Por que encontro entre o papa e o patriarca russo em Cuba é histórico?
BBC Mundo
O papa Francisco, chefe da Igreja Católica Romana, se
reúne nesta sexta-feira com o patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, Kirill
(Cirilo). Esse será o primeiro encontro entre os líderes de dois dos principais
ramos do cristianismo desde sua separação, no ano de 1054.
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PAPA FRANCISCO E O PATRIARCA KIRILL Um encontro histórico entre o líder a Igreja Católica e da Igreja Ortodoxa Russa Havana (Cuba), sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016 |
O
interesse de Francisco no encontro era sabido desde novembro de 2014, quando,
regressando de uma viagem a Istambul, ele revelou que havia falado com Kirill
por telefone e dito: "Irei onde
você quiser. Chame que eu vou".
O encontro foi marcado, mas não ocorrerá
nem em Roma nem em Moscou, mas sim em Havana,
Cuba. Eles devem conversar durante duas horas em uma sala de reuniões do aeroporto internacional José Martí.
Mas
por que os dois líderes religiosos decidiram se encontrar em Havana, a capital
de um país que até 1992 era oficialmente ateu e que é também a nação com menos
cristãos na América Latina?
Um
destino conveniente
John Allen, editor associado da
publicação Crux, do jornal Boston
Globe, e autor de dez livros sobre o Vaticano e temas ligados ao
catolicismo, afirma que a escolha do
destino ocorreu em parte por acaso, mas também em certa medida por estratégia.
"A
parte da sorte tem a ver com o fato do patriarca
russo ter previsto viajar a Cuba ao mesmo tempo em que o papa Francisco ia ao
México, e assim era prático para ambos se encontrar ali", disse Allen
à BBC Mundo.
Mas
ele afirmou que o componente estratégico está relacionado ao fato de que a relação entre as duas Igrejas é muito
influenciada pela história europeia.
"Essa
relação precisa de um novo começo. Por causa disso, a reunião não poderia
ocorrer na Europa nem nos Estados Unidos. Cuba
é uma grande escolha porque é amigável
com a Igreja Católica, porque historicamente foi um país católico, mas
também para a Rússia, porque foi o aliado mais próximo de Moscou no
continente americano", afirma.
Território
neutro
O
porta-voz do patriarcado de Moscou da Igreja Ortodoxa Russa, Vakhtang Kipshidze, afirmou que a ilha
é "território neutro".
"Cuba
é ideal porque é um país principalmente católico que tem uma comunidade
minoritária ortodoxa em Havana. É um lugar hospitaleiro para todos. Pelo
contrário, a Europa está ligada a experiências negativas e dramáticas para
ambas as comunidades religiosas", disse à BBC Mundo.
Essa
opinião é compartilhada pelo porta-voz do Vaticano, o padre Federico Lombardi. Ele afirma que é mais fácil que o encontro ocorra fora da
Europa.
"No
passado, esse encontro foi tentado, sem sucesso. No tempo de João Paulo 2º e do
patriarca Alexis 2º diferentes locais foram cogitados na Europa, que é um
continente muito complexo e com grande densidade histórica", afirmou à BBC Mundo.
Para
John Allen, o fato de Cuba ser
conhecido como um país majoritariamente secular contribui para sua imagem de
território neutro. "Encontrar-se lá não significa uma vitória do papa nem
do patriarca. Resulta simplesmente em ser um lugar conveniente para
ambos", afirma.
Por
sua vez, o governo cubano de Raúl Castro sai ganhando, segundo analistas. Para Victor Gaetan, correspondente do jornal
católico "National Catholic Register"
e colaborador da revista "Foreign
Policy", o encontro posiciona
Havana "como um mediador entre o Ocidente e a Rússia".
Ted Piccone, analista do programa sobre
América Latina do Instituto Brookings, um centro de estudos americano, também
diz que o encontro ajudará a melhorar a imagem de Cuba no exterior.
"Cuba
precisa reconstruir seu capital no exterior agora que já não pode se limitar a
simplesmente queixar-se dos Estados Unidos. (O país) quer projetar a imagem de que é um conciliador diplomático neutro, como
fez no caso das conversas de paz entre a Colômbia e as Farc (Forças Armadas
Revolucionárias da Colômbia)", disse à BBC
Mundo.
De
acordo com ele, a situação oferece vantagens a Havana em meio a um momento
difícil. "Havana tem que encontrar outras formas de captar a atenção
internacional porque precisa de toda a atenção da mídia que puder obter, dado
que a situação econômica não é boa e a Venezuela está mais fraca a cada dia. Cuba tem que diversificar seus vínculos com
outros países", disse.
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PAPA FRANCISCO USA SOMBREIRO MEXICANO no interior do avião que o está levando para Cuba Roma, 12 de fevereiro de 2016 |
Afastamento
e rivalidade
Nos
últimos anos as tentativas de aproximar as duas Igrejas foram dificultadas pela
desconfiança mútua.
Os ortodoxos se ressentem,
entre outras coisas, da suposta expansão do catolicismo em áreas que antes
faziam parte da União Soviética.
Eles
também se opõem ao papel que a Igreja
Católica vem exercendo na Ucrânia, especialmente pelo que consideram
posturas pró-ocidentais e antirrussas.
Mas,
por que as Igrejas Católica e Ortodoxa
estão afastadas há mil anos?
Em 1054, o papa de Roma e o
patriarca de Constantinopla se excomungaram mutuamente, dando início ao que se
conhece como o grande cisma do cristianismo - que persiste até hoje.
Mesmo
antes disso perdurava um distanciamento
cultural. Na Igreja do Ocidente se falava o latim, enquanto no Oriente
bizantino prevalecia a cultura helenística grega. Além disso havia grandes diferenças doutrinárias, como sobre a
natureza do Espírito Santo.
Outra
diferença fundamental é o modo como as
duas igrejas entendem a função de seu mandatário.
Na Igreja Católica o papa é a máxima
figura de autoridade.
Já
a Igreja Ortodoxa está dividida em patriarcados entre os quais
existe uma igualdade. O de Istambul, com 10 mil fiéis, tem certa preeminência,
mas não possui jurisdição sobre toda a Igreja Ortodoxa. O [patriarcado] de Moscou tem influência sobre até 200 milhões de fiéis.
Calcula-se
que a Igreja Católica tenha 1,2 bilhão de fiéis.
Além
disso, a Igreja Ortodoxa Russa sempre
esteve vinculada com o poder, seja com o imperador, com o czar ou com o
Partido Comunista. Atualmente, desde 2009, o
patriarca Kirill mantém uma relação estreita com Vladimir Putin.
E
a partir de agora?
A
unidade do cristianismo não ocorrerá de um dia para o outro. Mas o encontro surge como uma tentativa de
iniciar um processo que exigirá concessões de todas as partes.
Do
ponto de vista católico, a aproximação é parte da agenda de reformas do papa
Francisco. Entre elas está não deixar
que a primazia papal seja obstáculo para a unidade da Igreja.
Para
a Igreja Ortodoxa o problema é
inverso, devido à falta de uma liderança clara. Há 50 anos tenta-se convocar um sínodo, uma assembleia de bispos - mas
não há uma autoridade central para convocá-lo.
Talvez
Kirill enfrente mais pressão interna que Francisco. "As forças
conservadoras em Moscou disseram que não apreciam a reunificação com o Ocidente
porque isso os enfraquece", afirma Chad
Pecknold, teólogo da Universidade Católica da América, nos Estados Unidos.
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