O BRASIL PODE QUEBRAR?
Após três décadas, risco de calote volta a assombrar
economia brasileira
Economistas
de todas as correntes desenterraram uma discussão que parecia superada na
história das finanças nacionais: o
Brasil pode quebrar, como aconteceu na década de 1980? Nas duas últimas
semanas, afora as conversas informais, pelo menos cinco relatórios de
diferentes instituições abordaram esse tema.
O
temor é alimentado por uma constatação: o
País é hoje assombrado por uma nefasta combinação de recessão profunda e
aumentos desenfreados de gastos e dívidas. Pelas mais recentes projeções, a economia encolheu 4% no ano passado e
deve sofrer nova contração em torno de 4% este ano. A deterioração pode ser
vista em todos os lados da sociedade.
No
ano passado, cerca de 100 mil lojas
fecharam as portas no Brasil. O número de postos de trabalho fechados chegou a 1,5 milhão e o total de pessoas
desempregadas no País já atinge 9 milhões, um recorde.
Cerca de 1 milhão de alunos
trocaram as escolas privadas pelas públicas, e é
crescente a quantidade de pessoas que perdem os planos de saúde e têm de
recorrer ao SUS, com todas as dificuldades de atendimento. [E redução de
verbas determinada pela presidente Dilma!]
A atividade econômica em queda vai reduzindo
as receitas com impostos e ampliando o rombo nos caixas da União, dos Estados e
dos municípios. Hoje, não há economista que olhe para esses números e não
se preocupe, em especial com a trajetória da dívida pública, que está
hoje em 66% do PIB e pode chegar perto dos 90% no ano que vem, segundo
alguns analistas.
O
governo garante que não há risco de insolvência e que tem adotado todas as
medidas possíveis para estabilizar a dívida pública. Há uma grande preocupação
principalmente com a escalada do aumento dos gastos com a Previdência Social.
Mas o governo enfrenta dificuldades em encontrar apoio dentro do seu próprio
partido para mudar esse cenário.
Investidor teme descontrole da
dívida pública
Alexa Salomão
Gastos em alta, receitas em queda, esqueletos se
acumulando e
falta de coordenação política minam a confiança
O
cerne do desarranjo que hoje se vê na economia nacional está na falta de confiança dos investidores de que
o Planalto [Governo Federal] tem musculatura política e bom senso econômico
para tirar o País da recessão. O tamanho do descrédito pode ser medido no
relatório divulgado na semana passada pelo banco americano Goldman Sachs.
O
analista Alberto Ramos, baseado em
Nova York, circulou pelo Brasil durante três dias ouvindo economistas e
executivos de empresas. Concluiu: “Há
uma percepção crescente entre os investidores e analistas locais de que o
Brasil está em uma trajetória que pode, eventualmente, levar à insolvência
fiscal a médio prazo”, escreveu ele.
Insolvência
fiscal ocorre
quando um Estado não consegue bancar
todas as obrigações e precisa fazer escolhas: ou quita a dívida, ou paga
funcionários, ou investe.
Para
o economista Mansueto Almeida, seria
um desatino dizer que o Brasil quebrou, mas é certo que está nesse rumo. “Vamos chegar lá se nada for feito”,
diz. Para estabilizar a dívida e evitar o seu crescimento, o País precisa
economizar entre 3% e 3,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Porém, amarga um
déficit de 1,5% a 2% do PIB.
Há
razões conjunturais e histórias para explicar como o País entrou no vermelho. De um lado, a crise derruba a arrecadação.
Foram R$ 73 bilhões a menos em 2015.
Mas, de outro, gastos engessados crescem em proporção geométrica, sem que
governo e Congresso negociem reformas que possam aliviar a conta. Neste ano, já se prevê um avanço de R$ 87
bilhões nos gastos – R$ 60 bilhões só para a Previdência.
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MANSUETO ALMEIDA Economista especializado em contas públicas |
Preocupam
também os esqueletos: prejuízos surpresas, atribuídos a recentes erros de
política econômica, que vão terminar em pedidos de socorro ao Tesouro Nacional.
Tecnicamente, eles são chamados de passivos contingentes. No mercado, já se dá como certa uma capitalização da Caixa Econômica
Federal e da Petrobrás, além de uma ajuda
aos Estados. “A União será convocada a resgatar uma série de setores lá na
frente”, diz o economista-chefe da Verde
Asset Management, Daniel Leichsenring.
