PAPA FRANCISCO NO MÉXICO
APELO AOS BISPOS
Por uma corajosa conversão pastoral
“Sede bispos de olhar límpido, alma transparente, rosto
luminoso...
Não tenhais medo da transparência;
a Igreja não precisa da obscuridade para trabalhar”
![]() |
PAPA FRANCISCO Reúne-se com os bispos mexicanos na Catedral Metropolitana da Cidade do México Sábado, 13 de fevereiro de 2016 |
O Papa Francisco fez um dos
seus resumos mais diretos e contundentes daquilo que ele espera dos bispos
católicos,
dizendo ao episcopado mexicano o que eles deveriam (e o que não deveriam) estar
fazendo. O pontífice os advertiu contra palavras que são “figuras retóricas
vazias” e contra certa inação que “desperdiça” a história do país.
Em um discurso pontual de
durou 41 minutos dirigido aos bispos mexicanos no sábado, 13 de fevereiro, o
pontífice apresentou uma visão abrangente para o futuro do México. Imaginando um caminho
afastado da recente violência das drogas e da corrupção política, o papa
convocou os bispos a ajudar na construção de uma sociedade solidária e
integradora de culturas.
“Nós,
pastores, precisamos de vencer a
tentação da distância e do clericalismo, da frieza e da indiferença, do triunfalismo e da autorreferencialidade.
Guadalupe ensina-nos que Deus é familiar no seu rosto, que a proximidade e a
condescendência podem fazer mais do que a força”, instou o Papa Francisco no
pronunciamento feito aos bispos mexicanos.
Segundo
o Papa Francisco, “só uma Igreja que
saiba proteger o rosto dos homens que vêm bater à sua porta, será capaz de lhes
falar de Deus. Se não decifrarmos os seus sofrimentos, se não nos dermos
conta das suas necessidades, nada poderemos oferecer. A riqueza de que dispomos flui somente quando encontramos a pequenez
daqueles que mendigam, encontro esse que se realiza, precisamente, no nosso
coração de pastores”.
E o
Papa continua:
“Sede bispos de olhar límpido, alma
transparente, rosto luminoso; não tenhais medo da transparência; a Igreja não
precisa da obscuridade para trabalhar. Vigiai para que os vossos olhares
não se cubram com as penumbras da névoa do mundanismo; não vos deixeis corromper pelo vulgar materialismo nem pelas ilusões
sedutoras dos acordos feitos por baixo da mesa; não ponhais a vossa
confiança nos «carros e cavalos» dos faraós de hoje, porque a nossa força é a
«coluna de fogo» que irrompe separando em duas as águas do mar, sem fazer grande
rumor (Ex 14,24-25)”.
E
de improviso, disse:
“Se é preciso brigar, briguem; se devem
dizer as coisas, digam-las, mas como homens, na cara, e como homens de Deus; se
passarem do limite, peçam perdão, mas mantenham a unidade do corpo episcopal”.
Quanto ao narcotráfico, pediu que os bispos não subestimem “o desafio ético e
anticívico que o narcotráfico representa para a sociedade mexicana inteira,
incluindo a Igreja”.
Segundo
Francisco, “a amplitude do fenômeno (do
narcotráfico), a complexidade das suas causas, a imensidade da sua extensão
como metástase devoradora, a gravidade da violência que desagrega e suas
conexões transtornadas não consentem que nós, pastores da Igreja, nos
refugiemos em condenações genéricas, mas exigem uma coragem profética e um
projeto pastoral sério e qualificado para contribuir, gradualmente, a tecer
aquela delicada rede humana, sem a qual todos estaríamos, desde o início,
derrotados por tal ameaça insidiosa”.
O
Papa pediu aos bispos a capacidade “de imitar a liberdade de Deus, escolhendo o
que é humilde para manifestar a majestade do seu rosto e copiar esta paciência
divina ao tecer, com o fio sutil da humanidade que encontrais, aquele homem
novo que o vosso país espera. Não vos
deixeis levar pela vã pretensão de mudar o povo, como se o amor de Deus não
tivesse força suficiente para o mudar”.
E
continuou, falando sobre os indígenas:
“Peço-vos um olhar de singular delicadeza
para os povos indígenas e as suas fascinantes e não raro massacradas culturas.
O México tem necessidade das suas raízes ameríndias, para não ficar um enigma
sem solução. Os indígenas do México
esperam ainda que se lhes reconheça, efetivamente, a riqueza da sua
contribuição e a fecundidade da sua presença para herdar aquela identidade
que vos torna uma nação única, e não apenas uma entre outras”.
E
em longos parágrafos, lembrou dos migrantes:
“Que os vossos corações
sejam capazes de seguir os migrantes e alcançar além das fronteiras”.
E
admoestou:
“Não
será vã a solicitude das vossas dioceses ao derramar o pouco bálsamo que
possuem nos pés feridos de quantos atravessam os seus territórios e gastar em
favor deles o dinheiro duramente arrecadado; no fim, o divino Samaritano enriquecerá a quem não passou indiferente
por Ele quando estava caído na estrada (Lc 10,25-37)”.
E
ao final pediu que os bispos não caiam “na
estagnação de dar velhas respostas às novas questões”.
E
concluiu:
“Lembrai-vos
de que a Esposa sabe bem que o Pastor amado (Ct 1,7) Se encontra apenas onde as
pastagens são verdejantes e os ribeiros cristalinos. A Esposa desconfia dos
companheiros do Esposo que, às vezes por descuido ou incapacidade, conduzem o
rebanho para lugares áridos e cheios de pedregulhos. Ai de nós, pastores, companheiros do Supremo Pastor, se deixarmos vagar
a sua Esposa, porque, na tenda por nós construída, não se encontra o Esposo”.
