DEBOCHAM DO BRASIL PORQUE CREEM NA IMPUNIDADE!
A feira do Santana
Dora Kramer
Apesar do alerta em 2005, PT preferiu apostar na
presunção de impunidade
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JOÃO SANTANA Responsável pela publicidade das campanhas eleitorais de Lula e Dilma Rousseff chegando preso à sede da Polícia Federal em Curitiba (PR) |
O
governo sabia, pelo menos desde meados de outubro do ano passado, que o
marqueteiro para toda obra - tratado como “40.º
ministro” - havia caído na malha da Lava Jato. Os investigadores encontraram referências a pagamentos feitos no
exterior, nas anotações registradas no telefone celular de Marcelo Odebrecht.
A
citação estava em código. “Feira”
era o destinatário do dinheiro, identificado como João Santana numa espécie de trocadilho com a cidade baiana que une
o apelido ao sobrenome do marqueteiro. A
informação chegara aos ouvidos do senador Delcídio Amaral e fora repassada à
presidente Dilma Rousseff e ao antecessor, Lula, nas várias e constantes
conversas que mantinha com ambos.
Inverossímil,
portanto, o espanto com que alegadamente governo e PT receberam a notícia da
ordem de prisão temporária de Santana. Difícil dar fé, pelo mesmo motivo, à
incredulidade aludida pelo publicitário diante da decisão do juiz Sérgio Moro. A ideia contida aí nessa simulação é a de
fingir surpresa diante da ocorrência de ilícitos. Como assim, pagamentos
feitos de maneira irregular? Que história é essa de que o dinheiro das
campanhas eleitorais petistas pode ter origem nas propinas das empreiteiras?
Uma história que começou a
ser contada há mais de dez anos na CPI dos Correios pelo marqueteiro Duda
Mendonça quando confessou ter recebido “por fora” para fazer a campanha de Lula
em 2002.
Até aí tivemos uma narrativa incompleta que esbarrou na complacência (mal)
estudada da oposição e na versão amenizada do caixa dois. Duda pagou o devido à
Receita, livrou-se das acusações, mas o aviso estava dado: havia algo mais que contabilidade paralela nas contas petistas.
Não
obstante o alerta que levou os conselheiros do então presidente da República a
cogitar da hipótese de Lula não concorrer à reeleição, a via do ilícito continuou a ser adotada pelo partido como forma de
financiamento. Isso enquanto o PT “lavava” a imagem defendendo com ardor a
reforma política, tendo como ponto crucial a instituição do financiamento
público de campanhas sob a alegação de que nas doações empresariais é que
residia a origem da corrupção no País.
Nos
bastidores desse teatro, o modo de
operação dos desvios era aperfeiçoado ao ponto da urdidura de um crime
supostamente perfeito:
* contratos superfaturados,
* cuja “sobra” era
encaminhada ao partido [PT e outros] que, por sua vez,
* declarava ao Tribunal
Superior Eleitoral (TSE) as doações na forma da lei.
* E assim, à sua revelia, o
TSE passou a fazer parte do esquema no papel de lavanderia de propinas.
A
conclusão não é minha nem decorre de juízo precipitado. Está baseada no
conteúdo dos depoimentos de vários delatores que dependem da veracidade de suas
informações para obter benefícios da Justiça, nas afirmações contundentes do
procurador-geral da República, nas palavras do juiz Sérgio Moro decorrentes do
exame das provas já coletadas, no produto das ações de busca e apreensão feitas
pela Polícia Federal e na sustentação que os tribunais superiores têm dado aos
procedimentos da Operação Lava Jato.
Substituto de Duda Mendonça
na arquitetura das vitórias do PT, João Santana não foi atingido agora por uma
coincidência.
Foi, isto sim, alcançado pelos efeitos da reincidência
de um grupo político que invoca constantemente o preceito constitucional da
presunção de inocência, mas que preferiu apostar na presunção da impunidade.
João
Santana, o gênio conhecedor dos meandros do poder, certamente não embarcou de
gaiato no navio. Como de resto estiveram cientes do conteúdo os porões, todos
os demais navegantes, dos comandantes aos tripulantes. Ninguém governa por
quatro períodos consecutivos sendo o último a saber.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Política –
Quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016 – Pág. A6 – Internet: clique aqui.
