Agora não há mais dúvidas: o objetivo da corrupção na Petrobrás
Janot afirma que desvios na Petrobrás
foram usados para a compra de apoio
Beatriz Bulla
Em manifestação ao Supremo Tribunal Federal, na qual
pede a rejeição
de recurso de Antonio Palocci, procurador-geral
afirma que coalizões deixaram de ocorrer por afinidades
políticas
O
procurador-geral da República, Rodrigo
Janot, afirmou, em manifestação encaminhada ao Supremo Tribunal Federal,
que os desvios de verbas públicas
investigados pela Operação Lava Jato foram utilizados para a compra de apoio
político e partidário. Segundo ele, o uso desse dinheiro na formação de
alianças e coalizões demonstra “que a
sociedade brasileira tem diante de si uma grave afronta à ordem constitucional
e republicana”.
“Pelo
até aqui apurado, o uso de apoio
político deixou de ser empenhado em razão de propostas ou programas de partido.
As coalizões deixaram de ocorrer em razão de afinidades políticas e passaram a
ser decididas em razão do pagamento de somas desviadas da sociedade,
utilizando-se, para tanto, de pessoa jurídica que, até o início da operação
policial, gozava de sólida reputação no mercado financeiro mundial”, escreveu
Janot, em referência ao esquema de pagamento de propina a agentes políticos
oriundo de contratos da Petrobrás.
O procurador-geral defende
ainda a validade das delações premiadas firmadas até agora no âmbito da Lava
Jato.
A
manifestação de Janot consta em parecer no qual a Procuradoria-Geral da
República pede a rejeição de agravo protocolado no início do mês pela defesa do
ex-ministro Antonio Palocci.
Os advogados de Palocci
entraram com recurso no Supremo após o ministro-relator da Lava Jato, Teori
Zavascki, negar pedido de revogação de benefícios concedidos a dois delatores
obtidos por meio do acordo de delação. A defesa de Palocci tenta anular os benefícios
obtidos pelo doleiro Alberto Youssef e pelo lobista Fernando Soares, o Fernando
Baiano.
Os
dois, além do ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa,
citaram o nome de Palocci, que teria exigido pagamento de propina do esquema na
Petrobrás para a campanha eleitoral da presidente Dilma Rousseff em 2010. Os
advogados dizem que há contradições entre os depoimentos, além de retificações
de fala e negativas da história por parte de outros depoentes.
Ao
negar o pedido de Palocci para anular os benefícios, o ministro Teori afirmou que o acordo de delação não pode ser impugnado
por terceiros. Após agravo dos advogados contra a decisão, Janot encaminhou parecer com defesa das
delações.
O
procurador-geral argumenta que o Estado
precisa usar os meios eficientes para combater a criminalidade, com soluções
modernas contra o crime organizado, “em especial aquele que assalta os
cofres públicos, pois as consequências
refletem-se na falência de serviços públicos e benefícios destinados à
população”.
Ele classifica como crimes
“sem precedentes na história do País” os desvelados pela Lava Jato. “Os autores de tais
delitos utilizaram-se de complexa trama política, financeira e logística para a
prática de seus crimes, resultando em bilhões
de reais de prejuízo aos cofres da Petrobrás e da União, sua sócia
majoritária”, escreveu.
[ .
. . ]
COTA DOS PARTIDOS - RESUMO
PP
Controlava a Diretora de Abastecimento da
Petrobrás. Segundo o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, o partido,
que integra a base do governo, arrecadou em propina, entre 2006 e 2014, R$ 358
milhões.
PT
O principal partido da base controlava a
Diretoria de Serviços da Petrobrás e, segundo as investigações, recebia parte
da propina que variava de 1% a 2% do valor de cada contrato.
PMDB
Principal aliado do governo, a legenda
controlava a Diretoria Internacional da Petrobrás e, de cada contrato, recebia
parte da cota de 1% desviada como propina, conforme relatos de delatores da
Operação Lava Jato.
Outros partidos
Também são citados na Lava Jato PSB, PSDB,
PTB e SD.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Política –
Sábado, 13 de fevereiro de 2016 – Pág. A4 – Internet: clique aqui.