Abaixo
encontra-se a íntegra do discurso de Papa Francisco aos bispos mexicanos:
ENCONTRO COM OS BISPOS DO MÉXICO
DISCURSO DO SANTO PADRE
Catedral da Cidade do México
Sábado, 13 de Fevereiro de 2016
Queridos
irmãos!
Estou feliz por vos poder encontrar no dia
seguinte ao da minha chegada a este país, que também eu, seguindo os passos dos
meus Predecessores, vim visitar.
Não podia deixar de vir! Poderia o Sucessor
de Pedro, chamado do profundo sul latino-americano, privar-se da possibilidade
de pousar o olhar na «Virgem Morenita»?
Agradeço-vos por me terdes recebido nesta
Catedral, a «casita» – a «casita», um pouco alongada, mas sempre «sagrada», que
pediu a Virgem de Guadalupe – e pelas amáveis palavras de boas-vindas que me
dirigistes.
Sabendo que aqui se encontra o coração
secreto de cada mexicano, entro com passo delicado, como se deve entrar na casa
e na alma deste povo, sentindo-me profundamente grato por me abrir a porta. Sei
que, fixando os olhos da Virgem, alcanço o olhar do vosso povo, que aprendeu a
mostrar-se n’Ela. Sei que nenhuma outra
voz pode falar tão profundamente do coração mexicano, como me pode falar a Virgem;
Ela guarda os seus mais nobres desejos, as esperanças mais recônditas; recolhe
as suas alegrias e lágrimas; Ela compreende os seus numerosos idiomas e
responde-lhes com ternura de Mãe, porque são os seus filhos.
![]() |
IMAGEM ORIGINAL DE NOSSA SENHORA DE GUADALUPE O quadro encontra-se na Basílica Nova de N. S. de Guadalupe Cidade do México - México |
Estou feliz por estar convosco aqui, nas
proximidades da «Colina de Tepeyac»,
como nos alvores da evangelização deste continente e, por favor, permiti-me
que, tudo quanto vos disser, possa fazê-lo partindo da Guadalupana. Como quereria que fosse Ela mesma a levar, até às
profundezas das vossas almas de pastores e – por vosso intermédio – a cada uma
das vossas Igrejas particulares presentes neste vasto México, tudo o que
intensamente brota do coração do Papa!
Como sucedeu com São Juan Diego e as sucessivas gerações dos filhos da Guadalupana, também o Papa, há tempos,
cultivava o desejo de olhar para Ela. Mais ainda, queria eu mesmo ser envolvido
pelo seu olhar materno. Refleti muito sobre o mistério deste olhar e peço-vos
que acolhais tudo o que brota do meu coração de Pastor neste momento.
Um olhar de ternura
Antes de mais nada, a «Virgem Morenita»
ensina-nos que a única força capaz de conquistar o coração dos homens é a
ternura de Deus. Aquilo que encanta e atrai, aquilo que abranda e vence,
aquilo que abre e liberta das cadeias não é a força dos meios nem a dureza da
lei, mas a fragilidade onipotente do amor divino, que é a força irresistível da
sua doçura e a promessa irreversível da sua misericórdia.
Um inquieto e ilustre escritor desta terra,
Octávio Paz, disse que, em Guadalupe, não se pede a abundância das
colheitas nem a fertilidade da terra, mas procura-se um regaço no qual os
homens, sempre órfãos e deserdados, buscam um abrigo, um lar.
Passados séculos do evento fundador deste
país e da evangelização do continente, porventura
se diluiu ou está esquecida a necessidade dum regaço por que anseia o coração
do povo que vos está confiado?
Conheço a longa e dolorosa história que
atravessastes, não sem o derramamento de muito sangue, não sem convulsões
impiedosas e dilacerantes, não sem violência e incompreensões. Com razão, o meu
venerado e santo Predecessor, que se sentia no México como em sua casa, quis
lembrar que a vossa história «é percorrida, como rios às vezes ocultos e sempre
caudalosos, por três realidades que ora se encontram, ora revelam as suas
diferenças complementares, sem jamais se confundirem totalmente: a antiga e
rica sensibilidade dos povos indígenas que amaram Juan de Zumárraga e Vasco de
Quiroga, aos quais muitos desses povos continuam a chamar pais; o cristianismo arraigado
na alma dos mexicanos; e a moderna racionalidade, de perfil europeu, que tanto
quis enaltecer a independência e a liberdade» (João Paulo II, Discurso na cerimônia de chegada ao México,
22 de Janeiro de 1999).
E nesta história, nunca se mostrou infecundo
o regaço materno que tem gerado continuamente o México, embora às vezes se
parecesse com aquela rede quase a romper-se que continha cento e cinquenta e
três peixes (Jo 21,11), mas as fraturas ameaçadoras sempre se recompuseram.
Por isso, convido-vos a começar de novo desta necessidade de um regaço que emana
da alma do vosso povo. O regaço da fé cristã é capaz de reconciliar o
passado marcado muitas vezes por solidão, isolamento e marginalização, com o
futuro continuamente relegado para um amanhã que escapa. Apenas naquele regaço
é possível, sem renunciar à própria identidade, «descobrir a verdade profunda
da nova humanidade, em que todos são chamados a ser filhos de Deus» (João Paulo
II, Homilia na canonização de São Juan
Diego, 31 de Julho de 2002).