A cara da galhofa
Editorial
O marqueteiro João Santana e sua mulher e
sócia, Mônica Moura, nem se deram ao
trabalho de fingir vergonha ou constrangimento, como fez, há 11 anos, o
publicitário Duda Mendonça. Como
todos haverão de se lembrar, o publicitário responsável pela vitoriosa campanha
de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002 foi
às lágrimas três anos mais tarde ao reconhecer, em meio ao escândalo do
mensalão, que havia recebido mais de R$ 10 milhões do PT numa conta no
exterior, num esquema de lavagem de dinheiro e caixa 2.Há quem diga que as
lágrimas de Duda eram tão falsas quanto a imagem que ele criou para Lula na
eleição presidencial, mas nada se
compara ao sorriso zombeteiro de Mônica Moura ao chegar com o marido à Polícia
Federal no Paraná, na terça-feira passada.
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MÔNICA MOURA Esposa e sócia de João Santana, sorri ao chegar à sede da Polícia Federal em Curitiba (PR) |
Essa
imagem tem tudo para se tornar um dos grandes símbolos do DEBOCHE que os petistas e seus associados reservam aos brasileiros
sempre que são pilhados fazendo o que não devem. Tal comportamento revela
contumaz menosprezo pela inteligência alheia e convicção absoluta na
impunidade.
“Não vou baixar a cabeça, não”, disse Mônica
aos jornalistas. Sua confiança se baseia
na presunção de que o Brasil é um país de tolos. Acusados na Operação Lava
Jato de receber US$ 7,5 milhões em uma conta no exterior, depositados pela
Odebrecht e por um dos operadores do assalto à Petrobrás, Mônica e o marido vão argumentar que tudo o que receberam no exterior
se refere a serviços prestados em outros países. “Não tem um centavo de valor recebido no exterior que diga respeito a
campanhas brasileiras”, garantiu o advogado da dupla.
Ora,
se é assim:
* como
explicar que parte do dinheiro daquela conta atribuída a Santana tenha sido
depositada por uma empresa que a Lava Jato diz ser ligada à Odebrecht?
* Que serviço o marqueteiro
prestou à empreiteira para merecer tão vultoso pagamento?
A
versão que interessa à defesa de Santana e da Odebrecht é a que sugere que o
dito pagamento se refere às campanhas do marqueteiro em países nos quais os
candidatos a presidente também foram financiados pela empreiteira. Mais uma
vez, fica claro de que ri a senhora Santana: ela, o marido e a empreiteira querem fazer acreditar que a Odebrecht
pagou diretamente ao marqueteiro por serviços que deveriam ser quitados pelos
candidatos a quem ele prestava serviço. A vingar essa explicação
excêntrica, a única pendência dessa turma com a Justiça seria a existência de
uma conta não declarada no exterior. É do barulho.
Na
mesma linha, o ministro da Secretaria da Comunicação Social, Edinho Silva, negou que Santana tenha
recebido no exterior qualquer pagamento pelos serviços que prestou à campanha
da reeleição da presidente Dilma Rousseff, em 2014. “Fui coordenador financeiro da campanha da presidenta (sic) e asseguro ao Brasil que nada de errado
aconteceu nas contas da presidenta (sic) Dilma”, declarou Edinho.
Para
a Lava Jato, no entanto, não é bem assim. Enquanto a Odebrecht, Santana e os
petistas recorrem às fábulas, no mundo real os investigadores ficaram sabendo que uma conta não declarada do
marqueteiro na Suíça recebeu três depósitos no total de US$ 1,5 milhão entre
julho e novembro de 2014, justamente na época em que ele era o responsável pela
imaculada – segundo Edinho Silva – campanha de Dilma. O dinheiro foi
depositado por Zwi Skornicki,
operador de propinas da Petrobrás, a quem, aliás, a senhora Santana orientou
pessoalmente sobre como proceder para depositar dinheiro nas contas do casal no
exterior, conforme se lê num bilhete que hoje é uma das principais evidências
da maracutaia. “Euro ou dólar, vocês
escolhem o melhor”, escreveu Mônica.
Em
2005, quando Duda Mendonça confessou ter recebido pagamentos clandestinos do
PT, João Santana disse, em entrevista ao jornalista Luiz Maklouf Carvalho, ter
ficado “estarrecido” e que na época vaticinou: “O governo acabou”. De fato, era
o que deveria ter acontecido. Como não aconteceu – Duda Mendonça se livrou da Justiça e Lula continuou presidente –,
Santana parece acreditar que a história vai se repetir. Mas os tempos são
outros.
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