“Não se trata de esquerda e direita, as pessoas vão contra as elites"
Entrevista
com Marta Lagos
Carlos E. Cué
"A
elite será substituída, seja de direita ou esquerda.
A sociedade
latino-americana quer igualdade perante a lei
e
direitos sociais, e acesso à justiça".
![]() |
MARTA LAGOS Dirigente do Latinobarómetro |
A
chilena Marta Lagos dirige há 20
anos o Latinobarómetro, a mais
respeitada organização de pesquisas da região, e acredita que o fundamental da
mudança é a exigência de melhor democracia.
Segundo
ela, "as sociedades latino-americanas sempre foram muito controladas.
Agora já não bastam o subsídio, a política paternalista, os caudilhos, o
populismo (...) O povo latino-americano
é mais sensível que sua elite. Os
latino-americanos não são eleitores ignorantes e manipuláveis. A aprovação
dos governos caiu 25 pontos em média nos últimos cinco anos. Ninguém mais aplaude os governantes".
Eis
a entrevista.
Por
que ocorre essa mudança na América Latina?
Marta Lagos: Existe um padrão, se chama
melhorar a democracia, existe uma
demanda de mais e melhor governo e mais democracia, que vem desde 2010. Até
essa data as pessoas acreditavam que as elites eram capazes de mudar
substancialmente as condições de vida de um país. Essa convicção é quebrada, os
protestos começam. Acaba o medo de se expressar deixado pelas ditaduras. As sociedades latino-americanas sempre
foram muito controladas. Agora já não bastam o subsídio, a política
paternalista, os caudilhos, o populismo.
Existe
uma guinada à direita?
Marta Lagos: Não vejo isso. 2003-2008 foi
o quinquênio virtuoso. O nível de educação cresce, o nível econômico aumenta. As pessoas perceberam que é possível ser
diferente no econômico, mas não somos diferentes no social. Agora surge a
demanda social. A derrota de Morales acaba por confirmar que não restará pedra
sobre pedra, o tanque irá passar por
cima dos que governaram, sejam de direita ou esquerda.
A
esquerda foi atingida por essa derrota porque existiam muitos governos de
esquerda e porque prometia acabar com a desigualdade, erradicar a pobreza.
Na
Bolívia os avanços são enormes em mobilidade social e inclusão, mas não com a
rapidez exigida pela população.
Com
Michelle Bachelet [presidente do
Chile] e Dilma Rousseff [presidente
do Brasil] acontece a mesma coisa, as
pessoas dizem e fazem muito, mas não o que eu quero.
E
agora o Peru. Mas Keiko Fujimori pode
sair daqui a quatro anos se não funcionar.
Assim
como Macri [presidente da Argentina]. As pessoas vão contra as
elites. Não se trata de esquerda e
direita, são as elites, que no fundo se comportaram como sempre.
O
que pede a população?
Marta Lagos: As pessoas querem o fim da
corrupção, que a representação seja mais ampla, mais igualdade perante a lei.
Atinge a esquerda, mas não é ela a responsável. A causa é o desenvolvimento tardio da democracia.
70%
da população da América Latina diz que a democracia não trouxe garantias
sociais, acesso à moradia, saúde, educação. As sociedades latino-americanas não
têm seguro-desemprego, ajudas. As
pessoas já não querem mais esperar. A elite será substituída, seja de
direita ou esquerda. A sociedade
latino-americana quer igualdade perante a lei e direitos sociais, e acesso à
justiça. Agora somente os que podem pagar um advogado os têm.
As
novas gerações pedem mais?
Marta Lagos: No Latinobarómetro vemos que 20%
dos jovens menores de 25 anos que só têm uma refeição por dia, que são pobres,
preferem gastar seu dinheiro em um smartphone
ao invés de em uma segunda refeição. Porque sabem que seu futuro está nessa
pequena tela, veem o mundo e dizem quero estar ali.
Disseram
a Morales que fez um bom trabalho, mas seu tempo já passou. O povo
latino-americano é mais sensível que sua elite, a Bolívia demonstra isso. Os
latino-americanos não são eleitores ignorantes e manipuláveis. A aprovação dos governos caiu 25 pontos em
média nos últimos cinco anos. Ninguém mais aplaude os governantes.
Comentários
Postar um comentário