Pedofilia: Vaticano confirma a obrigação de denunciar os abusos
Salvatore
Cernuzio
Comissão para a Proteção de Menores reitera a
“responsabilidade ética e moral” da denúncia de abusos
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PATRICK O'MALLEY Cardeal-arcebispo de Boston (Estados Unidos) e presidente da PONTIFÍCIA COMISSÃO PARA A PROTEÇÃO DE MENORES - VATICANO |
Nunca
houve tantas atenções voltadas à Pontifícia
Comissão para a Proteção de Menores, a equipe internacional criada pelo
papa Francisco em 2014 para combater o
flagelo dos abusos contra crianças e adolescentes na Igreja. Após a
polêmica dos últimos dias em torno ao desligamento de Peter Saunders da comissão, foi
divulgado hoje um novo comunicado, assinado pelo cardeal presidente Sean O’Malley, afirmando a:
“responsabilidade
moral e ética” de denunciar “às autoridades civis”
quaisquer
abusos cometidos por padres contra menores.
Na
semana passada, a comissão tinha sido indiretamente arrastada para a berlinda
pela imprensa de língua inglesa, que dera destaque às declarações de um
expoente vaticano segundo o qual não haveria obrigação dos bispos de denunciar
casos de abusos.
“Bispos católicos não são
obrigados a denunciar abusos do clero contra crianças, diz o Vaticano”: esta
foi a manchete, totalmente tendenciosa e mentirosa, estampada pelo jornal The Guardian, que trazia declarações de
mons. Tony Anatrella, conhecido especialista em psiquiatria e psicologia, que
davam a entender a suposta preparação de um novo documento da Santa Sé sobre os
abusos e a pedofilia.
A Comissão teve de intervir
com a seguinte declaração:
«Como
o papa Francisco tão claramente afirmou, “os crimes e os pecados dos abusos
sexuais contra crianças não devem nunca mais ser mantidos em segredo. Eu
garanto a zelosa vigilância da Igreja para proteger as crianças e a promessa da
plena responsabilidade para todos”.»
(27
de setembro de 2015), dizem as primeiras linhas do texto.
O
cardeal O’Malley, em nome dos 16
membros da comissão, afirma também “que as nossas obrigações no âmbito do
direito civil devem ser respeitadas, certamente, mas, para além desses
vínculos, todos temos a responsabilidade
moral e ética de denunciar supostos abusos às autoridades civis, que têm a
tarefa de proteger a nossa sociedade”.
Continua
o comunicado: “Nos Estados Unidos, os nossos bispos afirmam claramente a
obrigação de todas as dioceses e eparquias e de todos os seus membros de
relatar as suspeitas de abuso às autoridades públicas. Todos os anos, em nossa
reunião de novembro, em uma sessão de formação para os novos bispos, esta
obrigação é reiterada; e em cada mês de fevereiro, a segunda conferência propõe
um programa de formação para os novos bispos que reforça de forma clara e
explícita esta obrigação”.
Portanto,
encerra a nota, “como comissão consultiva do Santo Padre para a proteção dos
menores, partilhamos recentemente com o papa Francisco uma visão panorâmica dos
esforços de educação da Comissão para as Igrejas locais ao longo dos últimos
dois anos, e reafirmamos a vontade dos membros de fornecer material para os
cursos oferecidos em Roma, incluindo, entre outros recursos, o programa anual
de formação para os novos bispos e para os escritórios da Cúria romana, a fim
de que possam ser usados em seus esforços para proteger os menores”.
Sobre
o artigo leviano do jornal The Guardian,
já tinha intervindo nos últimos dias o padre
Federico Lombardi, explicando que tudo se referia a um relatório feito por mons. Anatrella: “La relation pastorale, l’équilibre de la vie affective des pretres, et
problèmes de déviances” [tradução: A
relação pastoral, o equilíbrio da vida afetiva dos padres e problemas de
desvios]. O relatório tinha sido publicado no volume coletivo “Testemunhas do Ressuscitado – Atas do
curso anual de formação para novos bispos”, organizado em 2015, como o é
anualmente, pela Congregação dos Bispos.
“Portanto”, disse Lombardi, “este não é de modo algum (como alguém
erroneamente interpretou) um novo
documento do Vaticano ou uma nova instrução ou novas diretrizes para os bispos,
e sim uma conferência de um perito, publicada juntamente com várias outras
sobre vários temas. Anatrella não diz nada de novo ou de diferente do que
foi dito até agora pelas instituições eclesiásticas competentes”.
O
comunicado de imprensa de hoje foi o segundo da comissão anti-abusos no espaço
de uma quinzena. O primeiro, do dia 8 de fevereiro, tratava do encontro de uma
semana, nos primeiros dias do mês, em Roma, em que os membros discutiram a
orientação e os objetivos da própria comissão, apresentando novas iniciativas e
corroborando a decidida e capilar colaboração com os bispos das diferentes
dioceses.
Pouco
antes, no sábado, 6 de fevereiro, um comunicado vaticano tinha anunciado a
“defenestração” de Peter Saunders da
comissão. Ele é um inglês que foi vítima
de abuso por parte um padre. O texto falava de “um período de expectativa
da sua participação como membro a fim de refletir sobre como ele pode melhor
contribuir para o trabalho da comissão”. Peter, porém, disse à mídia britânica
que foi afastado sem aviso prévio – declarações mais uma vez desmentidas pelo padre Lombardi, que explicou que a saída do homem tinha sido o
resultado de “uma decisão unânime dos membros da comissão, com apenas uma
abstenção”.
Peter
Saunders, em comparação com os outros consultores, era o mais exposto à mídia.
Ele já tinha feito duras acusações, ao vivo na TV australiana, contra o cardeal George Pell, a quem acusava de “desprezo” pelas vítimas e de “sociopatia”. O britânico exigia a renúncia do cardeal de “posições importantes no Vaticano” e, em outras ocasiões,
também criticou o excesso de confiança depositado nele pelo papa.
As
mordazes declarações foram refutadas pela Secretaria de Economia, da qual Pell
é o cardeal prefeito. A própria comissão tomou distância desses pronunciamentos
e a única a quebrar o silêncio, até agora, foi Mary Collins, irlandesa, também
ela abusada no passado por um padre. Em nota escrita a título pessoal para
o National Catholic Reporter, ela
explicou que a questão nasceu em torno à
“diferença de compreensão da missão e dos poderes da comissão”.
Movida
pela mesma transparência por que luta na Igreja há anos, Collins se disse “triste” pelo epílogo do caso do colega e revelou
ter sido dela a abstenção na votação que levou ao congelamento da participação
de Saunders. No entanto, Collins também afirmou compreender por que a maioria
tinha tomado essa decisão (que não é um “voto de desconfiança”) e reiterou total confiança na comissão e nos
seus membros.
Essa confiança, porém,
Collins não alimenta na CÚRIA ROMANA, a quem acusa de obstruir as decisões da
comissão e do próprio papa Francisco.
“Estou pessoalmente frustrada com a falta de
cooperação da Cúria e com o fato de que isso pode ser prejudicial para o
trabalho da comissão e para a proteção das crianças no futuro. Tornou-se claro
que existem na Cúria aqueles que consideram a participação da comissão quase
como uma interferência no trabalho que sempre foi feito”.
Neste
ponto, convém esperar e ver: essas
palavras levarão os escritórios da Cúria a se moverem para a cooperação ou levarão
à remoção de Mary Collins da comissão?
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