Por que o Brasil não assusta?
MONICA DE
BOLLE
Economista
e pesquisadora do Peterson Institute for International Economics
Porque nos últimos anos optou por se tornar
irrelevante aos olhos do mundo
![]() |
MONICA DE BOLLE Economista |
Imagine
se o Brasil atual, o país contorcido por uma crise política que paralisa a
condução da política econômica, cujo endividamento público cresce sem que haja
nenhuma perspectiva de ancorá-lo por meio de ajuste profundo, fosse
transplantado para os anos 1990. Crises, caos, surtos de pânico, fortes saídas
de capital, desvalorizações e, no fim, o calvário, o FMI. Os anos 90 foram
pródigos em gerar crises dramáticas originadas nas economias emergentes,
inclusive no Brasil. Se o Brasil decapitado de hoje entrasse no túnel do tempo
e fosse arremessado àquela época, por certo não escaparia desse destino cruel.
Por que o Brasil já não
assusta?
Por que os investidores e analistas internacionais, sem falar no próprio
governo, parecem tão seguros na convicção de que o País, à beira do precipício,
está imune à dinâmica perversa que marcou uma era? Por que todos acreditam que
o País já não é risco para a economia global, não provoca contágios nefastos,
epidemias de balanço de pagamentos capazes de derrubar países? O Brasil, a maior economia latino-americana,
responsável por cerca de 40% do PIB da região, não assusta sequer alguns de
seus vizinhos, como o minúsculo Chile, a combalida Colômbia, o frágil Peru.
Como alcançamos tamanha “irrelevância”?
Há três possíveis
explicações para a relativa calmaria perante o esfacelamento brasileiro, três
reflexões interligadas que ajudam a desvendar a nossa posição no mundo de hoje.
A primeira é que neste nem tão
admirável mundo novo pós-crise financeira global, os parâmetros para avaliar
quanto um país apresenta o temido “risco sistêmico” – isto é, a possibilidade
de que crie efeito dominó perverso, irradiando sua crise para outras partes do
planeta – mudaram. Antes de o sistema financeiro americano implodir, arrastando
consigo instituições e países, a percepção do que constituía risco sistêmico
era menos dramática. Não era preciso que a crise se originasse no maior sistema
financeiro global, ou se manifestasse no país que não tardaria a tornar-se o
principal motor da economia e do comércio globais – a China. Bastava que
ocorresse algo grave em alguma economia “grande o suficiente”, ou “importante o
suficiente”, como Brasil, México, Rússia, Coreia do Sul nos anos 90. A devastação ocasionada pela crise de 2008
levou o risco sistêmico para outro patamar, que Rússia, México, Coreia, Brasil
jamais alcançaram. Por isso a queda do petróleo e suas consequências para a
economia russa não desarticulam o mundo. Por
isso também o Brasil desnorteado não é capaz de deflagrar onda de aversão ao
risco global, como outrora fazia.
A segunda
explicação possível é que neste mundo em que as políticas monetárias viraram de
ponta-cabeça, com bancos pagando aos bancos centrais pelo privilégio de deixar
depósitos nos balanços dessas instituições, credores pagando aos devedores pelo
privilégio de carregar suas dívidas, a crise brasileira é tão normal que não
merece muita atenção. A situação em que
credores pagam a devedores, e não o reverso, está aí desde que os bancos
centrais globais resolveram entrar no território nebuloso das taxas de juros
negativas. Enquanto a academia corre atrás dos gestores de política
econômica para formular estrutura teórica que permita compreender o
funcionamento de uma economia com taxas de juros negativas, mercados,
investidores e analistas se debruçam sobre as implicações desse experimento,
sem régua ou compasso.
Nesse
mundo de maravilhas estonteantes e políticas desconcertantes, o Brasil é
normal. Para a sua crise fiscal a
solução é conhecida, ainda que pareça inalcançável. A solução não é a banda
de Barbosa, tampouco as palavras vazias sobre a reforma da Previdência, que
virá em uma década, aguardem. A solução
é feijão com arroz, ajuste com reformas. As reformas que devem ser feitas tanto
para dar respaldo às contas públicas e à política monetária como para modernizar
o sistema financeiro brasileiro, tornando-o menos dependente dos bancos
públicos.
O
mundo, entretanto, não está interessado nessa conversa batida, chão pisado e
repisado. O mundo se interessa pelo exotismo não tropical das taxas de juros
negativas. E, claro, pela China.
A terceira
explicação é que o Brasil fez esforço
considerável nos últimos anos para se tornar irrelevante:
* Não reformamos quase nada,
* não integramos nossa
economia ao resto do mundo,
* continuamos apegados às
ideias do século passado, as mesmas que exaltavam o privilégio de um mercado
interno tão vasto para a indústria nacional.
Não é fácil transformar um
país de dimensão continental em país irrelevante, tratado com
condescendência tanto pelo Norte quanto pelo Sul, pisoteado pela imprensa internacional,
a caminho do retrocesso econômico e
social.
Mas
é essa a dura realidade da recessão e da inflação com dinâmica própria, das
dívidas e dos déficits elevados, da política monetária que era vidro e se
quebrou. A ciranda da rolagem da dívida
pública retornará inevitavelmente, sugando o que resta de energia ao País para
manter o governo acima da linha d’água. A estagflação [inflação alta com
recessão econômica] é nosso destino por
tempo indeterminado.
Não,
o Brasil não assusta porque a métrica
para medir o que dá medo mudou. A opção pela irrelevância nos torna ainda
menos importantes aos olhos do mundo, ainda que a nossa crise seja avassaladora
para o povo. Estamos excluídos do debate global sobre os desafios que hoje
afligem tanto a política econômica quanto a estrutura teórica que nós,
economistas, estávamos acostumamos a usar. A
influência brasileira caiu em consonância com o aumento de nossa irrelevância
mundial.
É
trágico que a nossa capacidade de assustar o mundo esteja hoje circunscrita ao vírus zika, ou zika vírus, como é
chamado no Brasil pela imprensa e pelos especialistas. A irrelevância
brasileira está tão arraigada que para falarmos da assustadora epidemia
substituímos o português correto pelo anglicismo vulgar.
Comentários
Postar um comentário