“Não somos e nem queremos ser funcionários do divino”
Iván de Vargas
Em sua homilia aos padres, religiosos e seminaristas
mexicanos,
o Santo Padre pediu para não se cair na tentação da
resignação
Nesta
terça-feira, penúltimo dia de sua visita ao México, o Papa Francisco celebrou a
santa missa no estádio Venustiano
Carranza em MORELIA, com a participação de cerca de 20.000 sacerdotes, religiosos, religiosas, e seminaristas. O Papa
foi recebido pelo cardeal Alberto Suárez Inda, em meio a uma atmosfera de festa
com gritos como “Nós te amamos, Papa, te
amamos!” ou “Papa, amigo, eres
bem-vindo!”
Em
sua homilia, o Santo Padre disse que “a
nossa vida fala da oração e oração fala da nossa vida”. “Ai de nós se não somos testemunhas do que
vimos e ouvimos, ai de nós. Não
somos e nem queremos ser funcionários do divino, não somos e nem queremos ser
nunca empregados de Deus, porque somos convidados a participar da sua vida,
somos convidados a entrarmos no seu coração, um coração que reza e vive
dizendo: “Pai nosso”. Qual é a missão, senão dizer com nossa vida: “Pai
nosso?”, acrescentou.
“Qual tentação pode vir-nos
de ambientes muitas vezes dominados pela violência, a corrupção, o tráfico de
drogas, o desprezo pela dignidade da pessoa, a indiferença perante o sofrimento
e a precariedade?”, perguntou aos presentes.
“Confrontados
com esta realidade podemos ser vencidos
por uma das armas preferidas pelo demônio, a RESIGNAÇÃO. Uma resignação que
nos paralisa e nos impede de não só de caminhar, mas também abrir caminho; uma resignação que não só nos assusta, mas
que nos fecha nas nossas “sacristias” e aparentes seguranças; uma resignação
que não só nos impede de anunciar, mas que nos impede de louvar. Uma resignação que não só nos impede de
projetar, mas que nos impede de arriscar e transformar”, destacou o
Pontífice.
“Faz-nos
bem apelar nos momentos de tentação à nossa memória. Quanto nos ajuda olhar a ‘madeira’
de que somos feitos. Nem tudo começou conosco, nem tudo terminará conosco, por
isso, quanto bem nos faz recuperar a história que nos trouxe até aqui”,
recordou.
“Pai, papai, abba, não nos
deixes cair na tentação da resignação”, concluiu.
Leia,
na íntegra, a homilia de Papa Francisco ao clero mexicano:
SANTA MISSA COM SACERDOTES, RELIGIOSAS,
RELIGIOSOS,
CONSAGRADOS E SEMINARISTAS
HOMILIA DO SANTO PADRE
Estádio
“Venustiano Carranza”, Morelia
Terça-feira,
16 de Fevereiro de 2016
Há um dito entre
nós que recita assim: «Diz-me como rezas
e dir-te-ei como vives, diz-me como vives e dir-te-ei como rezas»; porque, mostrando-me
como rezas, aprenderei a descobrir o Deus vivo e, mostrando-me como vives,
aprenderei a acreditar no Deus a quem rezas, pois a nossa vida fala da oração e
a oração fala da nossa vida. Aprende-se a rezar, como se aprende a caminhar, a
falar, a escutar. A escola da oração é a
escola da vida, e a escola da vida é o lugar onde fazemos escola de oração.
E Paulo, quando
ensinava ou exortava o seu discípulo predileto Timóteo a viver a fé, dizia-lhe:
«Lembra-te da tua mãe e da tua avó».
E, quando os seminaristas entravam no Seminário, muitas vezes perguntavam-me:
«Padre, eu gostaria de fazer uma oração mais profunda, mais mental». «Olha, continua a rezar como te ensinaram
na tua casa e depois, pouco a pouco, a tua oração irá crescendo, como cresceu a
tua vida». Aprende-se a rezar, como tudo na vida.
Jesus quis
introduzir os seus no mistério da Vida: no mistério da vida d’Ele. Mostrou-lhes – comendo, dormindo, curando,
pregando, rezando – o que significa ser Filho de Deus. Convidou-os a
partilhar a sua vida, a sua intimidade e, enquanto estavam com Ele, fez-lhes
tocar na sua carne a vida do Pai. No seu olhar, no seu caminhar, fê-los
experimentar a força, a novidade de dizer: «Pai Nosso». Em Jesus, esta expressão «Pai Nosso» não tem o sabor velho da rotina ou
da repetição; pelo contrário, tem o sabor da vida, da experiência, da
autenticidade. Ele soube viver rezando e rezar vivendo, ao dizer: Pai
Nosso.
E convidou-nos a
fazer o mesmo. A nossa primeira chamada é para fazer experiência deste amor
misericordioso do Pai na nossa vida, na nossa história. A primeira chamada que
Jesus nos fez foi para nos introduzir nesta nova dinâmica do amor, da filiação.