Inclinai-vos,
irmãos, com delicadeza e respeito, sobre a alma profunda do vosso povo,
debruçai-vos com atenção e decifrai o seu rosto misterioso.
Porventura o presente, muitas vezes dissolvido em dispersões e festas, não é
também prenúncio de Deus que é o único e pleno presente? Porventura a familiaridade com a dor e a morte não são formas de
coragem e caminhos rumo à esperança? Porventura a percepção de que o mundo
esteja necessitado sempre e somente de redenção não será um antídoto à autossuficiência
arrogante de quantos julgam possível poder prescindir de Deus?
Naturalmente, para tudo isto é necessário um olhar capaz de refletir a ternura de
Deus. Por isso, sede bispos de olhar límpido, alma transparente, rosto
luminoso; não tenhais medo da transparência; a Igreja não precisa da
obscuridade para trabalhar. Vigiai para que os vossos olhares não se cubram
com as penumbras da névoa do mundanismo; não
vos deixeis corromper pelo vulgar materialismo nem pelas ilusões sedutoras dos
acordos feitos por baixo da mesa; não ponhais a vossa confiança nos «carros
e cavalos» dos faraós de hoje, porque a nossa força é a «coluna de fogo» que
irrompe separando em duas as águas do mar, sem fazer grande rumor (Ex 14,24-25).
CATEDRAL METROPOLITANA DA CIDADE DO MÉXICO Local do encontro entre Papa Francisco e os bispos mexicanos |
O mundo, onde o Senhor nos chama a exercer a
nossa missão, tornou-se muito complexo. À prepotente ideia do «cogito», que pelo menos não negava que
houvesse uma rocha acima da areia do ser, sobrepôs-se hoje uma concepção da
vida – no dizer de muitos – mais vacilante, vaga e caótica do que nunca, porque
carece de um substrato sólido. As fronteiras, tão intensamente exigidas e
sustentadas, tornaram-se permeáveis à novidade dum mundo em que a força de
alguns já não pode sobreviver sem a vulnerabilidade dos outros. A hibridação irreversível da tecnologia
aproxima o que está afastado, mas, infelizmente, torna distante o que deveria
estar perto.
E, precisamente num mundo assim, Deus
pede-vos para ter um olhar capaz de interceptar a pergunta que grita no coração
do vosso povo, o único que, no próprio calendário, possui uma «festa do grito».
Àquele grito, é preciso responder que Deus existe e, graças a Jesus, está
perto; responder que só Deus é a realidade sobre a qual se pode construir,
porque «Deus é a realidade fundante, não
um Deus apenas pensado ou hipotético, mas o Deus com um rosto humano»
(Bento XVI, Discurso inaugural da V
Conferência Geral do CELAM, 13 de Maio de 2007).
Nos
vossos olhares, o povo mexicano tem o direito de encontrar os indícios de quem
«viu o Senhor» (cf. Jo 20,25), de quem esteve com Deus.
Isto é o essencial. Assim, não percais
tempo e energias nas coisas secundárias, nas críticas e intrigas, em projetos
vãos de carreira, em planos vazios de hegemonia, nos clubes estéreis de
interesses ou compadrios. Não vos deixeis paralisar pelas murmurações e
maledicências. Introduzi os vossos sacerdotes nesta compreensão do ministério sagrado.
A nós, ministros de Deus, basta a graça de «beber o cálice do Senhor», o dom de
guardar a parte da sua herança que nos foi confiada, apesar de sermos
administradores inexperientes. Deixemos o Pai atribuir-nos o lugar que preparou
para nós (Mt 20,20-28). Poderemos nós ocupar-nos verdadeiramente doutras coisas
que não sejam as do Pai? Fora das
«coisas do Pai» (Lc 2,48-49), perdemos
a nossa identidade e, culpavelmente, tornamos vã a sua graça.
Se
o nosso olhar não dá testemunho de ter visto Jesus, então as palavras que
recordamos d’Ele não passam de figuras retóricas vazias.
Talvez expressem a nostalgia daqueles que não podem esquecer o Senhor, mas, em
todo o caso, são apenas o balbuciar de órfãos junto do sepulcro. No fim de
contas, são palavras incapazes de impedir que o mundo fique abandonado e
reduzido ao próprio poder desesperado.
Penso
na necessidade de oferecer um regaço materno aos jovens.
Que os vossos olhares sejam capazes de
se cruzar com o deles, de os amar e individuar o que eles buscam com aquela
força com que muitos como eles deixaram barcos e redes na praia do mar (Mc 1,17-18),
abandonaram bancas de extorsão para seguir o Senhor da verdadeira riqueza (Mt
9,9).
Preocupam-me
tantos jovens que, seduzidos pelo poder vazio do mundo, exaltam as quimeras e
revestem-se dos seus símbolos macabros para comercializar a morte em troca de
moedas que, no fim, a ferrugem corrói e os
ladrões arrombam os muros para as roubar (Mt 6,19). Peço-vos que não subestimeis o desafio ético e anticívico que o
narcotráfico representa para a juventude e para a sociedade mexicana inteira,
incluindo a Igreja.
