No Brasil há muitas forças e movimentos é preciso articulação!

Capital Social

Silvio Caccia Bava
Diretor e editor-chefe

Está fermentando na sociedade uma crescente insatisfação popular
a qual é expressa por meio de muitas manifestações
nem sempre divulgadas
HÁ MUITOS MOVIMENTOS, ORGANIZAÇÕES E MOBILIZAÇÕES
OCORRENDO EM TODO O BRASIL.

A POPULAÇÃO ESTÁ MUITO INSATISFEITA!!!

Em meio a toda esta luta política que se observa no plano do Congresso, da mídia e dos partidos políticos, torna-se menos visível a fermentação na sociedade de uma crescente insatisfação popular. Os altos índices de reprovação do governo e do desempenho do Congresso são apenas um de muitos indicadores. Muitas manifestações eclodem localmente, sem que a imprensa dê notícia. É a violenta repressão policial contra as mobilizações mais expressivas, como a luta atual contra o aumento das tarifas do transporte público, que provoca a solidariedade da sociedade para com os manifestantes. No que essa insatisfação vai dar não se sabe, é o imponderável. Mas Junho de 2013 não está tão longe e os problemas não fizeram mais do que se agravar. E Junho trouxe como experiência a ação direta, a ocupação das ruas, a mobilização da juventude, a politização dos movimentos sociais, a pressão sobre as instituições democráticas.   

A cartografia dos conflitos mostra a cidadania mobilizada em variadas frentes:
* a disputa pelo direito à cidade,
* pelo direito à terra,
* pelo direito ao trabalho,
* contra as discriminações de todo gênero,
* pela preservação do meio ambiente,
* contra a mercantilização dos serviços públicos,
* pela universalização da saúde,
* da educação,
* pelo acesso à cultura,
* pela segurança pública etc.

Há uma diversidade de novos e velhos atores que ocupam o espaço público e apresentam suas demandas e seus questionamentos. Mobilizados por suas questões específicas, eles expressam o que Pierre Bourdieu denomina capital social: a capacidade de organização e de expressão autônoma de atores coletivos na cena pública. E o Brasil se destaca pela riqueza de sua organização social, pela grande quantidade de associações e entidades de defesa de direitos que possui.

Esse capital social é o conjunto:
* das associações de moradores,
* grupos de teatro na periferia,
* ONGs,
* sindicatos,
* associações profissionais,
* organizações de base de igrejas,
* movimentos de moradia,
* saraus da periferia e
* inúmeras outras iniciativas de criação de coletivos diversos, como os feministas e
* os do movimento negro, que, em conjunturas particulares, se somam, criam formas de articulação, ampliam e politizam o questionamento do Estado e das políticas que este pratica.

São frentes de resistência à destituição de direitos, as quais, por exemplo, lutam contra as privatizações que sacrificam conquistas e bens públicos comuns em favor dos interesses do mercado.

A luta por direitos é também a luta contra a desigualdade e requer narrativas que desvendem as formas de exploração e opressão e tornem ilegítimas as políticas promotoras desse problema. Mas não bastam as denúncias; essas mobilizações precisam trazer a público propostas afirmativas para a reconstrução de uma área social específica, como é o caso da tarifa zero nas mobilizações contra o aumento das tarifas. A disputa pelos recursos e por novas políticas públicas é uma disputa concreta, ponto a ponto, que precisa de alternativas concretas para contrapor a lógica dos direitos à lógica do mercado. 

No caso da tarifa zero, não se trata de negociar apenas um valor menor para a tarifa; trata-se de estimular o imaginário social com uma proposta que subverte o quadro institucional e apresenta uma ruptura: contrapõe a defesa de bens públicos comuns com a lógica dos serviços públicos como mercadoria.

Sob a bandeira de luta contra a mercantilização dos serviços públicos e a defesa dos bens públicos comuns se agregam muitas lutas. É uma bandeira unificadora que, para ter força, precisa manter e reforçar relações concretas com as demandas sociais diretas da população. É uma proposta que combina dois propósitos: enfrentar as carências atuais e oferecer ao imaginário social um projeto de sociedade na qual essa utopia dos bens públicos comuns se concretize. 

Outras importantes frentes agregadoras das lutas sociais são:
* a questão do meio ambiente,
* da poluição,
* da escassez de água,
* do saneamento e
* das epidemias;
* os movimentos de juventude, como a ocupação das escolas públicas;
* os movimentos de defesa dos direitos da mulher e do negro; entre outras.

Em todas essas frentes de conflito, a cidadania se organizou para a defesa de direitos e criou redes e fóruns que articulam entidades e movimentos locais e regionais para potenciar sua capacidade de intervenção.

Na soma da variada gama de seus participantes, essas redes e fóruns têm demonstrado a capacidade de elaboração de narrativas para a defesa de direitos, de atuarem na guerra das ideias, de promoverem importantes manifestações públicas. Muitas delas reúnem sindicatos, movimentos sociais, acadêmicos, ONGs, associações profissionais e entidades de variados tipos. Cada um desses atores aporta sua contribuição para o conjunto. Uns oferecem seu trabalho de pesquisa e análise das políticas públicas; outros, as bases sociais de suas organizações; um terceiro, o empenho na organização das manifestações etc. E sob a bandeira do direito à cidade, por exemplo, todos cooperam, se complementam e se mobilizam.

O período pós-ditadura abriu espaço para as organizações de defesa da cidadania construírem suas articulações regionais, nacionais e mesmo internacionais. As centrais sindicais são um exemplo. A Associação Brasileira de ONGs é outro exemplo.
[ . . . ]

Mas os tempos são outros. Não há mais a polarização ditadura-democracia, o que desafia esses movimentos a abrigarem novas utopias, a articularem essa diversidade numa luta conjunta por uma nova sociedade e ao mesmo tempo reforçarem suas mobilizações por demandas concretas. A Frente Brasil Popular é uma iniciativa, criada em setembro passado, que se propõe a cumprir esse papel.


Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil – Editorial – Ano 9 – Número 103 – Fevereiro 2016 – Pág. 3 – Internet: clique aqui.

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