Três consequências da grave crise econômica brasileira
Recessão leva empresas brasileiras a buscar
oportunidades fora do País
Mônica
Scaramuzzo
Consultas para investir nos Estados Unidos saltaram
70%
no ano passado, enquanto no Reino Unido procura aumentou
30%, segundo organizações comerciais desses países
![]() |
MAIS E MAIS EMPRESAS BRASILEIRAS Estão de olho no mercado exterior, inclusive transferindo operações para fora do país! |
A
crise econômica, agravada pelo cenário político turbulento, tem acelerado os
planos de expansão de empresas brasileiras no exterior. Com o real
desvalorizado, muitas companhias,
sobretudo as de commodities, buscam
ampliar as exportações. Boa parte também tem arriscado a abrir subsidiárias em outros países, como forma de
diversificar receita e reduzir a dependência do mercado interno.
O
fluxo maior de expansão no exterior, segundo especialistas ouvidos pelo Estado,
é para os Estados Unidos da América (EUA), reflexo do maior potencial do
mercado consumidor americano. As
consultas para investir nos EUA saltaram 70% no ano passado, para 7,6 mil, de
acordo com a Câmara Americana de Comércio (Amcham), com base em downloads
baixados no site da Amcham por
interessados em fazer negócio nos EUA. O
mesmo movimento, um pouco mais contido, foi observado para o Reino Unido.
No mesmo período, houve acréscimo de 30% em consultas para investir na região,
segundo a agência britânica de comércio e investimentos (UKTI), que conta com
82 empresas brasileiras, de diferentes portes, e espera crescimento de 20% este
ano.
[.
. .]
Alguns
exemplos
A mineradora Magnesita, produtora de
materiais refratários – usados pelas indústrias siderúrgicas –, controlada pela
GP Investments, está se preparando
para transferir sua sede para Londres.
A empresa, que aprovou a criação da holding Mag Internacional no fim de 2015,
pretende listar suas ações na London
Stock Exchange e seus principais executivos – presidente, diretor
financeiro e jurídico e de relações institucionais – já preparam a mudança.
Não
à toa, os dois principais bancos
privados brasileiros (Itaú e Bradesco) transferiram
sua sede na Europa para Londres. Antes em Luxemburgo, o Bradesco se mudou
no ano passado para se aproximar dos investidores globais, diz Marcelo Cabral,
executivo do Bradesco na Europa.
Em
franco processo de internacionalização, o Itaú transferiu em 2012 a sede de
Portugal para Londres. Renato Lulia, presidente do Itaú BBA Internacional, diz
que a mudança foi estratégica. De Londres, Lulia também coordena as operações
da Ásia e Oriente Médio. “Vale lembrar
que há mais estrangeiros interessados em investir no Brasil, porque o País está
barato. Como um banco internacional, ampliamos daqui as operações de fusões
e aquisições.”
[.
. .]
A BRF (dona de Sadia e Perdigão) anunciou no
fim de 2015 a compra da Universal Meats, com foco em alimentação fora do lar na
Inglaterra, por £ 34 milhões. “Entre
os 28 países da comunidade europeia, a Inglaterra é o que mais importa carne de
frango”, diz Roberto Banfi, presidente da BRF na Europa. “O investimento na Europa responde por uma
fatia importante do faturamento da BRF no exterior.” No processo de
internacionalização, a BRF comprou ainda
uma operação na Argentina e outra na Tailândia que, com a Universal Meats,
vão dobrar a capacidade de produção fora do Brasil, para 8% do total.
Empresas
brasileiras de pequeno e médio portes estão avaliando ir para os Estados
Unidos. A demanda já estava aquecida nos últimos anos, mas começou a crescer, a
partir de 2014. A indústria Marisol e a
farmacêutica Biolab, uma das mais inovadoras do País, estão entre as que
estudam entrar no mercado americano, apurou o jornal O Estado de S. Paulo.
“Já
havia uma grande procura, mas as incertezas com os rumos da economia, após a
última eleição presidencial, aceleraram o processo de decisão de alguns
empresários”, diz Pedro Drummond, advogado e sócio da empresa Drummond, com sede
em Boston (EUA) e escritórios no Brasil. A empresa presta consultoria para
empresários que pretendem investir no território americano e tem o apoio da
Câmara Americana de Comércio Brasil-Estados Unidos (Amcham).
[.
. .]
Cleiton
de Castro Marques, presidente e um dos sócios do laboratório brasileiro,
afirmou que já abriu um escritório em Miami para prospecção de negócios.
Segundo ele, o objetivo é adequar os dossiês de medicamentos com os órgãos
reguladores americanos, o que poderá expandir o campo de atuação do grupo
brasileiro. A Biolab ainda está
investindo em um centro de pesquisa e desenvolvimento (P&D) em Toronto, no
Canadá.
