“Não somos e nem queremos ser funcionários do divino”

Iván de Vargas

Em sua homilia aos padres, religiosos e seminaristas mexicanos,
o Santo Padre pediu para não se cair na tentação da resignação
PAPA FRANCISCO
Participa da procissão de entrada da missa celebrada para os sacerdotes, religiosos e seminaristas mexicanos.
Estádio “Venustiano Carranza”, Morelia (México)
Terça-feira, 16 de Fevereiro de 2016

Nesta terça-feira, penúltimo dia de sua visita ao México, o Papa Francisco celebrou a santa missa no estádio Venustiano Carranza em MORELIA, com a participação de cerca de 20.000 sacerdotes, religiosos, religiosas, e seminaristas. O Papa foi recebido pelo cardeal Alberto Suárez Inda, em meio a uma atmosfera de festa com gritos como “Nós te amamos, Papa, te amamos!” ou “Papa, amigo, eres bem-vindo!”

Em sua homilia, o Santo Padre disse que “a nossa vida fala da oração e oração fala da nossa vida”. “Ai de nós se não somos testemunhas do que vimos e ouvimos, ai de nós. Não somos e nem queremos ser funcionários do divino, não somos e nem queremos ser nunca empregados de Deus, porque somos convidados a participar da sua vida, somos convidados a entrarmos no seu coração, um coração que reza e vive dizendo: “Pai nosso”. Qual é a missão, senão dizer com nossa vida: “Pai nosso?”, acrescentou.

“Qual tentação pode vir-nos de ambientes muitas vezes dominados pela violência, a corrupção, o tráfico de drogas, o desprezo pela dignidade da pessoa, a indiferença perante o sofrimento e a precariedade?”, perguntou aos presentes.

“Confrontados com esta realidade podemos ser vencidos por uma das armas preferidas pelo demônio, a RESIGNAÇÃO. Uma resignação que nos paralisa e nos impede de não só de caminhar, mas também abrir caminho; uma resignação que não só nos assusta, mas que nos fecha nas nossas “sacristias” e aparentes seguranças; uma resignação que não só nos impede de anunciar, mas que nos impede de louvar. Uma resignação que não só nos impede de projetar, mas que nos impede de arriscar e transformar”, destacou o Pontífice.

“Faz-nos bem apelar nos momentos de tentação à nossa memória. Quanto nos ajuda olhar a ‘madeira’ de que somos feitos. Nem tudo começou conosco, nem tudo terminará conosco, por isso, quanto bem nos faz recuperar a história que nos trouxe até aqui”, recordou.

“Pai, papai, abba, não nos deixes cair na tentação da resignação”, concluiu.

Leia, na íntegra, a homilia de Papa Francisco ao clero mexicano: 
PAPA FRANCISCO
Profere a sua homilia ao clero mexicano

SANTA MISSA COM SACERDOTES, RELIGIOSAS, RELIGIOSOS,
CONSAGRADOS E SEMINARISTAS
HOMILIA DO SANTO PADRE
Estádio “Venustiano Carranza”, Morelia
Terça-feira, 16 de Fevereiro de 2016

Há um dito entre nós que recita assim: «Diz-me como rezas e dir-te-ei como vives, diz-me como vives e dir-te-ei como rezas»; porque, mostrando-me como rezas, aprenderei a descobrir o Deus vivo e, mostrando-me como vives, aprenderei a acreditar no Deus a quem rezas, pois a nossa vida fala da oração e a oração fala da nossa vida. Aprende-se a rezar, como se aprende a caminhar, a falar, a escutar. A escola da oração é a escola da vida, e a escola da vida é o lugar onde fazemos escola de oração.

E Paulo, quando ensinava ou exortava o seu discípulo predileto Timóteo a viver a fé, dizia-lhe: «Lembra-te da tua mãe e da tua avó». E, quando os seminaristas entravam no Seminário, muitas vezes perguntavam-me: «Padre, eu gostaria de fazer uma oração mais profunda, mais mental». «Olha, continua a rezar como te ensinaram na tua casa e depois, pouco a pouco, a tua oração irá crescendo, como cresceu a tua vida». Aprende-se a rezar, como tudo na vida.

Jesus quis introduzir os seus no mistério da Vida: no mistério da vida d’Ele. Mostrou-lhes – comendo, dormindo, curando, pregando, rezando – o que significa ser Filho de Deus. Convidou-os a partilhar a sua vida, a sua intimidade e, enquanto estavam com Ele, fez-lhes tocar na sua carne a vida do Pai. No seu olhar, no seu caminhar, fê-los experimentar a força, a novidade de dizer: «Pai Nosso». Em Jesus, esta expressão «Pai Nosso» não tem o sabor velho da rotina ou da repetição; pelo contrário, tem o sabor da vida, da experiência, da autenticidade. Ele soube viver rezando e rezar vivendo, ao dizer: Pai Nosso.