Pelas estimativas da Verde, a conta já equivale a 5% do PIB – valor
superior ao gasto para pagar toda folha de pagamento do funcionalismo federal
por um ano.
Nessa
toada, há quem estime, como a A.C.
Pastore & Associados, que a
dívida bruta será de quase 90% do PIB em 2017. Isso significa que, para
pagar a dívida, será preciso consumir uma cifra equivalente a quase toda a
riqueza gerada no País. Hoje, a relação é de 66%.
À
primeira vista, os valores podem até não parecer explosivos. O Japão tem uma
relação dívida/PIB de 230%, e ninguém se assusta. O Brasil também tem reservas
gigantes para sacar em caso de aperto. São US$ 360 bilhões no cofre.
O
economista Affonso Celso Pastore
pondera que é preciso avaliar os números à luz do atual momento. “Olhando dados comparáveis, vivemos a maior
recessão dos últimos 35 anos, mas é possível dizer que ela é a maior da
história”, explica. Não há investidor que se sinta confortável numa
recessão.
“Embora
não se ache que o País chegue ao calote explícito, há o risco de um imposto
(sobre o investimento), de erosão inflacionária, de um alongamento da dívida
(jargão que significa pedir mais tempo para devolver o dinheiro do credor).”
Assim, seria impossível sacar as reservas. “Ao
informar que recorreria às reservas, o País sofreria um ataque especulativo na
mesma hora: na prática, então, não pode mexer nelas agora”, diz Pastore.
Sob governos do PT, gastos obrigatórios
sobem 421,4% e chegam perto de
R$ 1 trilhão
Lu Aiko Otta e
Adriana Fernandes
Gastos sufocaram os investimentos, empurraram para cima
a
carga tributária e levaram as contas públicas a
elevado grau de desequilíbrio
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DILMA ROUSSEFF E LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA Dois presidentes que aumentaram muito os gastos do governo, mas não providenciaram o crescimento da receita, ou seja, do dinheiro para pagar as contas!!! |
Nos
14 anos sob administração do PT, os gastos fixos do governo com itens como salários e aposentadorias cresceram 421,4% e chegaram perto de R$ 1 trilhão. Num orçamento cada vez mais apertado, eles
sufocaram os investimentos, empurraram para cima a carga tributária e levaram a
contas públicas a um grau tão elevado de desequilíbrio que já se fala em risco
de “insolvência fiscal” do Brasil.
O
quadro ficou ruim a tal ponto que, madrinha de boa parte das medidas que
criaram essa situação, a presidente Dilma Rousseff deu aval a um plano que
busca frear os gastos, ao fixar um limite máximo – ou, como dizem os técnicos,
um teto – para eles. Ele promete passar por cima até da política de aumento
real do salário mínimo, medida que foi o principal motor dos avanços sociais
alcançados durante os governos petistas – mas que, por outro lado, foi um
grande responsável pela disparada das despesas.
Mas
antes de afetar o salário mínimo, que é a medida mais extrema da proposta e
funciona mais como sinalizador do que como uma intenção concreta do governo, há toda uma lista de providências para
conter os gastos. Ela é composta exclusivamente por medidas impopulares.
Entre as mais brandas, estão:
* a suspensão de aumentos reais nos salários dos funcionários públicos
e
* nos gastos do governo,
* inclusive em áreas como Saúde e
* Educação.
Do
ponto de vista econômico, a criação do teto e também a prometida reforma da
Previdência vão demonstrar que as contas públicas vão melhorar e entrar nos
trilhos no médio prazo. Foi pela ausência dessa perspectiva que o Brasil foi
rebaixado pelas agências de classificação de risco e perdeu seu selo de garantia,
o grau de investimento.
“Tem
de trazer o gasto para baixo e fazer o ajuste. Mas é preciso mudar o foco da política fiscal de olhar só o resultado.
Muito mais útil é o foco no gasto. Numa meta de gasto. É assim que é nos
países desenvolvidos”, disse o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, ao jornal O Estado de S. Paulo.
O
problema está no suporte político a essa medida. É preciso aval do Congresso para os dois. E, se aprovar medidas
impopulares é difícil até para governos em plena forma, para um governo fraco
como o atual é uma missão quase impossível.
O
aumento do risco de impeachment de
Dilma a partir das investigações da operação Lava Jato só agrava o problema. “Esse governo não tem cacife para vender
o médio prazo”, comentou o economista Cláudio
Frischtak, da consultoria Inter.B.
