarca
Papa Francisco e patriarca Kirill da
Igreja Ortodoxa Russa se reúnem
em Havana – Cuba
Associated
Press e Reuters
Igrejas do Ocidente e do Oriente, rompidas desde 1054,
buscam
reaproximação e condenam ataques a fiéis na Síria e no
Iraque
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PATRIARCA RUSSO KIRILL E PAPA FRANCISCO conversam em sala especial do aeroporto de Havana - Cuba Sexta-feira, 12 de favereiro de 2016 |
O papa Francisco se reuniu nesta
sexta-feira, 12 de fevereiro, com o patriarca
ortodoxo russo Kirill [Cirilo], num histórico encontro entre os líderes das
igrejas do Ocidente e do Oriente, divididas desde o cisma de 1054. O encontro ocorreu
em Cuba, em uma escala da viagem do pontífice para o México. Também foi divulgado um comunicado conjunto no
qual católicos e ortodoxos manifestaram sua preocupação com a situação de
minorias cristãs na Síria e no Iraque, vítimas de ataques do Estado Islâmico.
“Finalmente”, exclamou Francisco ao
abraçar o patriarca ortodoxo em uma sala no Aeroporto de Havana. “Somos irmãos.” Os religiosos trocaram
cumprimentos e Kirill respondeu ao líder católico: “Agora as coisas serão mais fáceis.”
O
encontro foi acompanhado pelo presidente cubano, Raúl Castro, e o cardeal de
Havana Jaime Ortega. No total, Francisco
permaneceria três horas e meia em solo cubano.
No
documento divulgado após a reunião em Havana, Francisco e Kirill pediram o fim do massacre de cristãos no Oriente
Médio, principalmente na Síria e Iraque, onde os fiéis são alvos de
radicais do Estado Islâmico. “Apelamos à
comunidade internacional para evitar o extermínio de cristãos no Oriente Médio”,
diz o texto.
Segundo
o porta-voz do papa, o padre Federico Lombardi, o encontro foi um momento
histórico de muita alegria para o papa. Segundo ele, a reunião foi muito
cordial. “Chegamos a uma meta e a um
ponto de partida para um caminho de unidade e compreensão, que não é fácil,
porém muito valioso”, declarou Lombardi.
O
patriarca russo afirmou que o encontro lhe permitiu entender e sentir a posição
de Francisco em diversos temas. Ainda de acordo com Kirill, os dois líderes
religiosos concordaram com a chance de católicos e ortodoxos cooperarem na
defesa do cristianismo.
“Os resultados da conversa
permitem assegurar que as duas igrejas podem cooperar na defesa dos cristãos em
todo o mundo”, disse Kirill.
Pouco
antes de se reunir a portas fechadas com o patriarca, Francisco agradeceu ao
povo cubano. “Se continuarmos assim,
Cuba se converterá na capital da união”, disse o papa, que teve papel
fundamental na reaproximação diplomática entre a ilha e os Estados Unidos e nas
negociações de paz entre o governo colombiano e as Forças Armadas
Revolucionárias da Colômbia (Farc).
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PATRIARCA RUSSO KIRILL E PAPA FRANCISCO conversaram e assinaram uma Declaração Comum O encontro durou cerca de três horas |
Diplomacia
O
encontro e o comunicado, negociado há décadas, evidenciam a reputação de Francisco como um líder aberto
ao diálogo, à construção de laços e a reaproximação com antigos rivais.
Apesar do caráter histórico do encontro, no entanto, o papa foi alvo de algumas
críticas em virtude da proximidade entre Kirill e o Kremlin – o patriarca é um
aliado do presidente Vladimir Putin – e da vontade dos ortodoxos russos de se
reafirmarem perante outras denominações orientais.
A
escolha do local do encontro, longe da Europa dividida entre católicos e
ortodoxos, e próxima ao mesmo tempo da origem latino-americana do papa e do
passado soviético russo, também foi escolhido com cuidado, segundo analistas.
A Igreja Ortodoxa russa
reúne a maior parte dos cristãos orientais: 165 milhões de um total de 250
milhões.