A rede de lojas Marisol também analisa ir
para os Estados Unidos para se internacionalizar. Esse projeto, contudo, está
em fase inicial, segundo informações da empresa. A companhia está sendo
assessorada pela WTC Business Club,
que dá apoio a empresas que pretende disputar o mercado externo. “Não estamos restritos
aos Estados Unidos”, disse o presidente da WTC Business Club, Bruno Bomeny.
[.
. .]
Desemprego chega ao trabalho qualificado
Luiz Guilherme Gerbelli e Renée Pereira
No ano passado, segundo dados do Caged, foram fechadas
115 mil vagas para profissionais com Ensino Superior completo ou incompleto
A
rápida deterioração do mercado de trabalho já começou a atingir os
trabalhadores mais qualificados. Pelos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego, no
ano passado, foram fechados 115 mil postos de trabalho com carteira assinada
para os brasileiros com Ensino Superior incompleto ou concluído – um sinal preocupante da piora acelerada da
atividade econômica em 2015 e que deve continuar neste ano.
A
retração no saldo marca uma importante virada. No período entre 2004 e 2014, o País sempre criou empregos para os mais
escolarizados. No auge, em 2010, quando o Produto Interno Bruto (PIB)
brasileiro cresceu 7,6%, houve abertura de 306 mil empregos com carteira
assinada para os trabalhadores com Ensino Superior completo ou incompleto. A demanda das empresas foi tão grande que
tivemos um apagão de mão de obra qualificada no País, situação que se prolongou
até o início de 2014.
O
cenário começou a mudar com o desencadeamento da Operação Lava Jato e com os
sinais de que a crise econômica veio mais forte do que se esperava. Tanto para 2015 como para 2016, os economistas
estimam que a atividade deve recuar 4,0%. Se os números se confirmarem, será o pior desempenho econômico desde 1901.
Na
esteira da retração do PIB, o mercado de trabalho passou por uma intensa piora
num curto espaço de tempo, diz o professor da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ), João Saboia. “Normalmente,
os empregados com mais qualificação são os últimos a perder o emprego porque as
empresas seguram ao máximo esses profissionais, temendo dificuldade para
recontratá-los no futuro.”
[.
. .]
“Em termos de emprego
formal, no ano passado, o País perdeu o equivalente ao que ganhou em 2013 e
2014. Neste ano, podemos perder mais dois anos em termos de criação de emprego”, diz Saboia.
[.
. .]
Deve
piorar
No
cenário da economista Alessandra Ribeiro,
sócia da Tendências Consultoria Integrada,
a situação do mercado de trabalho está longe de melhorar. As projeções apontam para um índice de
desemprego de dois dígitos ao final deste ano. Pela Pesquisa Mensal de Emprego (PME), que inclui as regiões
metropolitanas de Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e
Porto Alegre, o índice fecha 2016 acima
de 10%, diz ela. Já na Pesquisa
Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), que abrange todo o País, a taxa ficará próxima de 13%. Até o ano
passado, os dois índices estavam em 6,9% e 9,0%, respectivamente. “Acredito que
vai piorar bem o mercado de trabalho este ano.”
[.
. .]
Na
opinião de Saboia, uma recuperação do
mercado de trabalho só começará a dar sinais em 2018. Até lá, alguns milhares de trabalhadores vão
engrossar a fila dos desempregados, que até novembro do ano passado somava
9,1 milhões de pessoas. “Prevejo muita piora até meados deste ano. No segundo
semestre, pode haver uma ligeira melhora por causa da sazonalidade da
economia.”
Sem emprego, brasileiro busca
negócio próprio
Luiz Guilherme
Gerbelli e Renée Pereira
Atualmente, apenas 10% da demanda das empresas é para
preenchimento de novas vagas
![]() |
DEVIDO AO ELEVADO DESEMPREGO E REBAIXAMENTO DA RENDA muitos brasileiros(as) estão sendo obrigados a abrir seu próprio negócio! |
Nos
últimos anos, sobretudo até 2014, o fortalecimento do mercado de trabalho fez
com que os profissionais mais qualificados fossem disputados pelas empresas,
que sofriam para conseguir preencher as vagas em aberto. Mesmo com a crise econômica, muitas companhias relutaram em dispensar
os trabalhadores mais especializados. Mas sucumbiram pela paralisia da
atividade econômica e pela falta de perspectiva em relação ao futuro. Com
margens reduzidas, elas começaram a abrir mão desses profissionais.
A
piora no mercado de trabalho pode ser traduzida numa estatística da Michael Page – especializada em
recrutamento e seleção de profissionais. Atualmente,
apenas 10% da demanda feita pelas empresas é para o preenchimento de novas
vagas, enquanto 90% é destinada para substituição de trabalhadores. Antes
da crise, a relação era de 40% e 60%, respectivamente.
“As vagas que eram
destinadas para empresas que estavam montando novas áreas de negócios
diminuíram demais”, afirma Henrique Bessa, diretor da Michael
Page. “Havia muita oportunidade por causa das multinacionais que estavam
vindo iniciar operação no Brasil.”
[.
. .]
Comentários
Postar um comentário