A amplitude do fenômeno, a complexidade das
suas causas, a imensidade da sua extensão como metástase devoradora, a
gravidade da violência que desagrega e suas conexões transtornadas não
consentem que nós, pastores da Igreja, nos refugiemos em condenações genéricas – formas nominalistas –, mas exigem uma coragem profética e um projeto
pastoral sério e qualificado para contribuir, gradualmente, a tecer aquela delicada
rede humana, sem a qual todos estaríamos, desde o início, derrotados por tal
ameaça insidiosa. Só começando das
famílias; aproximando-nos e abraçando a periferia humana e existencial das
áreas desoladas das nossas cidades; envolvendo as comunidades paroquiais,
as escolas, as instituições comunitárias, a comunidade política, as estruturas
de segurança; só assim será possível
libertar-se totalmente das águas onde, infelizmente, se afogam tantas vidas,
seja a vida de quem morre como vítima, seja a de quem diante de Deus terá as
mãos sempre manchadas de sangue, mesmo que tenha os bolsos cheios de dinheiro
sórdido e a consciência anestesiada.
E, com o olhar fixo de novo na Virgem de
Guadalupe, dir-vos-ei uma segunda coisa:
Um olhar capaz de tecer
No manto da alma mexicana, Deus teceu, com
o fio dos traços mestiços do seu povo, o rosto da sua manifestação na
«Morenita». Deus não precisa de cores perecíveis para desenhar o seu rosto. Os desenhos de Deus não são condicionados
pelas cores e os fios, mas determinados pela irreversibilidade do seu amor que
quer tenazmente imprimir-se em nós.
Por isso, sede bispos capazes de imitar esta liberdade de Deus, escolhendo o que
é humilde para manifestar a majestade do seu rosto e copiar esta paciência
divina ao tecer, com o fio sutil da humanidade que encontrais, aquele homem
novo que o vosso país espera. Não vos deixeis levar pela vã pretensão de
mudar o povo, como se o amor de Deus não tivesse força suficiente para o mudar.
Redescobri, depois, a constância sábia e
humilde com que os Pais da fé desta Pátria souberam introduzir as gerações
sucessivas na semântica do mistério divino. Primeiro aprendendo e, em seguida,
ensinando a gramática necessária para dialogar com Deus, escondido nos séculos
da sua busca e tornado próximo na pessoa do seu Filho Jesus, que hoje muitos
reconhecem, na sua imagem ensanguentada e humilhada, como figura do próprio
destino. Imitai a sua condescendência e a sua capacidade de abaixar-Se; nunca compreenderemos suficientemente o fato
de Deus ter tecido, com os fios mestiços do nosso povo, o rosto com que Se deu
a conhecer! Nunca Lhe agradeceremos bastante por este abaixamento, por esta
«synkatábasis».
Peço-vos
um olhar de singular delicadeza para os povos indígenas, para eles e suas
fascinantes e não raro massacradas culturas. O México
tem necessidade das suas raízes ameríndias, para não ficar um enigma sem
solução. Os indígenas do México esperam
ainda que se lhes reconheça, efetivamente, a riqueza da sua contribuição e a
fecundidade da sua presença para herdar aquela identidade que vos torna uma
nação única, e não apenas uma entre outras.
Muitas vezes se falou do presunto destino
por cumprir desta nação, do «labirinto da solidão» em que estaria prisioneira,
da geografia como destino que a enreda. Segundo alguns, tudo isto seria
obstáculo para o desenho dum rosto unitário, duma identidade adulta, duma
posição singular no concerto das nações e duma missão compartilhada.
Segundo outros, a própria Igreja no México
estaria condenada a escolher entre sofrer a inferioridade para onde foi
relegada nalguns períodos da sua história, como quando a sua voz foi silenciada
e procurou-se suprimir a sua presença, ou aventurar-se nos fundamentalismos
para voltar a ter certezas provisórias – como aquele famoso «cogito» –, esquecendo-se que tem
inscrita no coração a sede de Absoluto e está chamada, em Cristo, a congregar
todos e não apenas uma parte (cf. Lumen
gentium 1,1).
Em vez disso, não vos canseis de lembrar ao
vosso povo como são fortes as raízes antigas que permitiram a viva síntese
cristã de comunhão humana, cultural e espiritual que aqui se forjou. Recordai
que as asas do vosso povo já planaram várias vezes por cima de não poucas
vicissitudes. Guardai a memória do longo
caminho percorrido até agora – sede deuteronômicos – e sabei suscitar a
esperança de novas metas, porque o amanhã será uma terra «rica de frutos»
embora nos coloque desafios não indiferentes (Nm 13,27-28).
Que os vossos olhares, fixos sempre e
apenas em Cristo, sejam capazes de contribuir para a unidade do vosso povo;
favorecer a reconciliação das suas diferenças e a integração das suas
diversidades; promover a solução dos seus problemas endógenos; lembrar a medida
alta que o México pode alcançar, se aprender a pertencer-se a si mesmo antes
que aos outros; ajudar a encontrar
soluções compartilhadas e sustentáveis para as suas misérias; motivar a
nação inteira para não se contentar com menos de quanto se espera do modo
mexicano de habitar o mundo.
E uma terceira reflexão:
Um olhar atento e solidário, não adormecido
Peço-vos
para não cairdes na estagnação de dar velhas respostas às novas questões.
O vosso passado é um poço de riquezas por escavar, que pode inspirar o presente
e iluminar o futuro. Ai de vós se vos deixais adormentar sobre os louros! É
preciso não desperdiçar a herança recebida, guardando-a com um trabalho
constante. Estais sentados aos ombros de gigantes: bispos, sacerdotes, religiosos,
religiosas e leigos fiéis «até ao fim», que deram a vida para a Igreja poder
cumprir a sua missão. Do alto de tal pódio, sois chamados a alongar o olhar
sobre o campo do Senhor para programar a sementeira e esperar a colheita.