Para especialistas, a reunião com o papa trata-se de uma maneira de fortalecer
a igreja russa perante outras denominações ortodoxas, como a grega, a maronita
e outras.
“Não se trata de
benevolência, nem de um desejo pela unidade cristã, mas do desejo de Kirill de
se apresentar como líder dos ortodoxos”, criticou o teólogo greco-ortodoxo George Demacopoulos, da Universidade de
Fordham.
Desde
Paulo VI, papas têm se encontrado com o patriarca ecumênico – o primeiro entre
iguais entre os ortodoxos –, que fica em Istambul. As duas igrejas divergem nos
ritos e na primazia do papa sobre as demais denominações.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Internacional
– Sábado, 13 de fevereiro de 2016 – Pág. A10 – Internet: clique aqui.
ENCONTRO DO PAPA FRANCISCO COM S.S. KIRILL,
PATRIARCA DE MOSCOU E DE TODA A RÚSSIA
ASSINATURA DA DECLARAÇÃO CONJUNTA
Aeroporto
Internacional "José Martí" de Havana - Cuba
Sexta-feira,
12 de Fevereiro de 2016
Declaração comum
do Papa Francisco
e do Patriarca Kirill de Moscou e de toda a Rússia
«A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de
Deus Pai e a comunhão do
Espírito Santo estejam com todos vós»
(2Cor 13,13).
1. Por vontade de Deus Pai de quem provém
todo o dom, no nome do Senhor nosso Jesus Cristo e com a ajuda do Espírito
Santo Consolador, nós, Papa Francisco e Kirill, Patriarca de Moscou e de toda a
Rússia, encontramo-nos, hoje, em Havana. Damos graças a Deus, glorificado na
Trindade, por este encontro, o primeiro na história.
Com alegria, encontramo-nos como irmãos na
fé cristã que se reúnem para «falar de viva voz» (2Jo 12), coração a coração, e
analisar as relações mútuas entre as Igrejas, os problemas essenciais de nossos
fiéis e as perspectivas de progresso da civilização humana.
2. O nosso encontro fraterno teve lugar em Cuba,
encruzilhada entre Norte e Sul, entre Leste e Oeste. A partir desta ilha,
símbolo das esperanças do «Novo Mundo» e dos acontecimentos dramáticos da
história do século XX, dirigimos a nossa palavra a todos os povos da América
Latina e dos outros continentes.
Alegramo-nos por estar a crescer aqui, de
forma dinâmica, a fé cristã. O forte potencial religioso da América Latina, a
sua tradição cristã secular, presente na experiência pessoal de milhões de
pessoas, são a garantia dum grande futuro para esta região.
3. Encontrando-nos longe das antigas disputas
do «Velho Mundo», sentimos mais fortemente a necessidade dum trabalho comum
entre católicos e ortodoxos, chamados a dar ao mundo, com mansidão e respeito,
razão da esperança que está em nós (cf. 1Pd 3,15).
4. Damos graças a Deus pelos dons que
recebemos da vinda ao mundo do seu único Filho. Partilhamos a Tradição espiritual
comum do primeiro milênio do cristianismo. As testemunhas desta Tradição são a
Virgem Maria, Santíssima Mãe de Deus, e os Santos que veneramos. Entre eles,
contam-se inúmeros mártires que testemunharam a sua fidelidade a Cristo e se
tornaram «semente de cristãos».
5. Apesar desta Tradição comum dos primeiros
dez séculos, há quase mil anos que
católicos e ortodoxos estão privados da comunhão na Eucaristia. Estamos
divididos por feridas causadas por
conflitos dum passado distante ou recente, por divergências – herdadas dos nossos antepassados – na compreensão e explicitação da nossa fé
em Deus, uno em três Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. Deploramos a perda da unidade, consequência da fraqueza humana e do
pecado, ocorrida apesar da Oração Sacerdotal de Cristo Salvador: «Para que
todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti; para que assim eles
estejam em Nós» (Jo 17,21).
