Quais são as causas profundas de nossa atual crise?
Como chegamos até aqui?
Zeina Latif,
Marcos de Barros Lisboa e Carlos Alberto de Melo*
Se realmente as instituições estivessem funcionando,
como defendem alguns, não teríamos chegado à crise em que nos encontramos
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ZEINA ABDEL LATIF É doutora em economia pela Universidade de São Paulo (USP) e economista-chefe da XP Investimentos. Trabalhou no Royal Bank of Scotland (RBS), ING, ABN-Amro Real e HSBC. |
Na
grave crise atual, alguns analistas apontam que, ao menos, as instituições têm
funcionado adequadamente, numa referência a operações específicas, como a Lava
Jato.
Neste
artigo, fazemos um contraponto. Apesar
do avanço dos órgãos de investigação, ocorreram severos retrocessos
institucionais na última década. Se realmente as instituições estivessem
funcionando, não teríamos chegado à crise em que nos encontramos.
As INSTITUIÇÕES:
[a] não se limitam a órgãos de controle e de investigação – que, aliás, estarão
funcionando a contento quando efetivamente atenderem a um escopo mais amplo de
casos e da população. Elas incluem os
[b] Poderes Legislativo [Câmaras de Vereadores, Assembleias Legislativas
estaduais, Câmara dos Deputados Federais e Senado Federal],
[c] Judiciário [tribunais de 1ª, 2ª e 3ª instâncias, Justiça Trabalhista, Justiça
Federal, Tribunais de Contas dos estados e da União, Ministério Público etc.] e
[d] Executivo [Prefeituras Municipais,
Governos estaduais e Governo Federal, ~
[e] partidos políticos e
[f] organizações da sociedade
civil, bem
como
[g] procedimentos que regulam a
relação entre as diversas instituições, como, por exemplo, a independência dos poderes, o direito
de propriedade, e a liberdade de
imprensa, que requer meios de comunicação que não dependam da decisão
discricionária de verbas controladas pelo Poder Executivo.
Douglass North propôs o termo “Matriz Institucional”, que inclui as crenças e os códigos de conduta, que são
elementos balizadores das tomadas de decisão dos indivíduos. O respeito a
procedimentos previstos, a menor tolerância com inflação e a credibilidade da
política são, por exemplo, aspectos de uma matriz institucional eficaz.
Desde
1990, a produção acadêmica passou a estudar os impactos do desenho das diversas
instituições sobre o desenvolvimento econômico, como o respeito ao direito de
propriedade, a eficiência do Judiciário e as regras para os mercados de crédito
e os setores regulados. A melhor evidência empírica disponível corrobora a
conclusão de North: “Instituições são
mais importantes para o desenvolvimento econômico do que descobertas
científicas”.
Nos últimos anos, o Brasil
menosprezou a tarefa de constante aperfeiçoamento institucional. Imaginou-se,
incorretamente, que o salto dado com o Plano Real fosse o bastante; que a
estabilidade econômica havia se consolidado como valor da nação; que a
racionalidade econômica se estabelecera como parâmetro da vida social e da
política.
Ocorreram
inegáveis avanços nas décadas de 1990 e 2000. Comparado com outros países do
chamado Brics, o Brasil iniciou uma
trajetória de melhora institucional. Com efeito, Rússia, Índia, China e África
do Sul têm ambientes muito mais complicados que o nosso – inclua-se aí também o
México, a Venezuela e a Argentina nesse período. Uma década e meia de
crescimento razoável, em linha com o crescimento mundial, combinada com
importante queda da desigualdade de renda, bastou para que se acreditasse em
uma trajetória de desenvolvimento, como representada na famosa capa da
[revista] Economist.
Desde o escândalo do
mensalão, no entanto, o País desistiu de continuar com o processo de avanço
institucional.
Evidentemente, a expansão da economia internacional e o seu efeito doméstico contribuíram
para a escolha que negou a necessidade de ajuste na campanha eleitoral. O bom momento nem sempre é bom conselheiro.
Não se percebeu que o
sistema político caducava. Isoladas, algumas poucas vozes pregaram no deserto. Tanto quanto os
economistas, que deram excessiva importância para a macroeconomia, a maior
parte dos cientistas políticos louvou a “eficiência” do presidencialismo de
coalizão brasileiro; olhavam para as medidas que o Poder Executivo conseguia
retirar do Legislativo e viam nisso algum tipo de efetividade. Imaginou-se, até, que teríamos chegado ao
bipartidarismo, com pouquíssima distinção entre os partidos mais relevantes (PT
e PSDB). Olhava-se para a fotografia, sem compreender o filme. A dinâmica e a qualidade do processo foram
negligenciadas, que resultou em fisiologismo e voracidade crescentes,
expansão dos mecanismos para atender aos grupos de interesse, predominância do
marketing político em detrimento do enfrentamento das dificuldades e, aos
poucos, na disseminação da corrupção.