Convido-vos
a trabalhar, a trabalhar sem medo na tarefa de evangelizar e aprofundar a fé,
por meio duma catequese mistagógica que saiba valorizar a religiosidade popular
da vossa gente. O nosso tempo exige atenção pastoral às
pessoas e grupos que esperam poder encontrar-se com Cristo vivo. Só uma corajosa conversão pastoral – e
sublinho conversão pastoral – das nossas comunidades pode procurar, gerar e
nutrir os atuais discípulos de Jesus (cf. Documento de Aparecida, 226; 368; 370).
Por isso nós, pastores, precisamos de vencer a tentação da
distância – deixo cada um de vós fazer o catálogo das distâncias que possam
existir nesta Conferência Episcopal; não as conheço, mas recomendo igualmente vencer a tentação da distância – e do
clericalismo, da frieza e da indiferença, do triunfalismo e da autorreferencialidade.
Guadalupe ensina-nos que Deus é familiar, um Deus próximo, no seu rosto, e que
a proximidade e a condescendência – aquele abaixar-se e aproximar-se – podem
mais do que a força, do que qualquer tipo de força.
Como ensina a bela tradição guadalupana, a
«Morenita» guarda os olhares daqueles que A contemplam, reflete o rosto
daqueles que A encontram. É necessário
aprender que há algo de irrepetível em cada pessoa que olha para nós à procura
de Deus. Compete-nos tornar-nos permeáveis a tais olhares: guardar em nós
cada um deles, conservá-los no coração, protegê-los.
Só
uma Igreja que saiba proteger o rosto dos homens que vêm bater à sua porta,
será capaz de lhes falar de Deus. Se não
decifrarmos os seus sofrimentos, se não nos dermos conta das suas necessidades,
nada poderemos oferecer. A riqueza de que dispomos flui somente quando
encontramos a pequenez daqueles que mendigam, encontro esse que se realiza,
precisamente, no nosso coração de pastores.
Peço-vos
que o primeiro rosto a guardar no vosso coração seja o dos vossos sacerdotes.
Não os deixeis expostos à solidão e ao
abandono, como presa do mundanismo que devora o coração. Estai atentos e aprendei a ler os seus olhares, para
vos alegrardes com eles quando se sentem
felizes contando tudo o que «fizeram e ensinaram» (Mc 6,30), e para não os
abandonardes quando se sentem um pouco
desanimados, só conseguindo chorar porque «negaram o Senhor» (Lc 22,61-62),
e também – por que não? – para os apoiardes, em comunhão com Cristo, quando
algum, já abatido, sair com Judas «na
noite» (Jo 13,30). Nestas situações, nunca
falte a vossa paternidade de bispos para com os vossos sacerdotes. Encorajai a comunhão entre eles; fazei com
que possam aperfeiçoar os seus dons; inseri-os nas grandes causas, porque o
coração do apóstolo não foi feito para coisas pequenas.
A necessidade de familiaridade habita no
coração de Deus. Assim Nossa Senhora de Guadalupe pede apenas uma «casita sagrada». Os nossos povos
latino-americanos apreciam os diminutivos na linguagem – uma casita sagrada – e
usam-nos de bom grado. Talvez necessitem de diminutivos porque, doutra forma,
sentir-se-iam perdidos. Adaptaram-se a sentir-se pequeninos e acostumaram-se a
viver na modéstia.
A Igreja, mesmo quando se reúne numa
majestosa catedral, não poderá deixar de considerar-se como uma «casita» onde
os seus filhos se sintam à vontade. Diante de Deus, pode-se permanecer apenas
se se é pequeno, se se é órfão, se se é mendicante. O protagonista da história
da salvação é o mendigo.
«Casita» familiar e, ao mesmo tempo,
«sagrada», porque a proximidade se enche da grandeza omnipotente. Somos
guardiões deste mistério. Às vezes
perdemos este sentido da medida divina humilde e cansamo-nos de oferecer ao
nosso povo a «casita», onde possa sentir-se em intimidade com Deus. Pode
acontecer também que, tendo descuidado um pouco o sentido da sua grandeza, se
perdeu em parte o temor reverencial para com tal amor. Onde habita Deus, o
homem não pode aceder sem ter sido admitido e sem antes «tirar as sandálias dos
pés» (Ex 3,5) confessando assim a própria insuficiência.
E
o fato de termos nos esquecido de «tirar as sandálias» para entrar não estará
porventura na raiz da perda do sentido da sacralidade da vida humana, da
pessoa, dos valores essenciais, da sabedoria acumulada ao longo dos séculos, do
respeito pela natureza? Sem recuperar, na consciência dos
homens e da sociedade, estas raízes profundas, até ao generoso empenho em prol dos legítimos direitos humanos faltará a
seiva vital que só pode vir dum manancial que a humanidade não poderá jamais
dar-se por si mesma.
E, sempre contemplando a Mãe, digo para
terminar:
![]() |
DETALHE DO ROSTO DA IMAGEM DE NOSSA SENHORA DE GUADALUPE |
Um olhar de conjunto e de unidade
Só olhando a «Morenita» é que o México tem
uma visão completa de si mesmo. Por isso convido-vos
a compreender que a missão que a Igreja vos confia hoje, e sempre vos confiou,
exige este olhar que abrace a totalidade. E isto não se pode realizar
isoladamente, mas só em comunhão.
A
cintura com que apresenta a Guadalupana anuncia a sua fecundidade.
É a Virgem que traz, no ventre, o Filho esperado pelos homens. É a Mãe que já tem em gestação a humanidade
do novo mundo que nasce. É a Esposa que prefigura a maternidade fecunda da
Igreja de Cristo. Vós tendes a missão de
cingir a nação mexicana inteira com a fecundidade de Deus. Nenhum pedaço
desta cintura pode ser desprezado.