6. Conscientes da permanência de numerosos
obstáculos, esperamos que o nosso
encontro possa contribuir para o restabelecimento desta unidade querida por
Deus, pela qual Cristo rezou. Que o nosso encontro inspire os cristãos do
mundo inteiro a rezar ao Senhor, com renovado fervor, pela unidade plena de
todos os seus discípulos. Num mundo que espera de nós não apenas palavras, mas
gestos concretos, possa este encontro
ser um sinal de esperança para todos os homens de boa vontade!
7. Determinados a realizar tudo o que seja
necessário para superar as divergências históricas que herdamos, queremos unir
os nossos esforços para testemunhar o Evangelho de Cristo e o patrimônio comum
da Igreja do primeiro milênio, respondendo em conjunto aos desafios do mundo
contemporâneo. Ortodoxos e católicos
devem aprender a dar um testemunho concorde da verdade, em áreas onde isso
seja possível e necessário. A
civilização humana entrou num período de mudança epocal. A nossa
consciência cristã e a nossa responsabilidade pastoral não nos permitem ficar
inertes perante os desafios que requerem uma resposta comum.
8. O nosso olhar dirige-se, em primeiro
lugar, para as regiões do mundo onde os
cristãos são vítimas de perseguição. Em muitos países do Oriente Médio e do
Norte de África, os nossos irmãos e
irmãs em Cristo veem exterminadas as suas famílias, aldeias e cidades inteiras.
As suas igrejas são barbaramente devastadas e saqueadas; os seus objetos
sagrados profanados, os seus monumentos destruídos. Na Síria, no Iraque e
noutros países do Oriente Médio, constatamos, com amargura, o êxodo maciço dos cristãos da terra onde
começou a espalhar-se a nossa fé e onde eles viveram, desde o tempo dos
apóstolos, em conjunto com outras comunidades religiosas.
9. Pedimos
a ação urgente da comunidade internacional para prevenir nova expulsão dos
cristãos do Oriente Médio. Ao levantar a voz em defesa dos cristãos
perseguidos, queremos expressar a nossa compaixão pelas tribulações sofridas
pelos fiéis doutras tradições religiosas, também eles vítimas da guerra civil,
do caos e da violência terrorista.
10. Na Síria e no Iraque, a violência já causou milhares de vítimas, deixando
milhões de pessoas sem casa nem meios de subsistência. Exortamos a
comunidade internacional a unir-se para pôr termo à violência e ao terrorismo
e, ao mesmo tempo, a contribuir através do diálogo para um rápido
restabelecimento da paz civil. É essencial
garantir uma ajuda humanitária em larga escala às populações martirizadas e a
tantos refugiados nos países vizinhos.
Pedimos a quantos possam influir sobre o
destino das pessoas raptadas, entre
as quais se contam os Metropolitas de
Alepo, Paulo e João Ibrahim, sequestrados no mês de
Abril de 2013, que façam tudo o que é necessário para a sua rápida libertação.
11. Elevamos as nossas súplicas a
Cristo, Salvador do mundo, pelo restabelecimento da paz no Oriente Médio, que é
«fruto da justiça» (Is 32,17), a fim de que se reforce a convivência fraterna
entre as várias populações, as Igrejas e as religiões lá presentes, pelo
regresso dos refugiados às suas casas, a cura dos feridos e o repouso da alma
dos inocentes que morreram.
Com um ardente apelo, dirigimo-nos a todas
as partes que possam estar envolvidas nos conflitos pedindo-lhes que deem prova
de boa vontade e se sentem à mesa das negociações. Ao mesmo tempo, é preciso que a comunidade internacional
faça todos os esforços possíveis para pôr fim ao terrorismo valendo-se de ações
comuns, conjuntas e coordenadas. Apelamos a todos os países envolvidos na
luta contra o terrorismo, para que atuem de maneira responsável e prudente.
Exortamos todos os cristãos e todos os crentes em Deus a suplicarem, fervorosamente,
ao Criador providente do mundo que proteja a sua criação da destruição e não
permita uma nova guerra mundial. Para que a paz seja duradoura e esperançosa,
são necessários esforços específicos tendentes a redescobrir os valores comuns
que nos unem, fundados no Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo.
