Os motivos religiosos e políticos por detrás dos conflitos no Oriente Médio
O Islã contra o Islã
Shahid Javed
Burki
Project
Syndicate
Diretor
do Instituto de Políticas Públicas de Lahore (Paquistão)
Conflitos entre fundamentalistas e reformistas reflete
choque de visões
de mundo do ponto de vista teológico e político
Os
tumultos tomaram conta de grande parte do mundo muçulmano. Na Síria, uma guerra brutal já provocou a
morte de 250 mil pessoas, desalojou metade dos 21 milhões de habitantes do país
e um milhão de sírios fugiu para a Europa em busca de asilo. No Iêmen, a tribo dos Houthis se insurgiu
contra o governo e agora é alvo de ataques aéreos liderados pelos sauditas. Conflitos como esses são causados por
inúmeros fatores, especialmente os conflitos entre as seitas islâmicas sunita e xiita e entre fundamentalistas
e reformistas.
O regime alauita do presidente sírio Bashar Assad desfruta do apoio de potências xiitas, em particular do Irã, cuja
influência regional depende da manutenção de regimes xiitas no poder.
Exatamente por isto as potências sunitas
– particularmente a Arábia Saudita – estão empenhadas em derrubar o regime
iraniano. Ao passo que o governo do Iêmen é formado por sunitas e tem o
respaldo da Arábia Saudita, daí os bombardeios contra os Houthis xiitas
apoiados pelo Irã. Desse modo não é surpresa
a intensificação das tensões entre Irã e Arábia Saudita que culminou na
ruptura das relações diplomáticas por causa da execução pela Arábia Saudita de
um clérigo xiita em janeiro.
O
caos provocado por esses conflitos e a instabilidade em outros países na
região, como Afeganistão e Iraque, possibilitaram a ascensão de algumas forças
realmente desprezíveis, a começar pelo Estado
Islâmico (EI). Este grupo se tornou tão influente que os generais dos
Estados Unidos pediram autorização ao presidente Barack Obama para aumentar o
número de tropas que lutam contra a organização. Além disso, há notícias de que os EUA podem adiar a
retirada dos seus soldados do Afeganistão, onde uma guerra cada vez mais brutal
contra o governo permitiu ao Taleban conquistar território e abriu espaço para
o Estado Islâmico começar a operar ali. O EI também penetrou no Paquistão.
O aspecto religioso dos
conflitos que hoje devastam o Oriente Médio é uma importante razão pela qual é
tão difícil neutralizá-los. O cisma entre sunitas e xiitas remonta ao ano 632, quando o profeta
Maomé morreu sem indicar como a comunidade islâmica deveria escolher seu
sucessor. Para os que se tornaram xiitas
o sucessor devia pertencer à família imediata do profeta e eles defendiam a
escolha de Ali Ibn Abi Talib, primo e
cunhado de Maomé. Os que seguiram o
caminho sunita defendiam a escolha de um sucessor entre os membros mais velhos
da comunidade, como Abu Bakr, que havia
sido o auxiliar mais próximo de Maomé.
Hoje, grande parte dos 1,6
bilhão de muçulmanos no mundo é sunita e essa população está muito dispersa,
espalhada numa vasta faixa de terra que vai do Marrocos até a Indonésia. Depois de décadas de
migração para Europa e América do Norte, hoje existem comunidades sunitas
sólidas em vários países ocidentais.
Quanto aos xiitas, são 225
milhões de fiéis e estão mais concentrados geograficamente. O Irã, com 83 milhões, é o maior país de predominância xiita do mundo,
seguido pelo Paquistão, com 30 milhões e a Índia com 25 milhões. O
“crescente xiita” – que inclui o Irã e seus vizinhos imediatos Afeganistão,
Azerbaijão, Iraque, Paquistão e Turquia – representa 70% da população da seita.
Essa
distribuição geográfica é resultado de uma série de fatos históricos, uma
combinação de conquistas e conversões (com frequência forçadas). Embora o
islamismo tenha chegado ao Irã por meio da conquista, em 637-651, o país só
adotou oficialmente o xiismo depois de quase um milênio, com o Xá Ismail I, da dinastia Safavid
iniciando em 1501 a conversão forçada da população sunita do país.
O xiismo se estendeu para o sul da Ásia
com as repetidas incursões militares dos persas que penetraram no Afeganistão e Índia. Hoje a população xiita desta região está concentrada em
áreas urbanas e compreende no geral os descendentes dos soldados e outros
funcionários de governo que permaneceram nos territórios conquistados.
[O papel da Arábia
Saudita na radicalização do Islã]
O islamismo sunita foi propagado no sul da
Ásia pelos santos sufis, muitos deles vindos da Ásia Central, que pregavam
uma forma mais tolerante e aberta de islamismo do que a adotada na Península
Arábica. Mas a influência crescente da Arábia
Saudita após a década de 70, quando a disparada dos preços do petróleo
contribuiu para aumentar a riqueza do país, contribuiu para impulsionar a
difusão da austera seita wahabi predominante no reino saudita.
Além de atrair milhões de
trabalhadores muçulmanos do sul da Ásia, a Arábia Saudita financiou a criação
de madraças [escolas
muçulmanas] wahabistas ao longo da
fronteira entre Paquistão e Afeganistão. O Taleban, tanto no Afeganistão como no Paquistão, é produto desses
seminários, como também milícias como a Lashkar-e-Taiba
e Lashkar-e-Jhangvi, que perpetraram
ataques contra centros religiosos na Índia.
A
convulsão que observamos hoje reflete um choque de visões de mundo tanto do
ponto de vista teológico como político. Os
sunitas conservadores e os que acatam a crença
wahabi defendem um governo autoritário autocrata, ao passo que os sunitas sufi, mais moderados, preferem
sistemas políticos liberais e abertos. Do mesmo modo que os xiitas. No Irã há muito tempo prevalece um governo
teocrático, mas hoje o país parece propenso a reformas. Quanto a saber se a
divisão sectária será um dia superada, isto dependerá de os reformistas
conseguirem exercer influência suficiente nos dois campos. Caso contrário o
conflito continuará, acelerando o colapso da ordem regional que observamos
hoje.
Traduzido do inglês por Terezinha Martino. Acesse a versão original deste artigo, clicando aqui.
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