O episcopado mexicano realizou passos
notáveis nestes anos conciliares; aumentaram os seus membros; promoveu-se uma
contínua e qualificada formação permanente; não faltou o ambiente fraterno;
cresceu o espírito de colegialidade; as intervenções pastorais influíram sobre
as vossas Igrejas e sobre a consciência nacional; as atividades pastorais
compartilhadas revelaram-se frutuosas em áreas essenciais da missão eclesial
como a família, as vocações e a presença social.
Ao mesmo tempo que nos alegramos com o
caminho destes anos, peço-vos que não vos deixeis desanimar com as dificuldades
nem poupeis qualquer esforço possível para promover,
entre vós e nas vossas dioceses, o zelo missionário, especialmente a favor das
partes mais necessitadas do único corpo da Igreja mexicana. Redescobrir que
a Igreja é missão constitui um elemento fundamental para o seu futuro, porque só o entusiasmo, a admiração convicta dos
evangelizadores tem a força de arrastar. Por isso, peço-vos que cuideis de maneira especial da formação e
preparação dos leigos, superando toda a forma de clericalismo e envolvendo-os ativamente na missão da
Igreja, principalmente tornando presente, com o testemunho da própria vida,
o Evangelho de Cristo no mundo.
Muito ajudará a este povo mexicano um
testemunho unificante da síntese cristã e uma visão compartilhada da identidade
e destino dele. Neste sentido, será muito importante que a Pontifícia Universidade do México esteja cada vez mais presente no
coração dos esforços eclesiais para garantir aquele olhar de universalidade sem
o qual a razão, resignada com modelos parciais, renuncia à sua mais alta
aspiração de buscar a verdade.
A missão é vasta, e levá-la adiante requer
uma multiplicidade de caminhos. Exorto-vos,
com a mais viva insistência, a conservar a comunhão e a unidade entre vós. Isto
é essencial, irmãos. (Não o tinha escrito aqui no texto; veio-me agora!) Se temos de pelejar, que se peleje; se
temos de dizer as coisas, digamo-las. Mas, como homens: face a face; e como
homens de Deus que, a seguir, vão rezar juntos, discernir juntos. E, se por
acaso ultrapassamos as medidas, peça-se perdão. Mas mantende a unidade do corpo
episcopal. Comunhão e unidade entre vós. A comunhão é a forma vital da Igreja,
e a unidade dos seus pastores dá prova da sua veracidade. O México e a sua
vasta e multiforme Igreja têm necessidade de bispos servidores e guardiães da
unidade construída sobre a Palavra do Senhor, alimentada com o seu Corpo e
guiada pelo seu Espírito que é o alento vital da Igreja.
Não
há necessidade de «príncipes», mas duma comunidade de testemunhas do Senhor.
Cristo é a sua única luz; é a fonte da água viva; da sua respiração, sai o
Espírito que estende as velas da barca eclesial. Em Cristo glorificado, que os
membros deste povo gostam de honrar como Rei, acendei juntos a luz, enchei-vos
da sua presença que não Se extingue; respirai a plenos pulmões o ar bom do seu
Espírito. Compete-vos semear Cristo no
território, manter acesa a sua luz humilde que ilumina sem ofuscar, garantir
que nas suas águas se sacie a sede do vosso povo; levantar as velas de modo que
o sopro do Espírito as impulsione e não encalhe a barca da Igreja no México.
Lembrai-vos de que a Esposa – a Esposa de
cada um de vós, a Mãe Igreja – sabe bem que o Pastor amado (Ct 1,7) Se encontra
apenas onde as pastagens são verdejantes e os ribeiros cristalinos. A Esposa desconfia dos companheiros do
Esposo que, às vezes por descuido ou incapacidade, conduzem o rebanho para
lugares áridos e cheios de pedregulhos. Ai de nós, pastores, companheiros
do Supremo Pastor, se deixarmos vagar a sua Esposa, porque, na tenda por nós construída,
não se encontra o Esposo.
Permiti-me uma última palavra para
expressar o apreço do Papa por tudo o que tendes feito para enfrentar o desafio
deste nosso tempo que são as migrações.
Hoje, são milhões os filhos da Igreja
que vivem na diáspora ou em trânsito peregrinando para o norte à procura de
novas oportunidades. Muitos deles deixam para trás as suas raízes para se
aventurar, mesmo na clandestinidade que envolve todo o tipo de riscos, em busca
da «luz verde» que olham como a sua esperança. Muitas famílias se dividem; e nem sempre a integração na alegada «terra
prometida» é tão fácil como se pensa.
Irmãos,
que os vossos corações sejam capazes de os seguir e alcançar além das
fronteiras. Reforçai a comunhão com os vossos irmãos
do episcopado estadunidense, para que a presença materna da Igreja mantenha
viva as raízes da sua fé – a fé deste povo –, as razões da sua esperança e a
força da sua caridade. Para que não
aconteça aos migrantes que, pendurando as suas cítaras, emudeçam as suas
alegrias, esquecendo-se de Jerusalém e transformando-se em «exilados de si
mesmos» (Salmo 136). Juntos, testemunhai que a Igreja é guardiã duma visão
unitária do homem e não pode aceitar que seja reduzido a um mero «recurso
humano».
Não
será vã a solicitude das vossas dioceses ao derramar o pouco bálsamo que
possuem nos pés feridos de quantos atravessam os seus territórios e gastar em
favor deles o dinheiro duramente arrecadado; no fim,
o divino Samaritano enriquecerá a quem não passou indiferente por Ele quando
estava caído na estrada (Lc 10,25-37).