12. Curvamo-nos perante o martírio daqueles que, à custa da própria
vida, testemunham a verdade do Evangelho, preferindo a morte à apostasia de
Cristo. Acreditamos que estes mártires do nosso tempo, pertencentes a
várias Igrejas, mas unidos por uma tribulação comum, são um penhor da unidade
dos cristãos. É a vós, que sofreis por
Cristo, que se dirige a palavra do Apóstolo: «Caríssimos, (...) alegrai-vos,
pois assim como participais dos padecimentos de Cristo, assim também
rejubilareis de alegria na altura da revelação da sua glória» (1Pd 4,12-13).
13. Nesta época preocupante, é indispensável o diálogo inter-religioso.
As diferenças na compreensão das
verdades religiosas não devem impedir que pessoas de crenças diversas vivam em
paz e harmonia. Nas circunstâncias atuais, os líderes religiosos têm a
responsabilidade particular de educar os
seus fiéis num espírito respeitador das convicções daqueles que pertencem a
outras tradições religiosas. São absolutamente inaceitáveis as tentativas de
justificar ações criminosas com slogans religiosos. Nenhum crime pode ser cometido em nome de Deus, «porque Deus não é um
Deus de desordem, mas de paz» (1Cor 14,33).
14. Ao afirmar o alto valor da
liberdade religiosa, damos graças a Deus pela renovação sem precedentes da fé
cristã que agora está a acontecer na Rússia e em muitos países da Europa
Oriental, onde, durante algumas décadas, dominaram os regimes ateus. Hoje as cadeias do ateísmo militante estão
quebradas e, em muitos lugares, os cristãos podem livremente confessar a sua fé.
Num quarto de século, foram construídas dezenas de milhares de novas igrejas, e
abertos centenas de mosteiros e escolas teológicas. As comunidades cristãs
desenvolvem uma importante atividade sociocaritativa, prestando variada
assistência aos necessitados. Muitas
vezes trabalham lado a lado ortodoxos e católicos; atestam a existência dos
fundamentos espirituais comuns da convivência humana, ao testemunhar os valores
do Evangelho.
15. Ao
mesmo tempo, estamos preocupados com a situação em muitos países onde os
cristãos se debatem cada vez mais frequentemente com uma restrição da liberdade
religiosa, do direito de testemunhar as suas convicções e da possibilidade de
viver de acordo com elas. Em particular, constatamos que a transformação de
alguns países em sociedades secularizadas, alheias a qualquer referência a Deus
e à sua verdade, constitui uma grave ameaça à liberdade religiosa. É fonte de inquietação para nós a limitação
atual dos direitos dos cristãos, se não mesmo a sua discriminação, quando
algumas forças políticas, guiadas pela ideologia dum secularismo frequentemente
muito agressivo, procuram relegá-los para a margem da vida pública.
16. O processo de integração europeia,
iniciado depois de séculos de sangrentos conflitos, foi acolhido por muitos com
esperança, como uma garantia de paz e segurança. Todavia convidamos a manter-se
vigilantes contra uma integração que não fosse respeitadora das identidades
religiosas. Embora permanecendo abertos à contribuição doutras religiões para a
nossa civilização, estamos convencidos
de que a Europa deva permanecer fiel às suas raízes cristãs. Pedimos aos
cristãos da Europa Oriental e Ocidental que se unam para testemunhar em
conjunto Cristo e o Evangelho, de modo que a
Europa conserve a própria alma formada por dois mil anos de tradição cristã.
17. O
nosso olhar volta-se para as pessoas que
se encontram em situações de grande dificuldade, em condições de extrema
necessidade e pobreza, enquanto crescem as riquezas materiais da humanidade.
Não podemos ficar indiferentes à sorte de milhões
de migrantes e refugiados que batem à porta dos países ricos. O consumo
desenfreado, como se vê em alguns países mais desenvolvidos, está gradualmente
esgotando os recursos do nosso planeta. A crescente
desigualdade na distribuição dos bens da Terra aumenta o sentimento de
injustiça perante o sistema de relações internacionais que se estabeleceu.