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CLÁUDIO FRISCHTAK Economista e Consultor de Empresas |
Elevador e escada
Os
números mostram que na última década e meia as despesas cresceram ao dobro da velocidade das receitas. Os gastos saíram do equivalente a 16,1% do
Produto Interno Bruto (PIB) em 2002 para estimados 18,9% do PIB este ano. Foi um salto
de 2,8 pontos porcentuais do PIB. No mesmo período, as receitas líquidas
cresceram de 17,7% do PIB para 19,08% do PIB, um incremento de 1,38 ponto
porcentual do PIB.
Olhando
mais detalhadamente o comportamento das despesas, fica claro que o crescimento se concentrou nos chamados
gastos obrigatórios. Eles passaram
de 12,4% do PIB em 2002 para 15,2% do PIB, enquanto os demais dispêndios
ficaram quase no mesmo, saindo de 3,7% do PIB para 3,8% do PIB. Expressas em
reais, as despesas obrigatórias saíram
de R$ 183,9 bilhões para R$ 958,4 bilhões.
O
economista e consultor Mansueto Almeida
aponta o salário mínimo como
vilão do processo. Só no Instituto
Nacional do Seguro Social (INSS), onde 65% das aposentadorias e pensões
pagas correspondem ao mínimo, as
despesas cresceram de 5,91% do PIB para 7,35% do PIB, um aumento de 1,44 ponto.
Outros programas de transferência de renda, também influenciados pelo piso
nacional, respondem por mais 1,07 ponto de expansão. Esses dois itens explicam
quase toda a expansão dos gastos obrigatórios.
Porém,
ele não será problema nos próximos anos, afirmou ao Estado o secretário de
Política Econômica do Ministério da Fazenda, Manoel Pires. “Não vejo pressão por causa da regra de reajuste”,
disse. “No cenário atual, não tem
aumento real.”
Para
o secretário, a correção do salário mínimo não pode ser apontada como única
causa da escalada dos gastos obrigatórios. Ele aponta para razões estruturais -
como, por exemplo, as regras de acesso à
aposentadoria e assistência social, que permitem um ingresso de
beneficiados maior do que o sistema tem capacidade de sustentar.
Mas
o governo perdeu boas chances de conter o aumento dos gastos, apontou Mansueto.
Por exemplo: concedeu um aumento de 27% para os funcionários públicos, em
parcelas. A cada ano, o reajuste será em média de 6,3%, abaixo da inflação.
“Mas poderia ter sido mais rígido”, disse.
Na
Saúde, o orçamento para este ano é de R$ 109,9 bilhões. Mas, pelas leis que
determinam um valor mínimo de dispêndio na área a cada ano, poderia ser de R$
89 bilhões. “É uma redução difícil”, reconheceu o economista.
Se
quiser de fato ajustar as contas, o governo precisará ir mais fundo e acabar
com alguns programas, inclusive na área social, avalia Mansueto. É o que já vem
acontecendo, na prática. Por exemplo: as bolsas de estudo de nível superior,
que tiveram orçamento de R$ 6,6 bilhões em 2015, vão contar este ano com R$ 3,8
bilhões ou menos. A maior parte desses recursos se referem ao Ciências sem Fronteiras, uma vitrine do
governo Dilma.
Especialista
em contas públicas, o economista chefe da corretora Tullett Prebon, Fernando Montero, fez a contas e
calculou que o governo precisaria de um
corte de R$ 107,6 bilhões para garantir a meta de superávit deste ano.
“Esse é um corte descomunal que seria necessário para garantir a meta federal
original”, ponderou Montero.
A resistência a radicalizar
os cortes, porém, é grande. Os técnicos do Ministério do Planejamento, em tese responsáveis por
propor reduções de gasto quando necessário, tiveram dificuldades em compor o
contingenciamento anunciado na semana passada, que chegou a R$ 23,4 bilhões
quando a área econômica precisaria de muito mais. “Parece que as pessoas aqui estão com um tipo de Síndrome de Estocolmo e
não querem cortar nada, porque tudo é prioridade”, comentou um deles.
A
criação do teto para as despesas tem a vantagem de mudar essa lógica, segundo
ressaltou o ministro da Fazenda. O foco
passará a ser a composição do gasto, e não o que é ou não importante. Com a
deterioração rápida da avaliação de risco do País, porém, há quem aposte na
área econômica do governo que Barbosa não terá outra saída a não ser abandonar
o gradualismo e promover um choque fiscal de curto prazo com novas medidas para
garantir o superávit.
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