“Há um efeito Francisco nos cidadãos, mas ainda não na Igreja”
Jan Martínez
Ahrens
El País
09-02-2106
O bispo mexicano mais ameaçado acompanhará Papa Francisco
na visita ao México
![]() |
RAÚL VERA Bispo de Saltillo - México |
Ele
é o rebelde. O bispo mais ameaçado do
México. O prelado que nos anos noventa virou as costas aos ditados do
Vaticano e se somou em Chiapas ao clero indigenista; o mesmo que agora
defende os homossexuais e que enfrenta em rosto descoberto o cartel dos Zetas.
A
voz de RAÚL VERA (nascido em Acámbaro,
estado de Guanajuato, em 1945) irrita a muitos, mas não deixa de ser escutada
com atenção em Roma. A ascensão de Francisco e sua busca das periferias
existenciais encontrou, no bispo de
Saltillo (Estado de Coahuila), um de seus grandes porta-vozes em terras
norte-americanas. No próximo dia 12 de
fevereiro o Papa iniciará sua primeira visita ao México. Vera o acompanhará
em todas as paradas.
Eis
a entrevista.
41
sacerdotes foram assassinados na última década. E o senhor mesmo vive sob
ameaça de morte. É tão perigoso ser religioso no México?
D. Raúl Vera: A sombra da morte cresce a
cada dia, mas para todos, sejam presbíteros ou taxistas. E isso obedece à impunidade que há no México.
Durante
muito tempo, o senhor foi um marginalizado no episcopado. E agora?
D. Raúl Vera: Veja, sou uma pessoa que
fala da mesma forma dentro das catedrais como fora. Mas nunca me senti separado
dos meus irmãos bispos. O que vi, sim, é uma reação mais próxima e aberta
quando se fala de violência.
Ciudad
Juárez, Chiapas, Michoacán, Ecatepec… A viagem do Papa é um percurso pelos
problemas do México?
D. Raúl Vera: Os lugares são emblemáticos,
começando pela Basílica de Guadalupe, o primeiro local que quis visitar. Francisco vem muito preocupado com a
migração, com a necessidade de irmanar-se frente a um modelo econômico que impõe a morte e trata os seres humanos como
mercadoria.
E
que consequências terá a visita?
D. Raúl Vera: Será uma chamada de atenção
para ser mais responsável. México é um
dos países mais destruídos do planeta; aqui se aplicaram à força as leis
mercantilistas, as grandes empresas se
apossaram da nação e amplas regiões estão submetidas à violência. Não
esqueçamos Ayotzinapa. Foi um
horror. Levaram os [estudantes] normalistas à vista de todos [clique aqui para saber mais]. E agora o Exército não se deixa interrogar sobre o que se
passou.
E
para um episcopado tão ortodoxo como o mexicano, o que significará a presença
do Papa?
D. Raúl Vera: Francisco fala de
misericórdia e de vergonha. Escutar aqui
sua forte palavra nos levará a cerrar fileiras em torno ao sofrimento, a
escutar e atender a voz das vítimas. O sofrimento precisa rebelar-se. Por isso o Papa vai onde a população, como
a indígena, vive uma situação difícil, onde as pessoas não são reconhecidas
como cidadãs completas, onde não recebem trabalho, senão caridade... A nós, os bispos, deve fazer-nos pensar o
que escolheu o Papa: a migração, a violência...
E
o que faz falta na viagem?
D. Raúl Vera: Faltam-lhe dias. João Paulo
II chegou a estar sete dias.
Francisco
encontrará um país com o catolicismo em retrocesso.
D. Raúl Vera: Estamos reagindo, mas faltam projetos pastorais. O Papa pede
que nos integremos mais. A Igreja ainda
não sai às periferias existenciais, atende mais as questões de culto que de
transformação da sociedade. Necessita
mais contato. A emergência da sociedade civil não vem da Igreja.
Mas
não há um efeito Francisco?
D. Raúl Vera: Vejo-o nos cidadãos, mas
ainda não na Igreja. Somos nós, os
bispos e sacerdotes os que temos que converter-nos à integridade do Evangelho.
Falta-nos uma visão mais crítica.
Traduzido do espanhol por Benno Dischinger. Acesse este artigo na
versão original, clicando aqui.
Comentários
Postar um comentário