Queridos irmãos, o Papa tem a certeza de
que o México e a sua Igreja chegarão a tempo ao encontro consigo mesmo, com a
história, com Deus. Talvez alguma pedra no caminho atrase a marcha, e o cansaço
da viagem exigirá alguma pausa, mas nunca será suficiente para vos fazer perder
a meta. Na verdade, poderá chegar tarde
quem tem uma Mãe à sua espera? Quem pode ouvir continuamente ressoar no
próprio coração: «Não estou aqui Eu, que sou tua Mãe?» Obrigado!
Fontes: Instituo Humanitas
Unisinos – Notícias – Segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016 – Internet: clique aqui;
e A SANTA SÉ – Viagem Apostólica do Papa
Francisco ao México (12-18 de Fevereiro de 2016) – Sábado, 13 de fevereiro
de 2016 – Internet: clique aqui.
AO POVO DE DEUS
Papa critica elite mexicana e ataca
desigualdades
Agence France Press, EFE, REUTERS e Associated Press
Em missa, Francisco pede que mexicanos transformem seu
país
em um lugar onde não haja necessidade de emigrar para
sonhar
![]() |
PAPA FRANCISCO Celebra a Santa Missa em Ecatepec, subúrbio da Cidade do México Domingo, 14 de fevereiro de 2016 |
O
papa Francisco pediu neste domingo, 14 de fevereiro, aos mexicanos que façam de
seu país uma terra de oportunidades onde “não haja necessidade de emigrar para
sonhar” e onde não haja o risco de cair nas mãos dos “traficantes da morte”. Em
missa realizada em Ecatepec, nos
subúrbios da Cidade do México, Francisco
atacou a elite do país, denunciando “uma sociedade de poucos e para poucos”.
A tentação da riqueza, segundo Francisco, “é ganhar o pão com o suor alheio ou até
com a vida alheia”. “Essa riqueza tem gosto de dor, amargura e sofrimento.
Este é o pão que uma família ou sociedade corrupta dá a seus próprios filhos”,
disse Francisco.
Na homilia para cerca de 300 mil fiéis em
Ecatepec, violento subúrbio da capital, Francisco pediu ainda aos fiéis que
façam “da bendita terra mexicana uma terra de oportunidade, “onde não haja necessidade de ser explorado
para trabalhar”.
Segundo
Francisco, é preciso transformar o
México em uma “terra que não tenha de chorar pelos homens, mulheres, jovens e
crianças que terminam destruídos nas mãos dos traficantes da morte”.
A
mensagem do papa foi proferida em Ecatepec,
local de passagem de emigrantes
centro-americanos que tentam chegar aos Estados Unidos. A cidade, de 1,6
milhão de habitantes, fica no Estado do México, região conhecida pelas alarmantes cifras de desaparecimento de mulheres
e o resgate de muitos corpos desmembrados. Entre janeiro de 2014 e setembro
de 2015, foram registrados ao menos 600 assassinatos de mulheres, segundo a ONG
Observatorio Ciudadano Nacional del
Feminicidio.
Pouco
antes, o papa advertiu sobre as tentações do demônio de buscar dinheiro, fama e
poder. “Irmãs e irmãos, ponham em sua cabeça, com o demônio não se dialoga, não
se pode dialogar, porque ele vai nos vencer sempre. Somente a força da palavra
de Deus poderá derrotá-lo”, afirmou o papa.
Segundo
Francisco, o comportamento do homem
criou uma “sociedade de poucos para poucos” no México, criticando a
desigualdade social no país e a “vaidade e orgulho” daqueles que se consideram
acima dos demais.
Pressão
Antes
de chegar ao México, o pontífice disse que “falaria claro” sobre a corrupção e
o alto índice de criminalidade que afeta vários pontos do país, com mais de 100 mil mortos ou desaparecidos em
uma década.
No
sábado, Francisco pressionou líderes políticos e bispos locais a combater a
violência derivada do narcotráfico. Ele
aproveitou sua visita ao Palácio Nacional e à catedral da capital para exigir
dos líderes políticos e religiosos que façam mais esforços para devolver a paz
aos mexicanos.
Ao
lado do presidente mexicano, Enrique
Peña Nieto, o papa disse a legisladores e funcionários do governo que eles têm o dever de dar aos mexicanos uma
“justiça real” e uma “segurança mais efetiva”. Mais tarde, na catedral,
Francisco instou os bispos e arcebispos a enfrentar o narcotráfico com “coragem
profética”.
Abaixo
encontra-se a íntegra da homilia do papa em Ecatepec:
SANTA MISSA NA ÁREA DO CENTRO DE ESTUDOS DE ECATEPEC
HOMILIA DO SANTO PADRE
Domingo, 14 de Fevereiro de 2016
Na quarta-feira passada, começamos o tempo
litúrgico da Quaresma; nele, a Igreja convida-nos a preparar-nos para a
celebração da grande festa da Páscoa. É um tempo especial para lembrar o dom do
nosso Batismo, quando fomos feitos filhos de Deus. A Igreja convida-nos a
reavivar o dom recebido para não o deixar cair no esquecimento como algo
passado ou guardado numa «caixa de recordações». Este tempo de Quaresma é uma
boa ocasião para recuperar a alegria e a esperança que nos vem do fato de nos
sentirmos filhos amados do Pai. Este Pai
que nos espera para livrar-nos das vestes do cansaço, da apatia, da
desconfiança e revestir-nos com a dignidade que só um verdadeiro pai e uma
verdadeira mãe sabem dar aos seus filhos, as vestes que nascem da ternura e do
amor.
