MORAL CRISTÃ NÃO É "TUDO" OU "NADA" !
Reinaldo José
Lopes
Fala de Papa Francisco sobre evitar o contágio com o
vírus da zika
reconhece que dilema moral não é “tudo ou nada”
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PAPA FRANCISCO Concedendo entrevista a jornalistas a bordo do avião que o levava de Ciudad Juárez (México) para Roma (Itália) Quarta-feira (à noite), 17 de fevereiro de 2016 |
A
declaração do papa Francisco sobre a possibilidade
do uso de contraceptivos para evitar a transmissão do vírus da zika, embora
importante, na verdade retoma um
princípio antigo da doutrina cristã, que os teólogos costumam chamar de gradualismo
ou lei
da gradualidade.
Esse
princípio é um reconhecimento do fato de que dilemas morais, muitas vezes, não
são uma questão de tudo ou nada, mas também podem envolver a escolha do menor dos males. É mais ou menos o
mesmo raciocínio por trás de outra declaração papal aparentemente bombástica
sobre o tema, só que feita pelo suposto ultraconservador Bento XVI em 2010.
Em
entrevista a um jornalista alemão, o hoje papa emérito disse que, se um homem passa a se prostituir, mas
decide usar preservativos para não transmitir o vírus HIV [da AIDS] a suas parceiras, isso pode ser
considerado "um primeiro passo num movimento rumo a um jeito diferente e
mais humano de viver a sexualidade".
Não
se trata de um selo de aprovação papal para as camisinhas, mas de um reconhecimento
da complexidade moral da situação.
Ao
citar o papa Paulo VI (1897-1978),
que autorizou freiras que viviam numa zona de guerra na África a tomarem
anticoncepcionais para não ficarem grávidas de estupradores, Francisco revela
pensar do mesmo modo.
Vale
notar, além disso, que ainda assim ele
considera que a situação da zika representa um conflito entre dois dos Dez
Mandamentos:
* o quinto (não matar) e
* o sexto (não pecar contra a
castidade).
Seria, portanto, uma questão
de escolher o mal menor, e não propriamente o bem – vidas humanas valem mais do que seguir o
"plano de Deus" para a sexualidade humana.
Os
críticos tradicionalistas de Francisco provavelmente vão usar essa última
declaração para ressaltar o que veem como falta de rigor filosófico do papa.
Afinal, haveria tanta diferença assim entre uma mulher que corre o risco de
transmitir zika ao seu feto e outra que vive em pobreza abjeta? Ele não estaria
abrindo uma janela potencialmente enorme para a rejeição da doutrina
tradicional?
A
isso, Francisco talvez respondesse com uma das frases que sempre repete: "A realidade é superior à ideia".
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