18. As Igrejas cristãs são chamadas a defender as exigências da justiça, o
respeito pelas tradições dos povos e uma autêntica solidariedade com todos os
que sofrem. Nós, cristãos, não devemos esquecer que «o que há de louco no mundo é que Deus escolheu para confundir os
sábios; e o que há de fraco no mundo é que Deus escolheu para confundir o que é
forte. O que o mundo considera vil e desprezível é que Deus escolheu; escolheu
os que nada são, para reduzir a nada aqueles que são alguma coisa. Assim,
ninguém se pode vangloriar diante de Deus» (1Cor 1,27-29).
19. A família é o centro natural da
vida humana e da sociedade. Estamos
preocupados com a crise da família em muitos países. Ortodoxos e católicos
partilham a mesma concepção da família e são chamados a testemunhar que ela é um caminho de santidade, que
testemunha a fidelidade dos esposos nas suas relações mútuas, a sua abertura à
procriação e à educação dos filhos, a solidariedade entre as gerações e o
respeito pelos mais vulneráveis.
20. A família funda-se no matrimônio, ato
de amor livre e fiel entre um homem e uma mulher. É o amor que sela a sua união
e os ensina a acolher-se reciprocamente como um dom. O matrimônio é uma escola de amor e fidelidade. Lamentamos que outras formas de convivência
já estejam postas ao mesmo nível desta união, ao passo que o conceito,
santificado pela tradição bíblica, de paternidade e de maternidade como vocação
particular do homem e da mulher no matrimônio, seja banido da consciência
pública.
21. Pedimos a todos que respeitem o
direito inalienável à vida. Milhões de crianças são privadas da própria
possibilidade de nascer no mundo. A voz
do sangue das crianças não nascidas clama a Deus (cf. Gn 4,10).
O desenvolvimento da chamada eutanásia faz com que as pessoas idosas
e os doentes comecem a sentir-se um peso excessivo para as suas famílias e a
sociedade em geral.
Estamos preocupados também com o
desenvolvimento das tecnologias
reprodutivas biomédicas, porque a
manipulação da vida humana é um ataque aos fundamentos da existência do homem,
criado à imagem de Deus. Consideramos nosso dever lembrar a imutabilidade dos
princípios morais cristãos, baseados no respeito pela dignidade do homem
chamado à vida, segundo o desígnio do Criador.
22. Hoje, desejamos dirigir-nos de modo
particular aos jovens cristãos. Vós,
jovens, tendes o dever de não esconder o talento na terra (cf. Mt 25,25), mas
de usar todas as capacidades que Deus vos deu para confirmar no mundo as
verdades de Cristo, encarnar na vossa
vida os mandamentos evangélicos do amor de Deus e do próximo. Não tenhais medo de ir contra a corrente,
defendendo a verdade de Deus, à qual estão longe de se conformar sempre as
normas secularizadas de hoje.
23. Deus ama-vos e espera de cada um de
vós que sejais seus discípulos e apóstolos. Sede a luz do mundo, de modo que quantos vivem ao vosso redor,
vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai que está no Céu (cf. Mt 5,14.16).
Haveis de educar os vossos filhos na fé
cristã, transmitindo-lhes a pérola preciosa da fé (cf. Mt 13,46), que
recebestes dos vossos pais e antepassados. Lembrai-vos que «fostes comprados por um alto preço» (1Cor
6,20), a custo da morte na cruz do Homem-Deus Jesus Cristo.
24. Ortodoxos e católicos estão unidos
não só pela Tradição comum da Igreja
do primeiro milênio, mas também pela
missão de pregar o Evangelho de Cristo no mundo de hoje. Esta missão exige
o respeito mútuo entre os membros das comunidades cristãs e exclui qualquer forma de proselitismo.