As conquistas se mostraram
frágeis frente à política de ocasião. As regras
fiscais foram sistematicamente desrespeitadas e o regime de metas de inflação
foi enfraquecido. As contas de diversos governos estaduais foram aprovadas
pelos Tribunais de Contas, apesar do virtual estado de insolvência das contas públicas. Houve retrocesso na
microeconomia, com intervenções discricionárias do Poder Executivo; ingerência sobre tarifas públicas, bancos públicos e empresas estatais; e distribuição
de privilégios para empresas e setores selecionados à margem de uma
deliberação democrática informada sobre os custos e benefícios esperados.
Enquanto isso, agências reguladoras
foram fragilizadas ao ponto de se tornarem pouco relevantes, reduzindo o
contraditório, essencial para a democracia. Cresceram as políticas
pró-negócios, conduzidas de forma discricionária pelo Executivo, em detrimento
de instituições pró-mercado, na distinção feita por Luigi Zingales.
A retomada do populismo
resultou na distribuição disseminada de benefícios aos diversos grupos,
incompatíveis com os recursos da sociedade, no crescente endividamento do poder
público e na recessão com inflação elevada – surpreendente em um período de queda do
preço do petróleo. Tudo isso sem reação adequada e tempestiva dos Poderes
Legislativo e Judiciário. Com poucas
exceções, os órgãos de controle foram apáticos, e a oposição [política], omissa. A crise decorre da ausência
do ajuste que a campanha assegurou desnecessário.
Não
houve o equilibrado contraponto dos poderes e a independência de diversos
setores públicos e privados ao Poder Executivo de plantão. Protesta-se contra o aumento de tarifas de transporte como se o
reajuste fosse culpa do gestor público, e não da inflação, a velha dama que
ressurge. O emprego está ameaçado, e os sindicatos, financiados por
recursos compulsoriamente arrecadados da sociedade, pressionam por ajustes
salariais inconsistentes com os ganhos (inexistentes) de produtividade,
aumentando o desemprego, a informalidade e os empregos em tempo parcial. Empresas enfrentam crise financeira e
muitas fecham, enquanto Brasília se mantém distante do Brasil e refém da
política pequena.
Recentemente,
o governo federal começou a discutir temas importantes, como a reforma da
Previdência, mas a sua base de apoio procurou interditar o debate, optando
pelas frases fáceis que prometem muito, desqualificam a divergência e evitam
discutir as dificuldades. O governo federal pagou as chamadas “pedaladas” por
meio de operações que requerem uma avaliação dos mecanismos utilizados. Alguns governos estaduais utilizam
depósitos judiciais entre partes privadas para pagar as suas despesas, sem a
intervenção dos órgãos de controle. Os fundos
de previdência das empresas estatais apresentam problemas decorrentes dos
investimentos realizados e induz à inevitável pergunta: qual a atribuição do
órgão regulador? Novas medidas de relaxamento fiscal e de benefícios para
segmentos do setor produtivo são propostas à custa da sociedade. O Planalto propõe um discurso incompatível
com as evidências sobre as razões da crise e se mostra incapaz de tirar o País
do atoleiro, enquanto a oposição não reage, a menos quando abraça o populismo.
Ao
contrário do senso comum, experimentamos
as consequências do retrocesso institucional dos últimos sete anos, com a retomada
do populismo que distribui benefícios para grupos selecionados em detrimento da
maioria e das novas gerações. A política se perde nos interesses pequenos e
falha na coordenação e priorização dos diversos interesses sociais.
A
grave crise do começo dos anos 1990 teve, como efeito colateral, uma agenda de
reformas institucionais, construída a partir de intensos debates na sociedade e
no governo, e permitiu a retomada da normalidade econômica, o maior
crescimento, a expansão das políticas sociais, e o fortalecimento das agências
de Estado, como o Banco Central e as agências reguladoras.
Será que a crise atual, como
nos anos 1990, permitirá enfrentar os problemas estruturais por meio de
reformas que resultem na retomada do crescimento e dos avanços sociais? Será que resgataremos a
agenda de fortalecimento das instituições democráticas, que garantam a
transparência e estimulem o contraditório? A democracia se beneficiaria de
regras e procedimentos que estabeleçam princípios para a intervenção pública,
em particular a relação com os grupos de interesse, e as suas implicações sobre
as novas gerações. A gravidade da crise
decorre dos difíceis dilemas que o populismo prefere evitar. Para benefício
da maioria, o momento requer clareza, política e liderança.
* Zeina
Abdel Latif é economista-chefe da XP Investimentos; Marcos de Barros Lisboa é presidente do Insper; Carlos Alberto Furtado de Melo, cientista
político, é professor do Insper.
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