A nossa primeira chamada é para aprender
a dizer «Pai Nosso», como insiste Paulo: Abbá.
A propósito da
sua chamada, diz São Paulo: «Ai de mim,
se eu não evangelizar!». Ai de mim, porque
evangelizar «não é para mim – explica – motivo de glória, é antes uma obrigação
que me foi imposta» (1Cor 9,16). Pois bem! Jesus chamou-nos para participar na sua vida, na vida divina: Ai de
nós – consagrados, consagradas, seminaristas, sacerdotes, bispos – ai de nós se
não a compartilharmos! Ai de nós, se não
formos testemunhas do que vimos e ouvimos! Ai de nós! Não queremos ser
funcionários do divino; não somos, nem o queremos ser jamais, empregados da
empresa de Deus, porque fomos convidados a participar na sua vida, fomos
convidados a encerrar-nos no seu coração, um coração que reza e vive dizendo:
Pai Nosso. Em que consiste a missão senão em dizer com a nossa vida – desde o
princípio até ao fim, como o nosso irmão bispo que faleceu esta noite –, em que consiste a missão senão em dizer
com a nossa vida: Pai Nosso?
É a este Pai
Nosso que nos dirigimos todos os dias. E que Lhe dizemos numa das súplicas? Não
nos deixeis cair em tentação. Fê-lo o próprio Jesus. Rezou para que nós, seus
discípulos – de ontem e de hoje –, não caíssemos em tentação. E uma das
tentações que nos assalta, uma das tentações que surge não só de contemplar a
realidade, mas também de viver nela… sabeis qual pode ser? Qual é a tentação que nos pode vir de ambientes dominados muitas vezes
pela violência, a corrupção, o tráfico de drogas, o desprezo pela dignidade da
pessoa, a indiferença perante o sofrimento e a precariedade? À vista de
tudo isto, à vista desta realidade que parece ter-se tornado um sistema
irremovível, qual é a tentação que repetidamente podemos ter nós, os chamados à
vida consagrada, ao presbiterado, ao episcopado?
Acho que a poderemos resumir numa só palavra:
resignação. À vista desta
realidade, pode vencer-nos uma das armas preferidas do demônio: a resignação. «E que podes tu fazer? A vida é assim». Uma resignação que nos
paralisa e impede não só de caminhar, mas também de abrir caminho; uma resignação que não só nos atemoriza,
mas também nos entrincheira nas nossas «sacristias» e seguranças aparentes;
uma resignação que não só nos impede de anunciar, mas impede-nos também de
louvar, tira-nos a alegria, o prazer do louvor. Uma resignação que nos impede não só de projetar, mas também nos trava
na hora de arriscar e transformar.
Por isso, Pai
Nosso, não nos deixeis cair em tentação.
Nos momentos de tentação, faz-nos muito bem apelar
para a nossa memória.
Ajuda-nos muito considerar a «madeira» de que fomos feitos. Não começou tudo conosco,
e tampouco acabará tudo conosco; por isso faz-nos bem recuperar a recordação da
história que nos trouxe até aqui.
E, revisitando a
memória, não podemos esquecer-nos de alguém que amou tanto este lugar, que se
fez filho desta terra. Alguém que pôde dizer de si mesmo: «Tiraram-me da
magistratura para me porem na plenitude do sacerdócio por mérito dos meus
pecados. A mim, inútil e completamente inábil para a execução de tão grande
empreendimento; a mim, que não sabia remar, elegeram-me primeiro bispo de Michoacán»
(Vasco Vásquez de Quiroga, Carta
pastoral, 1554).
Permiti-me aqui
um parêntesis! Agradeço ao Senhor Cardeal Arcebispo por ter querido que se
celebrasse esta Eucaristia com o báculo deste homem e o seu cálice. Convosco
quero lembrar este evangelizador, conhecido também como Tato Vasco, como «o espanhol que se fez índio».
A realidade
vivida pelos índios Purhépechas –
que ele descreve como «vendidos, vexados e errando pelos mercados a recolher os
restos que se deitavam fora» –, longe de o fazer cair na tentação da acédia [inércia]
e da resignação, moveu a sua fé, moveu a sua vida, moveu a sua compaixão e
estimulou-o a realizar várias iniciativas que permitissem «respirar» no meio
desta realidade tão paralisante e injusta. A
amargura do sofrimento dos seus irmãos fez-se oração e a oração fez-se resposta
concreta. E isto valeu-lhe, entre os índios, o nome de «Tata Vasco» que, na
língua purhépechas, significa «papai».
Pai, Papai,
Tata, Abbá…. Esta é a oração, esta é a palavra que Jesus nos convidou a dizer.
Pai, Papai,
Abbá, não nos deixeis cair na tentação
da resignação, não nos deixeis cair na tentação da acédia [inércia,
preguiça], não nos deixeis cair na
tentação da perda da memória, não nos deixeis cair na tentação de nos
esquecermos dos nossos maiores que nos ensinaram, com a sua vida, a dizer: Pai
Nosso.
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