O nosso Pai é pai duma grande família: é
Pai nosso. Sabe ter um amor, mas não gerar e criar «filhos únicos». É um Deus que Se entende de família, de
fraternidade, de pão partido e partilhado. É o Deus do «Pai Nosso», não do
«pai meu e padrasto vosso».
Em cada um de nós, está inscrito, vive
aquele sonho de Deus que voltamos a celebrar em cada Páscoa, em cada
Eucaristia: somos filhos de Deus. Um
sonho vivido por muitos irmãos nossos no decurso da história. Um sonho
testemunhado pelo sangue de tantos mártires de ontem e de hoje.
Quaresma: tempo de conversão, porque
experimentamos na vida de todos os dias como tal sonho se encontra
continuamente ameaçado pelo pai da mentira – ouvimos no Evangelho o que fazia
com Jesus –, por aquele que quer separar-nos, gerando uma família dividida e
conflituosa. Uma sociedade dividida e
conflituosa; uma sociedade de poucos e para poucos. Quantas vezes
experimentamos na nossa própria carne ou na carne da nossa família, na dos
nossos amigos ou vizinhos a amargura que nasce de não sentir reconhecida esta
dignidade que todos trazemos dentro. Quantas
vezes tivemos de chorar e arrepender-nos, porque nos demos conta de não ter
reconhecido tal dignidade nos outros. Quantas
vezes – digo-o com tristeza – permanecemos
cegos e insensíveis perante a falta de reconhecimento da dignidade própria e
alheia.
Quaresma: tempo para regular os sentidos, abrir os olhos para tantas injustiças que
atentam diretamente contra o sonho e o projeto de Deus. Tempo para desmascarar aquelas três grandes formas de
tentação que rompem, fazem em pedaços a imagem que Deus quis plasmar.
As três tentações de Cristo... Três
tentações do cristão que procuram arruinar a verdade a que fomos chamados. Três tentações que visam degradar e
degradar-nos.
Primeira, a riqueza,
apropriando-nos de bens que foram dados para todos, usando-os só para mim ou
para «os meus». É conseguir o pão com o
suor alheio ou até com a vida alheia. Tal riqueza é pão com sabor de tristeza,
amargura e sofrimento. Numa família ou numa sociedade corrupta, este é o
pão que se dá a comer aos próprios filhos.
Segunda tentação, a vaidade:
a busca de prestígio baseada na
desqualificação contínua e constante daqueles que «não são ninguém». A
busca exacerbada daqueles cinco minutos
de fama que não perdoa a «fama» dos outros.
E, «alegrando-se com a desgraça alheia»,
abre-se caminho à terceira tentação, a pior, a do orgulho,
ou seja, colocar-se num plano de
superioridade de qualquer tipo, sentindo que não se partilha «a vida comum
dos mortais» e rezando todos os dias: «Dou-Vos graças, Senhor, porque não me
fizestes como eles».
![]() |
POVO ACOLHE COM MUITO ENTUSIASMO PAPA FRANCISCO EM SUA CHEGADA A ECATEPEC |
Três tentações de Cristo... Três tentações
que o cristão enfrenta diariamente. Três
tentações que procuram degradar, destruir e tirar a alegria e o frescor do
Evangelho; que nos fecham num círculo de destruição e pecado.
Por isso vale a pena perguntarmo-nos: Até
que ponto estamos conscientes destas tentações na nossa vida, em nós mesmos? Até que ponto nos acostumamos a um estilo
de vida que considera a riqueza, a vaidade e o orgulho como a fonte e a força de vida? Até que ponto estamos
convencidos de que cuidar do outro, preocupar-nos e ocupar-nos com o pão, o bom
nome e a dignidade dos outros seja fonte de alegria e de esperança?
Escolhemos
Jesus e não o diabo. Se vos recordais do que escutamos
no Evangelho, Jesus não responde ao demônio
com qualquer palavra própria, mas responde-lhe com as palavras de Deus, com as
palavras da Sagrada Escritura. Com efeito, irmãs e irmãos, - fixemo-lo bem
na cabeça – com o demônio não se
dialoga, não se pode dialogar, porque sempre nos ganhará. Só a força da
Palavra de Deus o pode derrotar.
Nós
escolhemos, não o diabo, mas Jesus; queremos seguir os seus passos, mas sabemos
que não é fácil. Sabemos o que significa ser
seduzidos pelo dinheiro, a fama e o poder. Por isso, a Igreja oferece-nos este
tempo da Quaresma, convida-nos à conversão com uma única certeza: Ele está à
nossa espera e quer curar o nosso coração de tudo aquilo que o degrada,
degradando-se ou degradando a outros. É
o Deus que tem um nome: misericórdia. O seu nome é a nossa riqueza, o seu nome é a nossa fama,
o seu nome é o nosso poder. E é
no seu nome que repomos a nossa confiança, como diz o Salmo: «Vós sois o meu
Deus, em Vós confio». Tende a coragem de repetir isto juntos? Três vezes: «Vós sois o meu Deus, em Vós confio».
«Vós sois o meu Deus, em Vós confio». «Vós sois o meu Deus, em Vós confio».
Que, nesta Eucaristia, o Espírito Santo
renove em nós a certeza de que o seu nome é misericórdia e nos faça
experimentar, em cada dia, que «o
Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus»,
sabendo que com Ele e n’Ele sempre nasce e «renasce (…) a alegria» (Exortação
apostólica Evangelii gaudium, 1).
Comentários
Postar um comentário