A QUE PONTO CHEGAMOS ! ! !
Nem a merenda escapa
Editorial
Graças aos corruptos, a modesta merenda da garotada
ganhava
preços de rara iguaria.
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FERNANDO CAPEZ Deputado Estadual pelo PSDB e Presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo |
Em
tempos de desvio de dinheiro público na casa dos bilhões de reais, não chega a
causar espécie a descoberta de um novo esquema de corrupção cujo prejuízo é
grafado com muitos zeros a menos que o do petrolão. O espantoso desse caso não é o valor da roubalheira, e sim a
tranquilidade com que foi tungado o dinheiro que deveria ser destinado à compra
de alimentos para crianças em escolas públicas - além da suspeita de que o
esquema envolvia, entre outras tantas figuras, o presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, o deputado
tucano [PSDB] Fernando Capez.
O
nome da operação da Polícia Civil e do Ministério Público Estadual que flagrou
o esquema é “Alba Branca” -
referência irônica a uma trufa do Piemonte, região ao norte da Itália, cujo
preço pedido pelos produtores chega a cinco dólares o grama. Graças aos corruptos, a modesta merenda da
garotada ganhava preços de rara iguaria. Num dos exemplos de
superfaturamento citados no inquérito, um
litro de suco de laranja que custava R$ 3,70 para o fornecedor chegou a ser
vendido a R$ 6,80 para a Secretaria da Educação.
A
operação, realizada no dia 19/1, prendeu dirigentes da Cooperativa Orgânica Agrícola Familiar (Coaf), na cidade de Bebedouro, interior de São Paulo. Em
depoimento, esses funcionários disseram que a Coaf pagava propina para obter contratos com a Secretaria da Educação
e com 22 prefeituras do interior. O suborno podia chegar a 25% do valor
contratado, segundo disseram os suspeitos. Como um típico esquema mafioso, o pagamento muitas vezes era feito em
dinheiro vivo, em postos de gasolina na beira de estradas.
Os
presos indicaram como principais
beneficiários:
* o deputado Fernando Capez,
* o
secretário estadual de Logística e Transportes, Duarte Nogueira, e
* Luiz Roberto dos Santos, vulgo “Moita”, que era assessor do
secretário-chefe da Casa Civil do governo paulista, Edson Aparecido.
Além
de presidente da Assembleia Legislativa, Capez
é procurador de Justiça licenciado e ganhou visibilidade, em 1994, ao deflagrar
uma cruzada contra as torcidas organizadas de futebol. Seu nome circula
como um dos possíveis postulantes tucanos à sucessão do governador Geraldo
Alckmin, em 2018.
Capez
foi citado por vários envolvidos, entre os quais Cássio Chebabi, presidente da Coaf, que aceitou fazer delação
premiada. Chebabi disse que, no final de 2014, foi informado por um dos
operadores do esquema, Marcel Ferreira
Julio, de que teria de pagar propina para conseguir um contrato de
fornecimento de suco de laranja para as escolas estaduais.
No
ano anterior, a Coaf havia sido escolhida numa chamada pública para esse mesmo
serviço, no valor de R$ 8 milhões, mas o processo foi suspenso pelo governo
estadual sem maiores explicações. Uma nova chamada foi feita em 2014, e a Coaf
tornou a ser escolhida, mas isso só aconteceu, segundo Chebabi, porque a
cooperativa aceitou dar 10% para o operador Marcel, que dizia representar o
deputado Capez.
A
Secretaria da Educação afirma que esta última chamada pública resultou em
economia para os cofres públicos, mas não deixou claro por que razão decidiu
suspender o processo anterior. Com esse
comportamento oblíquo, o governo [do Estado de S. Paulo] ajuda a alimentar as
suspeitas de que a suspensão teria servido apenas para que a quadrilha pudesse
pressionar o fornecedor de merenda a pagar propina em troca do novo contrato.
Já
o deputado Capez repeliu com veemência as acusações, dizendo-se vítima de
ex-assessores mal-intencionados. Os outros acusados também negaram tudo. Com o
tempo se saberá quem está dizendo a verdade. Nada disso, porém, muda o fato de
que houve desvio de dinheiro para
merenda escolar, um crime carregado de terrível simbolismo neste momento de
colapso moral que vive o País.
E
isso não aconteceu apenas em São Paulo. Segundo a Controladoria-Geral da União
(CGU), desde 2003 foram desviados cerca
de R$ 2 bilhões destinados à merenda e ao transporte escolar em 2,7 mil
municípios de todo o País. A indecência dos corruptos, como se vê, não tem
limites.
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