Cuidado com antidepressivos em crianças e jovens
Jairo Bouer
Psiquiatra
Estudo mostra que uso de medicamentos pode dobrar risco
de
suicídio entre jovens
Dois
estudos publicados na última semana trazem informações e alertas importantes em
relação à depressão em jovens e o
impacto que o tratamento pode ter em suas vidas.
O
primeiro trabalho mostra que o uso de
antidepressivos de duas das classes mais prescritas nos Estados Unidos da
América [EUA] pode dobrar o risco de suicídio e de violência em crianças e
jovens. Na lista estão medicamentos como:
* fluoxetina,
* paroxetina,
* sertralina,
* duloxetina e
* venlafaxina,
todos
comercializados e amplamente usados no Brasil.
Mais de 1% dos jovens
americanos com menos de 18 anos toma algum tipo de remédio para tratar sintomas
de depressão e transtornos da ansiedade (os antidepressivos têm um espectro de tratamento
que vai além da própria depressão). A agência reguladora de medicamentos dos
EUA, a FDA, já havia alertado
anteriormente sobre o maior risco de suicídio em adultos jovens (18 a 24 anos)
que tomam antidepressivos e recomendado monitoramento cuidadoso dos
pacientes em tratamento.
Nesse
novo trabalho, um grupo de pesquisadores
da Dinamarca se debruçou sobre 70
estudos clínicos, que envolveram
quase 19 mil pacientes, para chegar à conclusão:
* do
maior risco de morte,
* tentativas
de suicídio,
* inquietação
permanente (acatisia),
* agressão
e violência com o uso desses remédios pelos menores.
O
resultado foi publicado no periódico British
Medical Journal e divulgado pelo site Medical
News Today. O mesmo efeito não foi
constatado em indivíduos adultos que usam esses medicamentos.
Os
pesquisadores sugerem que trabalhos anteriores falharam ao não valorizar
informações que mostrariam maior risco em crianças e adolescentes, já que esses
eventos são relativamente raros. Eles
sugerem que alternativas aos remédios poderiam ser terapias de diversas
modalidades e mudanças nos hábitos de vida (como mais atividade física, por
exemplo). Para eles, o uso de
antidepressivos em crianças, adolescentes e adultos jovens deveria ser feito
com mais critério e menor frequência.
De mãe para filha
Outro
trabalho da última semana, da Universidade
da Califórnia, sugere que estruturas cerebrais importantes para o controle
das nossas emoções, como o circuito do córtex límbico (amígdala, hipocampo,
porção ventro-medial do córtex pré-frontal), são mais “transmitidas” das mães para as filhas do que das mães para filhos
e do que dos pais para filhas ou filhos.
Essa
peculiaridade pode sugerir que uma parte
da propensão ou da resistência à depressão nas garotas pode ser “herdada” de
suas mães.
O
estudo, publicado no periódico Journal of
Neuroscience e divulgado pelo jornal inglês Daily Mail, analisou imagens de ressonância magnética de 35
famílias. Enquanto trabalhos anteriores
já apontavam uma associação entre depressão em mães e filhas, essa nova
pesquisa, ao medir o tamanho das áreas cerebrais de pais e filhos, identificou
uma estrutura cerebral específica, que tem relação com depressão e que pode ser
transmitida pela linha matriarcal. A correlação da substância cinzenta
(onde estão o corpo das células nervosas) do córtex límbico foi muito maior
entre mães e filhas.
Isso não significa que as
mães são “culpadas” pela depressão das filhas, alertam os pesquisadores, já que há uma
série de outros fatores envolvidos no desencadeamento da doença, como genes não
herdados da mãe, questões ambientais e sociais e experiências de vida, entre
outros tantos. A transmissão da mãe para
a filha é apenas uma parte dessa complexa e intricada história. Os
especialistas avisam que mais pesquisa é preciso para avaliar o peso da
genética e das condições pré-natais e pós-natais na “transmissão” desses
circuitos cerebrais.
De
qualquer forma, como a depressão parece cada vez mais frequente nos mais novos,
é importante ir mais a fundo em suas causas, novas possibilidades terapêuticas,
além de maior cuidado nos tratamentos medicamentosos que existem hoje.
Fonte: O Estado de S. Paulo
– Metrópole / Saúde – Domingo, 31 de janeiro de 2016 – Pág. A24 – Internet: clique aqui.
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