Não
somos concorrentes, mas irmãos: por esta
certeza, devem ser guiadas todas as nossas ações recíprocas e em benefício do
mundo exterior. Exortamos os católicos e
os ortodoxos de todos os países a aprender a viver juntos na paz e no amor
e a ter «os mesmos sentimentos, uns com
os outros» (Rm 15,5). Por isso, é
inaceitável o uso de meios desleais para incitar os crentes a passar duma
Igreja para outra, negando a sua liberdade religiosa ou as suas tradições.
Somos chamados a pôr em prática o preceito do apóstolo Paulo: «Tive a maior preocupação em não anunciar o
Evangelho onde já era invocado o nome de Cristo, para não edificar sobre
fundamento alheio» (Rm 15,20).
25. Esperamos que o nosso encontro possa
contribuir também para a reconciliação,
onde existirem tensões entre
greco-católicos e ortodoxos. Hoje, é claro que o método do «uniatismo» do passado, entendido como a
união duma comunidade à outra separando-a da sua Igreja, não é uma forma que
permita restabelecer a unidade. Contudo, as comunidades eclesiais surgidas
nestas circunstâncias históricas têm o direito de existir e de empreender tudo
o que é necessário para satisfazer as exigências espirituais dos seus fiéis,
procurando ao mesmo tempo viver em paz com os seus vizinhos. Ortodoxos e greco-católicos precisam de
reconciliar-se e encontrar formas mutuamente aceitáveis de convivência.
26. Deploramos o conflito na Ucrânia que já causou muitas vítimas, provocou inúmeras
tribulações à gente pacífica e lançou a sociedade numa grave crise econômica e
humanitária. Convidamos todas as partes
do conflito à prudência, à solidariedade social e à atividade de construir a
paz. Convidamos as nossas Igrejas na Ucrânia a trabalhar por se chegar à
harmonia social, abster-se de participar no conflito e não apoiar ulteriores
desenvolvimentos do mesmo.
27. Esperamos que o cisma entre os fiéis ortodoxos na Ucrânia
possa ser superado com base nas normas canônicas existentes, que todos os cristãos ortodoxos da Ucrânia
vivam em paz e harmonia, e que as comunidades católicas do país contribuam
para isso de modo que seja visível cada vez mais a nossa fraternidade cristã.
28. No mundo contemporâneo, multiforme
e todavia unido por um destino comum, católicos
e ortodoxos são chamados a colaborar fraternalmente no anúncio da Boa Nova da
salvação, a testemunhar juntos a dignidade moral e a liberdade autêntica da
pessoa, «para que o mundo creia» (Jo
17,21). Este mundo, aonde vão
desaparecendo progressivamente os pilares espirituais da existência humana, espera de nós um vigoroso testemunho
cristão em todas as áreas da vida pessoal e social. Nestes tempos difíceis,
o futuro da humanidade depende em grande parte da nossa capacidade conjunta de
darmos testemunho do Espírito de verdade.
29. Neste corajoso testemunho da
verdade de Deus e da Boa Nova salvífica, possa sustentar-nos o Homem-Deus Jesus
Cristo, nosso Senhor e Salvador, que nos fortifica espiritualmente com a sua
promessa infalível: «Não temais,
pequenino rebanho, porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o Reino» (Lc 12,32).
Cristo
é fonte de alegria e de esperança. A fé n’Ele
transfigura a vida humana, enche-a de significado. Disto mesmo puderam
convencer-se, por experiência própria, todos aqueles a quem é possível aplicar
as palavras do apóstolo Pedro: «Vós que
outrora não éreis um povo, mas sois agora povo de Deus, vós que não tínheis
alcançado misericórdia e agora alcançastes misericórdia» (1Pd 2,10).
30. Cheios de gratidão pelo dom da compreensão recíproca
manifestada durante o nosso encontro, levantamos os olhos agradecidos para a
Santíssima Mãe de Deus, invocando-A com as palavras desta antiga oração: «Sob o abrigo da vossa misericórdia, nos
refugiamos, Santa Mãe de Deus». Que a bem-aventurada Virgem Maria, com a
sua intercessão, encoraje à fraternidade aqueles que A veneram, para que, no
tempo estabelecido por Deus, sejam reunidos em paz e harmonia num só povo de
Deus para glória da Santíssima e indivisível Trindade!
