EDUCAÇÃO SE TRADUZ EM MAIOR CRESCIMENTO!
O paradoxo da América Latina
Claudia Costin
Diretora
Sênior Global de Educação do Banco Mundial
Crescimento econômico de longo prazo pode ser explicado
pela qualidade da educação
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ERIC HANUSHEK Professor de Economia e Pesquisador da Relação Educação-Desenvolvimento Econômico Universidade de Stanford (Estados Unidos) |
Participei
em Washington do lançamento do novo livro do celebrado professor de Economia de
Stanford Eric Hanushek, The Knowledge Capital of the Nations (O
Capital Cognitivo das Nações, em tradução livre). Nele Hanushek defende a tese de que não basta ampliar o acesso à educação ou
aumentar os anos de escolaridade média de um país para que haja crescimento de
longo prazo. O fundamental é assegurar
aprendizagem.
Para
justificar sua tese o autor usa dados de escolaridade média da população e seu
impacto no crescimento de 1960 a 2000 e compara com o impacto do Programa Internacional de Avaliação de
Estudantes (Pisa), organizado pela OCDE e aplicado a jovens de 15 anos, e
do Tendências Internacionais em
Matemática e Ciências (Timss), um teste mais centrado no currículo de cada
país, duas importantes avaliações que medem a aprendizagem de alunos em
diversos países. A comparação evidencia que, apesar de mais anos de escolaridade resultarem em maior salário para o
indivíduo, isso não se traduz em taxa maior de crescimento de longo prazo para
o país.
Evidentemente,
o investimento em educação de qualidade
não deve ser justificado apenas por sua importância para o crescimento. Nos
chamados Objetivos do Milênio,
aprovados pela ONU, fica muito clara a consagração da educação como um direito
de cada criança e adolescente. Mas não
perceber o indiscutível vínculo entre educação e crescimento e não atuar para
mudar a realidade de índices ainda inaceitáveis de aprendizagem de nossos
jovens pode ser uma das razões por que o Brasil, mesmo em tempos de bonança
tem apresentado índices de crescimento modestos.
Para
tornar mais clara sua tese Hanushek
compara a América Latina à Ásia do Leste. Um observador transportado de volta a
1960, argumenta, poderia pensar que a América Latina estaria iniciando um ciclo
de significativo e persistente crescimento econômico. Tanto o nível de renda
quanto a escolaridade média da população (com exceção do Brasil, no segundo
caso) eram bem superiores aos da Ásia do Leste. Mas essa não é a realidade dos
anos recentes. Estive recentemente na
Coreia e não pude deixar de ficar maravilhada por esse país que, marcado no
passado por expressiva pobreza, invadido com frequência por seus vizinhos,
em guerras que devastaram parte de seu território, é hoje considerado um dos mais desenvolvidos do mundo. O mesmo se
pode dizer de outros países da região que também passaram nos anos 1940-50 por
guerras e pobreza extrema e agora são economias sólidas.
Por que a América Latina não
seguiu padrão semelhante? Essa é a pergunta de Hanushek.
Por
muitas razões, algumas associadas à força das instituições e à possibilidade de
geração de empregos. Mas, para
Hanushek, 80% do crescimento econômico de longo prazo pode ser explicado pela qualidade da educação. Não pela qualidade tomada
em sentido genérico, por vezes confundida com o gasto em educação, mas pela medida da aquisição de competências
relevantes de sua população. A melhor medida seriam os resultados de
aprendizagem, medidos em avaliações internacionais.
E como se sai a América
Latina no Pisa? Nada bem, com a honrosa exceção do Chile, que mesmo assim ainda conta
com porcentual grande de jovens que estão abaixo dos níveis mínimos de
letramento e raciocínio matemático. A
Ásia do Leste, em contrapartida, vem disputando as melhores colocações no Pisa,
com resultados de crescimento de longo prazo igualmente expressivos.
Mas a questão é como
melhorar de forma expressiva a aprendizagem dos alunos. Muitas das medidas
adotadas por Xangai ou pela Coreia não são replicáveis, todavia há quase um consenso entre pesquisadores de
que:
* o mais importante para
melhorar a educação é atrair e reter
bons professores, formados para a
atividade docente, e não apenas para serem estudiosos de educação,
* dar-lhes materiais de apoio adequados,
* uma definição clara de expectativas de aprendizagem que permitam
equidade no sistema,
* formação continuada que contemple tempo de trabalho colaborativo entre mestres e observação do trabalho em sala de aula de colegas e
* um mecanismo de reforço escolar para as crianças e jovens que aprendem em
ritmo diferente.
Evidentemente,
há outras tarefas para assegurar uma educação de qualidade a todos, mas sem essas medidas pouco se pode avançar na
agenda da qualidade. O Brasil foi o país que mais progrediu em Matemática
de 2003 a 2012 (os dados do Pisa de 2015 serão divulgados só em dezembro), mas
ainda amarga a 58.ª posição entre 65 economias. Argentina, Colômbia e Peru
estão atrás do Brasil no Pisa. Precisamos, como subcontinente, garantir que os
jovens tenham condições de viver em países que crescem e geram empregos para os
quais estejam preparados. Isso se torna particularmente importante dado o
momento que muitos países da América Latina vivem em termos de transição
demográfica: a taxa de dependência – ou seja, o número de dependentes por
adulto em idade de trabalhar – caiu, pela queda na taxa de fecundidade das
mulheres, mas deve em breve aumentar, em razão do crescente envelhecimento da
população. Enquanto esse segundo movimento não ocorre, temos uma janela de
oportunidade para assegurar um crescimento mais sustentável dos países.
E para que os jovens possam ter uma vida
autônoma (em que, evidentemente, a empregabilidade é um elemento
importante) e significativa, realizando
seus sonhos, é importante que a escola seja interessante e possa dotá-los das
competências de que necessitam no século 21. Daí a relevância da discussão
em curso no Brasil sobre a Base Comum
Nacional. Em outros termos, educação
de qualidade deve se traduzir em que competências?
Essas
são, sem dúvida, tarefas gigantescas para países que vivem imersos em suas
crises de curto prazo e, por vezes, como no caso brasileiro, se esquecem de
olhar para a frente e pensar no que se querem construir.
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