"O Papa não tolera maus-tratos ao povo"
Entrevista com Gianni Valente
Riccardo
Benotti
Servizio Informazione Religiosa – SIR
22-02-2016
A reflexão de um jornalista após a visita de
Papa Francisco ao México
"Francisco valoriza e aplaude os que vivem a
vocação como serviço ao povo de Deus, e adverte aqueles que reduzem a
vocação religiosa a um trabalho, ou pior, a um instrumento de dominação. É uma
experiência que ele mesmo viveu como sacerdote e bispo".
Assim
o jornalista Gianni Valente reflete
alguns dos principais temas emersos na visita apostólica do Papa ao México:
* questão migratória,
* tráfico de drogas,
* fronteiras,
* fé do povo,
* prisões,
* figura do padre e dos religiosos,
* abusos sexuais,
* China.
"Exercer
o juízo é próprio do papel do Papa, mas não se trata de afirmar seu poder
político: a referência é o Evangelho. Na simplificação feita pelos meios de
comunicação, as palavras de Francisco foram lidas como excomunhão direta de um
personagem político. Mas na verdade expressavam um critério aplicável a todos,
ou seja, que um certo tipo de abordagem
do fenômeno da migração não é cristã. Isso não leva automaticamente a um
repúdio de caráter político".
Esta
é a convicção do jornalista Gianni Valente, comentando a resposta dada pelo
papa Francisco, durante o voo de regresso da viagem apostólica ao México (12-18
de Fevereiro), a uma pergunta a respeito de Donald Trump, candidato republicano para a presidência dos Estados
Unidos da América (EUA): "uma pessoa
que só pensa em fazer muros, esteja onde estiver, e não em fazer pontes, não é
cristã".
Eis
a entrevista.
A
gestão dos fluxos migratórios sempre foi uma preocupação do Papa.
Gianni Valente: Acolher o estrangeiro é uma
das obras de misericórdia corporal. É um critério que pode ser aplicado às
escolhas políticas europeias. Trata-se de um problema epocal de dimensões
globais. Neste sentido, a viagem ao México estava cheia de mensagens ao mundo.
A abordagem do Papa foi realista, sem perseguir idealismos abstratos ou falsos voluntarismos.
Francisco recorda o acolhimento como
única solução possível para gerir politicamente o fenômeno migratório.
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PAPA FRANCISCO Embarcando no avião que o conduziu pelo México em sua visita apostólica de 12 a 17 de fevereiro |
Que
razões levaram Francisco a enfrentar uma viagem ao México?
Gianni Valente: O México está no coração do
Papa. A devoção mariana, característica da América Latina, encontra uma das
mais altas expressões em Nossa Senhora de Guadalupe. Além disso, o México é um lugar
de fronteira, perpassado por guerras de vários tipos. Francisco conhece a
influência do tráfico de drogas sobre a economia mundial, desde quando era
arcebispo de Buenos Aires. É um dos temas mais recorrentes em suas reflexões,
juntamente com o tráfico de armas.
Na
Argentina, não media esforços para dar suporte aos sacerdotes que, nas áreas
marginais, nas villas miseria,
levavam adiante projetos de assistência e prevenção às novas gerações. Buenos
Aires era um território no qual a indústria do narcotráfico vendia o lixo do
processamento.
A
droga mais popular era o "paco",
substância de baixo preço, mas de grande agressividade.
O
México também é um país de maioria católica ...
Gianni Valente: Não obstante, é um lugar de
contradição. Por um lado, é evidente a fé autêntica do povo, da qual Francisco,
como peregrino, queria beber. Por outro lado, no entanto, a devoção tão
visceral a Jesus e Maria choca-se com o fenômeno
da desumanização, contra o qual um povo inteiro não consegue encontrar
contramedida. Também por isso o Papa convidou a olhar para Cristo e para o
exemplo da Virgem Maria como fontes de uma nova humanidade.
Antes
de voltar para o Vaticano o Papa encontrou-se com os prisioneiros em Ciudad
Juárez. O tema das prisões é recorrente no seu pensamento?
Gianni Valente: Também visitar os
prisioneiros é uma das obras de misericórdia corporal. No ano do Jubileu
extraordinário, Francisco quer acompanhar toda a Igreja neste caminho. O
discurso aos presos foi um dos momentos mais tocantes da visita: o Papa
reiterou a dinâmica da misericórdia, que não força de fora, mas que cuida das
situações difíceis, e abre para um futuro nunca totalmente perdido.
À
Nossa Senhora de Guadalupe o Papa pediu "para que os padres sejam
verdadeiros padres, as religiosas, verdadeiras religiosas e os bispos,
verdadeiros bispos".
Gianni Valente: A conversão pastoral da Igreja é a base. No lembrete constante para
serem autênticos sacerdotes, freiras e bispos não há fúria rigorista.
Simplesmente o Papa sugere que todos
possam reconhecer a fonte da vocação. É preciso lembrar-se que no início
havia uma força atrativa, e romper com a dinâmica da atrofia.
Francisco
valoriza e aplaude aqueles que vivem a
vocação como serviço ao povo de Deus, e adverte aqueles que reduzem a
vocação religiosa a um trabalho, ou pior, a um instrumento de dominação.
É
uma experiência que ele mesmo viveu como sacerdote e bispo. A imagem de um povo
fiel e bom oprimido pelo clero. O Papa
não tolera que o povo seja maltratado. Daí o convite de sempre seguir o sensus fidei do povo, porque ali age a graça
de Cristo. Aos Bispos do México disse:
"Não se deixem apanhar pela vã procura de mudar o povo, como se o amor de
Deus não tivesse força suficiente para isso".
Ao
falar sobre o flagelo da pedofilia na viagem de volta, o Papa disse que
"um bispo que transfere um padre de paróquia, quando se verifica um caso
de abuso infantil, é um inconsciente, e a melhor coisa que poderia fazer é
apresentar sua renúncia".
Gianni Valente: É significativo que o Papa
aproxime o tema da pedofilia ao das missas negras. O abuso de menores, em sua
percepção, especialmente quando cometidos por religiosos, recordam um
sacrifício humano com traços diabólicos.
Não
se trata de insistência voltada a agradar as dinâmicas midiáticas. Para
Francisco, na pedofilia se toca o coração do mistério do mal, que é ainda mais
devastador quanto perturba a relação de confiança entre as novas gerações e
aqueles que deviam testemunhar-lhes o amor de Jesus.
"A
China ... ir para lá: Gostaria muito", disse o Papa. É uma hipótese
viável, mas em que prazo?
Gianni Valente: Os tempos, não os
conhecemos. Francisco mandou uma
mensagem clara à China: ele está pronto para ir. Estima a civilização
chinesa e sente-se próximo ao povo. Católicos e bispos chineses estão contentes
com a pregação do Papa, seguido com facilidade por meio dos novos meios de
comunicação.
É
incrível o que acontece na China no Ano de Misericórdia: abrem-se centenas de
Portas Santas, até nas pequenas aldeias, e os bispos escrevem cartas pastorais
retomando o conteúdo do Misericordiae
Vultus. Todos esperam que se encontre
o caminho para a normalização das relações entre a Santa Sé e o Governo, para
que seja mais fácil para os católicos viverem sua fé na dimensão quotidiana.
Traduzido do italiano por Ramiro Mincato. Para acessar a versão
original desta matéria, clique aqui.
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