Francisco Kirill
Bispo de Roma Patriarca de Moscou
Papa da Igreja Católica e
de toda Rússia
Havana (Cuba), 12 de Fevereiro de 2016.
Palavras do Santo Padre
após a assinatura da Declaração comum com o
Patriarca Kirill
Santidade,
Eminências,
Reverências,
Falamos como irmãos, temos o mesmo Batismo,
somos bispos. Falamos das nossas Igrejas e estamos de acordo que a unidade se
faz caminhando. Falamos claramente, sem meias-palavras, e confesso-vos que
senti a consolação do Espírito neste diálogo. Agradeço a humildade de Sua
Santidade, humildade fraterna e os seus bons desejos de unidade.
Partimos com uma série de iniciativas que
penso serem viáveis e poderão realizar-se. Por isso, quero mais uma vez
agradecer a Sua Santidade seu acolhimento benévolo, bem como aos colaboradores,
nomeadamente, Sua Eminência o Metropolita Hilarión e Sua Eminência o Cardeal
Koch, com todas respectivas equipes, que trabalharam para isto.
Não quero ir-me embora sem expressar um
sentido agradecimento a Cuba, ao grande povo cubano e ao seu Presidente aqui
presente. Agradeço-lhe a sua disponibilidade ativa. Se continuar assim, Cuba
será a capital da unidade. E que tudo isto seja para a glória de Deus Pai,
Filho e Espírito Santo, e para o bem do santo Povo fiel de Deus, sob o manto da
Santa Mãe de Deus.
Fonte: Santa Sé – Viagem Apostólica
do Papa Francisco ao México (12-18 de fevereiro de 2016) – Sexta-feira, 12 de
fevereiro de 2016 – Internet: clique aqui.
ANÁLISE
Putin, Francisco e o patriarca
Nina
Khruscheva
Professora
de Assuntos Internacionais e
Diretora
da Área de Assuntos Acadêmicos na
The New
School
Presidente russo busca popularidade política com a
reunião
entre papa e patriarca
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PATRIARCA KIRILL E VLADIMIR PUTIN O presidente russo apóia abertamente a Igreja Ortodoxa Russa e deseja o aumento da influência russa pelo mundo afora |
O
tempo que o presidente russo, Vladimir
Putin, passou na KGB [serviço secreto da ex-União Soviética] o ensinou como se beneficiar à custa de outros.
Na excelente biografia de Steven Lee
Myers, The New Tsar, o ex-chefe
da sucursal do New York Times em Moscou, descreve como, trabalhando na Alemanha Oriental nos últimos anos do comunismo, Putin
usou a fraqueza de seus oponentes para promover a causa soviética.
A reunião histórica entre o
papa Francisco e o patriarca da Igreja Ortodoxa Russa em Cuba é mais uma
ocasião que ele tentará usar em seu benefício. Essa foi a primeira reunião entre um
pontífice católico e um patriarca russo desde o Grande Cisma do cristianismo,
em 1054, quando divergências teológicas dividiram a fé em dois ramos, ocidental
e oriental. Desde então, a Igreja
Ortodoxa (em russo, a Pravoslavie,
que significa literalmente “o culto
correto”) é considerada a única
forma certa de cristianismo na Rússia – as outras denominações são
rejeitadas por apoiar o individualismo e um respeito insuficiente da alma
humana.
Por
quase um milênio, a animosidade pareceu insuperável. Nos tempos modernos, foi
preciso a ameaça de uma guerra nuclear para surgirem iniciativas com o fim de
restaurar o vínculo entre Oriente e Ocidente – mesmo assim, essa aproximação
foi conduzida principalmente pelas autoridades seculares da Rússia. Em 1963, o então premiê soviético, Nikita
Khruchev, ateu fanático, enviou seu cunhado e assessor Alexei Adzhubei para uma
audiência com o então papa João XXIII.