ANÁLISE
«Há uma crise de legitimidade no
presidencialismo de coalizão»
Entrevista
com Leonardo Avritzer
Doutor em Ciência Política e Professor da
UFMG
Iuri Pitta
Em livro, professor avalia que incômodo com sistema
político é efeito
do loteamento de cargos que deságua em corrupção
![]() |
LEONARDO AVRITZER Cientista Político |
No
dia 18 de fevereiro, o professor Leonardo
Avritzer lança o livro Impasses da
Democracia no Brasil na Escola de Administração de Empresas da Fundação
Getúlio Vargas (FGV), com debate sobre a atual conjuntura brasileira. Nesta
entrevista, sobre sua pesquisa, ele analisa as razões dos atuais impasses da
democracia no Brasil.
Como
o sr. resume os atuais impasses da democracia brasileira? Há risco real de
regressão?
Leonardo
Avritzer: A
democracia brasileira tem êxitos, e vivemos um impasse justamente porque houve
avanços desde 1988, seja na área social, seja na estabilidade da moeda dentro
de um processo legal. O atual momento é de incômodo com o sistema, e muito
disso é efeito da dupla face do presidencialismo de coalizão. A partir de 2013,
fica visível uma crise de legitimidade da forma como se formam as coalizões, a
partir do loteamento de ministérios e distribuição de cargos que deságuam em
esquemas de corrupção para financiamento ilegal dos partidos e das campanhas.
O
sr. também aponta a ineficiência do Estado no combate à corrupção como um sinal
de impasse na democracia brasileira.
Leonardo
Avritzer: É
porque o mesmo sistema que reforçou os mecanismos de controle – como a CGU (Controladoria-Geral da União), a
regulamentação do papel dos tribunais de contas e as operações integradas da
Polícia Federal – ainda é vulnerável porque uma parte do Estado é usada pelos
esquemas de arrecadação dos políticos.
O
sr. atribui um papel de destaque na insatisfação com o atual sistema
democrático à classe média mais tradicional do País.
Leonardo
Avritzer: Há
um crescimento da insatisfação de um segmento social que enfrenta dificuldades
para manter certos privilégios que não encontra paralelo nas classes médias
americana ou europeia. A classe média, de certa forma, ficou sem chão. Assim,
ela caminha para uma postura legítima de protestar contra a corrupção que ataca
o Estado, mas também se incomoda com as mudanças recentes na estrutura social
do País. Isso fica visível a partir de 2013, nas eleições de 2014 e nos
protestos contra o governo em 2015, associados a uma agenda mais conservadora e
a traços de intolerância.
Essa
intolerância, que o sr. vê como crescente na política, é um fator preocupante
para a democracia?
Leonardo
Avritzer: A
intolerância me preocupa por dois motivos: ela divide o País em relação ao
debate político da agenda para os próximos anos, um debate que é preciso ser
feito com pluralidade. E há o mérito em si, a agenda de ampliação de direitos
que temos visto ocorrer desde 1988 para cá e que ficou fortemente ameaçada no
ano passado, principalmente no Congresso. Não é uma condição obrigatória que a
insatisfação da classe média com o funcionamento do Estado e com a corrupção se
associe a uma agenda conservadora no que diz respeito a direitos civis.
O
custo do presidencialismo de coalizão não é só político, mas econômico e
financeiro, certo?
Leonardo
Avritzer: Exatamente.
O custo político é a população não ver como legítima a ligação entre partidos e
processos decisórios. O custo econômico é a desorganização da agenda do
governo, a atuação questionável de órgãos como Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) e Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), que
são ineficientes e por vezes alvo de suspeitas de corrupção. Isso é muito
visível na questão da infraestrutura: temos o pior sistema viário de países em
desenvolvimento. A Argentina, com um poder de arrecadação muito inferior ao do
Brasil, tem estradas muito melhores.
Entre
os pontos para se sair do impasse da democracia, o livro sugere o exercício
democrático da oposição. Por quê?
Leonardo
Avritzer: Houve
uma mudança do modo de se fazer oposição de outubro de 2014 para cá, uma
“americanização” nos moldes do que o Partido Republicano faz com a gestão
Barack Obama, uma oposição permanente que não havia no Brasil nem com PT nem
com PSDB. Vários avanços da democracia brasileira foram obtidos por acordos de
lideranças no Congresso. Não é necessariamente negativo romper com esse padrão,
mas a questão é o limite para isso.
Livro:
Autor:
Leonardo Avritzer
Título:
Impasses da Democracia no Brasil
Editora:
Civilização Brasileira (Grupo Record)
Páginas:
200
Preço
de capa: R$ 29,90
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