Precisamos recuperar a nossa história de luta democrática!
Retomar o fio da meada
Luiz Werneck
Vianna
Sociólogo
– PUC-Rio
Lá atrás, há um fio de meada a ser retomado para nos
guiar nesse
terreno baldio que se tornou a política brasileira
No
mês de abril de 2014, ainda antes da infausta Copa do Mundo, este articulista,
intrigado com a falta de previsibilidade sobre a natureza da situação que já
então nos afligia, arriscou-se a caracterizá-la como esquisita. Passados a sucessão presidencial, os revoluteios
presidenciais em matéria econômica – do fiscalismo de Joaquim Levi para o dito
keynesianismo do atual ministro da Fazenda, Nelson Barbosa –, a abertura do
processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, as ações que se
sucedem em vertigem da Operação Lava Jato, que afetam partidos e políticos e já
atingem o ex-presidente Lula, cabe o reparo: a situação está esquisitíssima e é de alto risco para a democracia
brasileira.
Vive-se um fim de ciclo e
nada garante que o próximo será melhor do que este em via de fechar. Há tempos que nosso mundo
gira fora do eixo dos seus gonzos. Estamos,
agora, no reino da imprevisibilidade, condenados a marchar nas trevas, uma vez
que o passado não mais ilumina o futuro, uma vez que deixamos escapar, por manobras erráticas e ambições de poder, o rico repertório que criamos ao longo das
lutas contra o regime militar e nos conduziu à democratização do País.
Não
se chegou a esse momento de refundação da vida republicana com as mãos
abanando, pois foi antecedido por uma bem-sucedida revisão crítica, por parte
das ciências sociais, da nossa história de autoritarismo político e pela ação
de movimentos sociais e partidos políticos aplicados na mesma direção.
Um BREVÍSSIMO INVENTÁRIO
DESSE TEMPO DE IDEIAS E PRÁTICAS NOVAS que se aplicaram em pôr a nu as razões
de fundo da nossa persistente síndrome autoritária não pode omitir:
[1] o
primeiro congresso dos trabalhadores
metalúrgicos de São Bernardo do Campo, em 1974, que denunciou a estrutura corporativa sindical – Lula
alçou-se ali à cena pública nacional, como lembrou o ex-ministro Almir
Pazzianotto em artigo recente –,
[2] nem
o documento eleitoral do MDB, também
de 1974, solicitado por seus
dirigentes a intelectuais de diferentes tendências políticas, norte da campanha
eleitoral que infligiu a primeira derrota política ao partido do regime militar
na disputa pelo Senado no Estado de São Paulo, naquele mesmo ano.
[3] Podem-se
alinhar outras iniciativas significativas, como, entre outras, a publicação de São
Paulo – Crescimento e Pobreza (São Paulo, Edições Loyola, 1975), coletânea de textos, produzidos sob a
instigação do cardeal Paulo Evaristo Arns, que redigiu a apresentação, onde
se pretendeu fixar as linhas de política
social da frente democrática de oposição ao regime autoritário.
[4] Uma
das mais marcantes, pelo tempo de duração – cerca de dois meses –, pela
afluência de público e pela representatividade das personalidades envolvidas,
foi a dos seminários do círculo de
debates no Teatro Casa Grande
(Rio de Janeiro) no primeiro semestre de
1978, que foram transcritos e publicados pela Editora Vozes em 1979 com o
título de Conjuntura Nacional – o articulista não resiste ao registro de
que esteve entre seus organizadores e participantes.
Os
temas desses seminários iam da questão imperativa da hora, como:
* a
dos obstáculos e exigências para a transição
para a democracia, então em embrião,
* ao
da organização sindical,
* passando
pela da indústria,
* a
dos empresários e suas opções políticas,
* pela
agrária,
* não
faltando a da cultura e
* a
nuclear, que deixaram seus rastros
na cultura democrática que prevaleceu na
Constituinte de 1988 e na social-democracia à brasileira que medrou a
partir daí. Vale a lembrança de que, após
a democratização do País, dos quase 30 conferencistas desse círculo de debates,
6 se tornaram ministros de Estado e 2, Fernando
Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula
da Silva, ocuparam a Presidência da República.
Hoje,
como na Itabira do poeta, esses idos de boa memória, agora apenas um quadro na
parede, doem e parecem ser de pouca serventia para orientar a ação. De fato, o passado não mais ilumina, e somos
testemunhas da emergência de movimentos
juvenis enérgicos e buliçosos – como o dos secundaristas de São Paulo que
ocuparam suas escolas em protesto contra processos de reforma educacional e em
boa parte se encontram nas ruas contra o aumento das tarifas nos transportes
públicos –, sem a memória da cultura
democrática que nos levou à Carta de 88.
Por
desastres da ação humana, tudo indica que nosso
esboço de social-democracia conhece o risco de gorar e, com ela, a
concepção generosa e afirmativa do Brasil
como um lugar propício, tal como nas linhas traçadas pelas obras de Richard
Morse e de Darcy Ribeiro, à recriação da História do Ocidente em bases mais
fraternas e solidárias. Estão aí, ecoando essas ameaças, o programa de
História que se apresentou no projeto do currículo nacional de iniciativa do
Ministério da Educação, e os novos programas partidários, como o da Rede e o do Raízes, que, apesar de trazerem inovações importantes, fazem tábula
rasa das nossas conquistas civilizatórias e dos ideais de igual-liberdade que
nunca deixaram de vicejar aqui.
O populismo, que acabou por encontrar, em meio aos zigue-zagues da nossa política, um lugar imprevisto no PT, mais como um
filho das circunstâncias e do pragmatismo da sua principal liderança, não teve
como se apresentar de corpo inteiro em razão das origens desse partido no
sindicalismo operário moderno e em estratos intelectuais cultivados. Agora ameaça ressurgir com antigos
personagens e narrativas messiânicas de ideólogos que o cultivam sem os
constrangimentos que, antes, o PT experimentou ao flertar com ele.
Para
enfrentar nossos males não bastam os bons resultados da Operação Lava Jato,
pois, como sempre, nosso destino vai
depender da BATALHA DE IDEIAS, que, aliás, já começou. Lá atrás, há um fio
de meada a ser retomado para nos guiar nesse terreno baldio que se tornou a
política brasileira a fim de barrar o caminho dos cavaleiros da fortuna que vêm
por aí.
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