E convidou-nos a fazer o mesmo. A nossa primeira chamada é para fazer experiência deste amor misericordioso do Pai na nossa vida, na nossa história. A primeira chamada que Jesus nos fez foi para nos introduzir nesta nova dinâmica do amor, da filiação. A nossa primeira chamada é para aprender a dizer «Pai Nosso», como insiste Paulo: Abbá.

A propósito da sua chamada, diz São Paulo: «Ai de mim, se eu não evangelizar!». Ai de mim, porque evangelizar «não é para mim – explica – motivo de glória, é antes uma obrigação que me foi imposta» (1Cor 9,16). Pois bem! Jesus chamou-nos para participar na sua vida, na vida divina: Ai de nós – consagrados, consagradas, seminaristas, sacerdotes, bispos – ai de nós se não a compartilharmos! Ai de nós, se não formos testemunhas do que vimos e ouvimos! Ai de nós! Não queremos ser funcionários do divino; não somos, nem o queremos ser jamais, empregados da empresa de Deus, porque fomos convidados a participar na sua vida, fomos convidados a encerrar-nos no seu coração, um coração que reza e vive dizendo: Pai Nosso. Em que consiste a missão senão em dizer com a nossa vida – desde o princípio até ao fim, como o nosso irmão bispo que faleceu esta noite –, em que consiste a missão senão em dizer com a nossa vida: Pai Nosso?

É a este Pai Nosso que nos dirigimos todos os dias. E que Lhe dizemos numa das súplicas? Não nos deixeis cair em tentação. Fê-lo o próprio Jesus. Rezou para que nós, seus discípulos – de ontem e de hoje –, não caíssemos em tentação. E uma das tentações que nos assalta, uma das tentações que surge não só de contemplar a realidade, mas também de viver nela… sabeis qual pode ser? Qual é a tentação que nos pode vir de ambientes dominados muitas vezes pela violência, a corrupção, o tráfico de drogas, o desprezo pela dignidade da pessoa, a indiferença perante o sofrimento e a precariedade? À vista de tudo isto, à vista desta realidade que parece ter-se tornado um sistema irremovível, qual é a tentação que repetidamente podemos ter nós, os chamados à vida consagrada, ao presbiterado, ao episcopado?

Acho que a poderemos resumir numa só palavra: resignação. À vista desta realidade, pode vencer-nos uma das armas preferidas do demônio: a resignação. «E que podes tu fazer? A vida é assim». Uma resignação que nos paralisa e impede não só de caminhar, mas também de abrir caminho; uma resignação que não só nos atemoriza, mas também nos entrincheira nas nossas «sacristias» e seguranças aparentes; uma resignação que não só nos impede de anunciar, mas impede-nos também de louvar, tira-nos a alegria, o prazer do louvor. Uma resignação que nos impede não só de projetar, mas também nos trava na hora de arriscar e transformar.

Por isso, Pai Nosso, não nos deixeis cair em tentação.

Nos momentos de tentação, faz-nos muito bem apelar para a nossa memória. Ajuda-nos muito considerar a «madeira» de que fomos feitos. Não começou tudo conosco, e tampouco acabará tudo conosco; por isso faz-nos bem recuperar a recordação da história que nos trouxe até aqui.

E, revisitando a memória, não podemos esquecer-nos de alguém que amou tanto este lugar, que se fez filho desta terra. Alguém que pôde dizer de si mesmo: «Tiraram-me da magistratura para me porem na plenitude do sacerdócio por mérito dos meus pecados. A mim, inútil e completamente inábil para a execução de tão grande empreendimento; a mim, que não sabia remar, elegeram-me primeiro bispo de Michoacán» (Vasco Vásquez de Quiroga, Carta pastoral, 1554).

Permiti-me aqui um parêntesis! Agradeço ao Senhor Cardeal Arcebispo por ter querido que se celebrasse esta Eucaristia com o báculo deste homem e o seu cálice. Convosco quero lembrar este evangelizador, conhecido também como Tato Vasco, como «o espanhol que se fez índio».

A realidade vivida pelos índios Purhépechas – que ele descreve como «vendidos, vexados e errando pelos mercados a recolher os restos que se deitavam fora» –, longe de o fazer cair na tentação da acédia [inércia] e da resignação, moveu a sua fé, moveu a sua vida, moveu a sua compaixão e estimulou-o a realizar várias iniciativas que permitissem «respirar» no meio desta realidade tão paralisante e injusta. A amargura do sofrimento dos seus irmãos fez-se oração e a oração fez-se resposta concreta. E isto valeu-lhe, entre os índios, o nome de «Tata Vasco» que, na língua purhépechas, significa «papai».

Pai, Papai, Tata, Abbá…. Esta é a oração, esta é a palavra que Jesus nos convidou a dizer.

Pai, Papai, Abbá, não nos deixeis cair na tentação da resignação, não nos deixeis cair na tentação da acédia [inércia, preguiça], não nos deixeis cair na tentação da perda da memória, não nos deixeis cair na tentação de nos esquecermos dos nossos maiores que nos ensinaram, com a sua vida, a dizer: Pai Nosso.

Fonte: ZENIT.ORG – Terça-feira, 16 de fevereiro de 2016 – Internet: clique aqui.

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