Mas
o avanço de fato ocorreu em 1989, quando
o primeiro-ministro soviético Mikhail Gorbachev encontrou-se com João Paulo II,
papa polonês que passara a década anterior fazendo oposição ao regime
totalitário ateu soviético. Após o colapso da União Soviética, as relações
continuaram a melhorar, com Boris
Yeltsin, o primeiro presidente da Federação Russa, visitando o Vaticano em 1991
e 1998. Objeções feitas pela Igreja Ortodoxa Russa, no entanto, impediram o
papa de aceitar convites para visitar Moscou.
As
relações entre a Rússia e a Santa Sé assumiram novo significado depois de Putin
se tornar presidente. Ao contrário dos soviéticos oficialmente ateus, Putin tem uma relação muito estreita com a
Igreja Ortodoxa, defendendo valores sociais conservadores e procurando
ampliar a influência russa no exterior.
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BIOGRAFIA DE VLADIMIR PUTIN ESCRITA POR Steven Lee Myers TRADUÇÃO DO TÍTULO: "O NOVO TSAR: A ASCENSÃO DE VLADIMIR PUTIN" |
Em 2007, a Igreja Ortodoxa
Russa uniu-se a um ramo dissidente, a Igreja Ortodoxa Russa Fora da Rússia, que
havia se separado em protesto contra os fortes vínculos da Igreja Ortodoxa
Russa com os bolcheviques. “O retorno da unidade da Igreja
é condição crucial para o renascimento da unidade perdida de todo o ‘mundo
russo’, que sempre teve a fé ortodoxa como um de seus alicerces’”, declarou
Putin em uma cerimônia marcando a ocasião.
A
reunião de ontem em Cuba oferece a Putin a oportunidade de se tornar o líder
russo que supervisionou o início de um diálogo entre as Igrejas Católica e
Ortodoxa. A importância que ele dá a esse evento está refletida na própria
improbabilidade.
Putin e Kirill, afinal,
foram os líderes da crescente animosidade antiocidental e conduziram a Igreja
Ortodoxa Russa na direção do conservadorismo, do nacionalismo e da intolerância. O patriarca – há rumores
de que ele próprio teria pertencido à KGB – qualificou a guerra na Síria de
“guerra santa”, acrescentando que “hoje, o nosso país talvez seja a força mais
ativa no mundo a combater”. Francisco,
pelo contrário, não só é claramente um progressista, recusando-se a caluniar os
homossexuais, mas tem apelado repetidamente para uma solução pacífica do
conflito sírio.
Ao deixar que essa reunião
se realize
– e não há dúvida de que deu sua aprovação –, Putin busca validação religiosa e popularidade política. O encontro
também lhe permitirá, mais uma vez, provocar o Ocidente, indignado que está com
a imposição de sanções contra seu país em razão do conflito na Ucrânia, da
anexação da Crimeia e as críticas à sua intervenção na Síria.
A realização do encontro em
Cuba foi uma estratégia inteligente. Em razão das sanções impostas à Rússia, a
Europa era zona proibida. Mas Cuba, que recebeu assistência financeira crucial da União
Soviética em troca da lealdade de Fidel Castro, é um lembrete muito forte da
reivindicação da Rússia a ter uma relevância global.
Os
dirigentes da ilha nunca denunciaram o Cristianismo de modo tão absoluto quanto
os soviéticos e nos últimos 20 anos o país recebeu três visitas papais: João
Paulo II em 1998, Bento XVI em 2012 e Francisco em 2015. Raúl Castro, irmão e sucessor de Fidel, já havia convidado o patriarca
russo a uma visita, para ver em primeira mão que comunismo e cristianismo são
compatíveis.
Para Putin, não poderia
haver melhor ocasião para esse encontro. Os preços do petróleo despencando, o declínio
espetacular do valor do rublo, as sanções em curso e as imagens sangrentas que
chegam da Síria o deixam desesperado por notícias positivas. E que melhor
oportunidade de foto do que o papa ao lado do seu mais próximo aliado político
e espiritual?
Traduzido do inglês por Terezinha Martino.
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